Umberto Eco tinha uma relação de amor e ódio com o futebol. Italiano provocador, o filósofo uma vez declarou que aguardava ansioso o período de cada Copa do Mundo com o desejo de caminhar tranquilamente pelas ruas de Bolonha, enquanto os tifosi se aglomeravam – palavra saudosa – para torcer pela Azzurra. Dizia não desgostar do esporte e até assistir a jogos, mas abominava o fanatismo.

Mas falo de Umberto aqui por ele ter sido um dos maiores estudiosos contemporâneos da comunicação. E por ter sido o primeiro a avisar sobre o que viria para a sociedade com o advento das redes sociais. Sua frase memorável – dita após um evento na Universidade de Turim, em 2015 – mais do que um desabafo, foi um diagnóstico:

“As redes sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca; agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel.”

Vamos então a um exemplo prático e próximo – entre tantos milhares possíveis e ao alcance – que nos mostra como palavras tão recentes de um pensador já se mostram sábias e eternizadas enquanto dure esse pântano de obscenidades digitadas.

Ocorre que, em razão da pandemia, as atividades de sala de aula tiveram de parar nas universidades do mundo inteiro. Mas, por ironia e necessidade, seu trabalho nunca esteve tão intenso.

Em todos os arredores do mundo – ou cantos da terra plana, para outra classe de leitores –, essas instituições estão com seus melhores pesquisadores em trabalho intenso para ajudar os governos e a sociedade como um todo a buscar soluções para o maior desafio que a civilização contemporânea já teve de encarar.

Essas pessoas trabalham em seus grupos, muitas vezes em parceria com empresas e fundações privadas, para produzir o que eu chamo aqui de “ciência expressa” contra o novo coronavírus: possíveis vacinas, teste de medicamentos, alternativas de tratamentos, inquéritos sorológicos – e estimativas de casos e mortes diante das taxas de isolamento.

Ciência e celeridade não são a melhor combinação, mas é o que temos para o momento. A vacina tem de sair “logo”, um remédio precisa surtir efeito “rápido”, a economia necessita voltar a se abrir “já”, uma solução “imediata” tem de ser encontrada para conter o vírus.

Ciência e celeridade não são a melhor combinação, mas é o que temos para o momento. E a UFG tem feito muito bem sua colaboração para a sociedade goiana durante a pandemia

E, por aqui no Estado, a Universidade Federal de Goiás tem feito muito bem sua colaboração para a sociedade. Recuperou respiradores mecânicos para UTIs, além de oferecer leitos no Hospital das Clínicas; está ajudando em inquéritos sorológicos das cidades; há trabalhos desenvolvidos de pesquisadores das ciências humanas sobre os impactos da pandemia no trabalho e na vida das pessoas, bem como a inclusão dos dados diários em uma plataforma, a CovidGoiás UFG.

E também tem o Grupo de Modelagem da Expansão da Covid-19 em Goiás, que está cooperando com o governo estadual na projeção do que temos pela frente, com três cientistas como referência: Thiago Rangel, com mais de uma centena de artigos publicados, muitos em grandes revistas científicas internacionais e um deles como primeiro autor, na Science; José Alexandré Felizola Diniz-Filho, ex-pró-reitor da UFG, reconhecido pesquisador e um dos nomes mais respeitados em sua área; e Cristiana Toscano, única pessoa do Brasil a integrar comissão da OMS que estuda a vacina contra o Sars-Cov-2.

O grupo tem orientado o governo de Goiás com projeções do cenário da covid-19 no Estado. Nem sempre o trabalho tem sido levado em consideração, mas a sugestão desta semana – de abrir e fechar as atividades econômicas de forma intercalada por 14 dias – foi acatada.

Ocorre que a última projeção para Goiás – de mil mortes no cenário mais grave –, felizmente não se concretizou. Mas foi o que bastou para aparecer, para criticar, os mesmos que não haviam dado as caras quando houve o acerto das duas projeções anteriores.

E principalmente Thiago Rangel acabou submetido a um linchamento virtual. Foi retratado como “pesquisador de beija-flor” no perfil de quem procura desqualificar seu trabalho.

O gabinete do ódio local entrou em seu currículo na plataforma Lattes – onde consta um doutorado em Connecticut (EUA), confirmado pelo reitor de lá, dizem – que foi convenientemente “esquecido”. Descobriram um projeto de pesquisa entre 2012 e 2013 sobre um estudo de caso com beija-flores. Um entre centenas de trabalhos.

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Thiago Rangel, primeiro pesquisador da UFG a ter um artigo publicado na revista “Science” como titular | Reprodução

No mesmo Lattes, está lá que Thiago Rangel atua principalmente nos seguintes temas (entre outros): “estatística espacial, métodos estatísticos computacionais e simulações computacionais”. Exatamente o que um gestor público precisaria para pôr, a serviço de sua população, para controlar um surto durante uma crise sanitária.

Ficaram registradas as difamações e até ameaças ao pesquisador e professor. A maioria delas não será vista por Rangel, que não tem redes sociais. Mas talvez seja o caso de a polícia entrar em ação contra quem usa a covardia e a meia informação como tática de fazer prevalecer a ignorância.

Homem da razão, Umberto Eco talvez devesse grande parte de suas reticências ao futebol por causa de observações de atitudes como a que até hoje afetam figuras como a do treinador.

Por mais erros que possa cometer, um técnico de futebol passa semanas a fio treinando seu time, ensaiando novas jogadas, estudando os adversários, recebendo relatórios de seus auxiliares, conversando com os atletas e testando variações táticas. Tudo isso para que, caso no dia do jogo as coisas não se concretizem, ter de ouvir do alambrado o grito de “burro” daquele torcedor bêbado que encheu a cara em vez de prestar atenção na partida.

A internet tornou perigosa a imbecilidade porque teve a capacidade de reunir todos os bêbados ignorantes em uma mesma plataforma. Por serem barulhentos, assustam; e, por serem acham que representam a maioria. Prejudicam muito, mas a verdade é libertadora e, de uma forma ou de outra, se imporá ao final.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.