Com o novo disco cinco anos depois de dar pausa, uma das melhores bandas goianas volta sob o peso da década mais criativa do grupo

por Augusto Diniz*

Cinco anos depois de anunciar seu último hiato, em maio de 2013, a banda goiana Violins voltou à atividade e divulgou a conta-gotas seu novo disco, A Era do Vacilo. Com nova formação, o grupo agora tem no baixo Gustavo Vazquez (The Rockfellers, MQN, Dogteeth) do Rocklab Produções Fonográficas e que assumiu o posto depois da recusa de Thiago Ricco em participar do retorno do quarteto. Da formação original, seguem o vocalista e guitarrista Beto Cupertino e o tecladista Pedro Saddi.

Desde 2010, o baterista é Fred Valle (Vícios da Era), que entrou para o Violins com a saída de Pierre Alcanfôr. O irmão de Pierre, Leo Alcanfôr, havia deixado a banda depois do lançamento do terceiro disco, Grandes Infiéis (2005). Antes de Vazquez e Ricco, tocaram baixo no grupo Timóteo e Diego Britto.

Violins 451x300 - Violins lança novo disco: faixa a faixa, ouça e curta "A Era do Vacilo"
A formação atual do Violins, que retorna aos shows em agosto com o novo álbum | Divulgação

Com a formação Beto Cupertino/Fred Valle/Pedro Saddi/Gustavo Vazquez, a banda fará no 24º Goiânia Noise Festival, dia 10 de agosto, o primeiro show desde sua volta. Será a estreia ao vivo do álbum A Era do Vacilo, que foi liberado à audição pública pelo YouTube. A primeira canção, Brigas de Mão, saiu na quarta-feira, 11. A décima e última faixa do disco, Cronômetros, foi divulgada nesta sexta-feira, 20.

Uma das bandas mais criativas do rock independente brasileiro, a Violins teve seu auge entre 2005 e 2007, anos em que lançou os discos Grandes InfiéisTribunal Surdo. Do quadro da Monstro Discos, a banda começou sua história em 2001, quando ainda se chamava Violins and Old Books e cantava em inglês. Wake Up and Dream, que registra essa fase inicial, mostrava o na época quinteto em amostras mais claras das suas influências sonoras dos primeiros discos do Radiohead e Sunny Day Real State.

Em 2003, a banda encurtou o nome para apenas Violins e começou a compor em português. O disco Aurora Prisma mostra uma completa transformação na sonoridade da banda, que não abandonou completamente as influências do primeiro álbum, mas começou a flertar com outras sonoridades de caminhos diversos, como o Clube da Esquina e o Deftones. Era o primeiro passo para a melhor fase do grupo, que viria com Grandes Infiéis e se manteria no auge mesmo depois da saída do guitarrista Léo e a formação menor com apenas quatro músicos em Tribunal Surdo.

A qualidade permaneceu – não no mesmo patamar dos discos de 2005 e 2007. Vieram dois bons álbuns – A Redenção dos Corpos, em 2008, e Greve das Navalhas, dois anos depois. O curioso da história do Violins é que a virada da primeira década dos anos 2000 marca a queda da criatividade do grupo. E é justamente nessa fase que o baterista Pierre Alcanfôr deixa o quarteto.

O grupo chega a parar, mas volta com Fred Valle na bateria e lança dois discos: Direito de Ser Nada (2011) e Violins (2012). Um ano depois a banda resolve encerrar seus trabalhos, mas volta, para shows esporádicos. Comparados com os seis álbuns lançados entre 2001 e 2010, Direito de Ser Nada e Violins são uma amostra de que a fase mais criativa parecia ter ficado para trás. Assim, é possível dividir o Violins em dois momentos: o primeiro, de grande relevância musical, até Greve das Navalhas; e o segundo a partir de Direito de Ser Nada, quando a banda entra em um período de desencontro com a energia e inventividade dos dez anos iniciais.

Um tour por “A Era do Vacilo”

O nome do disco é sugestivo. O próprio Beto já falou em entrevistas e nas redes sociais sobre o momento que vivemos. Mas também marca uma volta vacilante do Violins, que se mostra distante dos seus melhores momentos. Vamos percorrer o disco, faixa a faixa.

Brigas de Mão

É a canção que abre o álbum: “O que conforta em brigar de mão/É resolver questão/Pra seguir sempre em frente”. É interessante ver que, 17 anos depois do primeiro disco, a banda ainda tem disposição de se debruçar sobre novas composições e lançar material novo. Mas Brigas de Mão é uma abertura fraca para um grupo que, mesmo quando não estava em seu melhor momento, criou álbuns da qualidade de Guerra das Navalhas e A Redenção dos Corpos. Brigas de Mão caberia muito bem nos preguiçosos discos Direito de Ser Nada e Violins.

Deu Ruim Pra Gente

Se a intenção do Violins for negar sua despreocupação com uma regrada carreira comercial, Deu Ruim Pra Gente é o tipo de canção que caberia perfeitamente na programação de uma emissora de rádio de pop rock mais do mesmo. “Como se fosse um sonho/Que se sonha pouco pra convencer.” Os fãs da banda que conheceram o trabalho do Violins a partir de Direito de Ser Nada e gostaram do que viram ficarão felizes com o resultado da segunda faixa do novo disco.

Herói Fabricado

Herói Fabricado mostra que Beto compõe boas letras e deve ser respeitado como músico. Lembra, mesmo que com certa distância, os bons momentos do grupo em canções como Atriz e O Anti-Herói. A terceira música do disco A Era do Vacilo ganhou um lyric video que mais se parece um videoclipe e foi lançada um dia antes de Brigas de Mão. A melhor fase ainda está distante, mas Herói Fabricado é uma ode aos anos mais criativos da banda.

Um Homem ou um Amém

A quarta faixa do disco, que fala sobre linchamento, é Um Homem ou um Amém, trata de um assunto relevante: “E não vai ser possível explicar isso/O sangue nas mãos e o pensamento em Cristo/No afã de fazer qualquer triste justiça”. Mesmo nos melhores momentos do álbum, parece ser a letra a responsável por dizer, meio que sem querer, que falta algo. “Dá pra ser melhor/Pode ser melhor eu sei/A gente consegue/Dá pra ser melhor.” De qualquer forma, é uma das melhores canções de A Era do Vacilo, na qual o ser humano tem perdido cada vez mais o rumo.

Desapareceu

O flerte com o eletrônico surge na melodia calma de Desapareceu. Os versos “Ah, tão longe que você foi/No percalço de me ouvir/Que não sei se você notou/O impasse em que me meti” dialogam com o início da letra, que diz “Faleceu e desapareceu/Foi melhor assim”.

Gastura

A goianidade ganha espaço com Gastura. “Mesmo que esse sentimento não se assuma/Fica feita na memória uma fissura/E a gente sente de repente/Que o mar por ser pra nós ausente/Cria dentro de um goiano uma gastura” discutem a falta do litoral na vida da pessoa. A Era do Vacilo mostra seu melhor momento nas baladas.

Plena Anhanguera

A faixa Plena Anhanguera narra uma história vivida em uma das principais avenidas de Goiânia. “Entrei num bar em plena Anhanguera/No balcão, ergui as mãos/Me vê só água mineral/Alguma coisa entrou na minha perna/Veio a dor que depois soube-se que era anormal.”

Vidraças

A Era do Vacilo continua com a música Vidraças, que mantém a levada mais calma e menos ousada desse Violins que se revela em versos como “Eu sei que você vem/Jogando em mim só nome sujo”. “O tempo desanda/Dá uma breve onda/E dura tão pouco/Ninguém é assim tão louco”, canta Beto no refrão.

Água e Sal

As melodias arrastadas têm sequência em Água e Sal – o que não é bom no gosto e nem na canção. “É um belo otário/Isso é um mito/Já nos cansou tudo isso/A gente andou meio fixo/Num ideal sucinto” deixa a nona faixa do disco no mesmo patamar da maioria das anteriores. A melhor definição do álbum vem a seguir: “Somos assim mesmo/A gente evoluiu bem mal/Fomos por acaso um pouco inconsequentes/Não sei dizer/O que sobrou foi água e sal”.

Cronômetros

Cronômetros marca o fim de A Era do Vacilo com o violão de Beto. A faixa acústica de 2 minutos e 31 segundos evidencia uma volta longe da qualidade que o Violins já provou ter em diversas fases, mas que parece ter ficado distante: “Houve mesmo um tempo/Em que eu confundi tudo/Contra o espaço e o tempo/Eu me perdi nos cronômetros”.

O Violins que volta em 2018 parece ter pisado no freio e resolvido seguir o caminho seguro das músicas medianas. Definitivamente não são composições e melodias ruins, mas a sonoridade está bem distante dos melhores momentos da banda liderada por Beto Cupertino. O público fica realmente agradecido por ela estar aí novamente, ainda mais fazendo isso com novas canções. Mas também espera e sabe que o Violins tem qualidade para mostrar bem mais do que esse burocrático retorno.

* Augusto Diniz é jornalista.

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