Elder Dias

“Mawutzinin, desejando trazer os mortos de volta, entrou no mato e cortou três troncos de kuarup, levando-os para o centro da aldeia. Ali os pintou e adornou com colares e penas. Mandou que fincassem os troncos no chão, e chamou duas cutias e dois sapos cururu para cantarem com ele, e distribuiu peixes e bijus para o povo comer.

Incrédulos, os índios não cessavam de perguntar se os troncos iriam mesmo virar gente, ao que Mawutzinin respondia que sim, os troncos virariam gente. Então o povo da aldeia começou a se pintar e gritar. Cessada a cantoria, os índios quiseram chorar junto aos kuarup, pois representavam seus mortos, mas Mawutzinin os impediu, dizendo que viveriam, e por isso não podiam ser chorados.”

Parece uma versão do encontro de Jesus com Marta e Maria após a morte de Lázaro, irmão das mulheres.

Mas é assim que começa a descrição, na Wikipedia, da origem do ritual Kuarup, talvez o mais importantes realizado pelos povos indígenas da região do Xingu, no norte de Mato Grosso. Etnias diferentes unidas em um mesmo sentido místico.

(continua após a publicidade)

Em 1985, era lançado na TV, pela extinta Rede Manchete o documentário Xingu, a Terra Mágica, uma série que se tornou uma das maiores contribuições de um homem branco ao entendimento da cultura dos habitantes ancestrais do Brasil por parte dos outros brancos.

Esse homem branco era o jornalista Washington Novaes, fazendo as vezes de documentarista, uma das facetas mais nobres de vocação que vestia como a própria roupa.

No começo da década de 80, aquele já respeitado nome da imprensa nacional veio para Goiânia, convidado a ser editor-chefe do Diário da Manhã. Mesmo depois de deixar o jornal, ficou por aqui, morando na região norte, próximo à Universidade Federal de Goiás (UFG) e à Vila Itatiaia. O berço das águas da cidade, com a melhor qualidade ambiental do município.

Foi morando no novo endereço que se inspirou a um desafio grandioso: contar a história de povos então praticamente isolados na região do Rio Xingu, importante afluente do Amazonas. Surgia um dos documentários mais premiados da cinematografia brasileira.

Washington Novaes nunca mais perderia o contato com os povos indígenas. Em entrevista ao Jornal Opção, em 2017, relata que indígenas eram seus hóspedes em Goiânia e que deles extraía visões intrigantes sobre a vida dos caraíbas (“homens brancos”, em tupi) na cidade grande:

“Em uma das últimas vezes em que veio um índio do Xingu aqui, saí com ele numa manhã e estávamos caminhando. Ele então me perguntou: ‘Por que o caraíba tapa os poros do chão?’. Respondi que o asfalto era por causa dos automóveis e outros veículos. Ele pensou um pouco e continuou: ‘Mas para que serve esse asfalto?’. Eu disse que era para os carros andarem mais depressa. Ele balançou a cabeça e dali a pouco voltou a perguntar: ‘E por que caraíba faz calombo na pista?’. Eu disse que era para o carro não correr demais e não matar ninguém. Ele me olhou, então: ‘Mas por que caraíba faz asfalto para andar depressa e depois faz calombo para andar devagar?’. Ele não entendia a lógica da cultura branca.” 

A partir de então, a causa ambientalista seria cada vez mais a missão de vida do jornalista. Em seus artigos, palestras, entrevistas e novos documentários, a denúncia do aquecimento global e defesa do meio ambiente e dos diversos biomas eram seu mote principal.

(continua após a publicidade)

Nesta terça-feira, 25/8, Washington Novaes deixou órfãos jornalistas, cineastas, povos indígenas e todas as pessoas envolvidas na luta por uma sociedade mais sustentável e mais justa com todos os seus pares.

Pela mística do Xingu, Mawutzinin faz retornar à vida pessoas importantes para sua comunidade, a partir da madeira do kuarup.

Washington Novaes, singelo lázaro dos irmãos indígenas, com absoluta certeza mereceria o milagre de Mawutzinin.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa  — #SeSairUseMáscara


COMENTÁRIOS




Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.