No horário nobre da televisão brasileira, o telejornalismo divulga mais uma pesquisa de intenção de votos à Presidência da República.

Internado desde o dia 6, Jair Bolsonaro sorri de seu leito no Albert Einstein. O candidato do PSL vê seu índice subir mais dois pontos e, melhor até, observa que a chance de ter o PT como desafiante no duelo do segundo turno é cada vez maior. Script perfeito para o maniqueísmo que pode levá-lo de deputado do baixo clero ao Palácio do Planalto.

Longe dali, a candidatura de um médico está na UTI. Geraldo Alckmin espera uma recuperação que não chega e o tempo trabalha contra.

tasso jereissati 1140x630 - Tucanos arrependidos: a triste sina do PSDB nas eleições de 2018
Desabafo de Tasso Jereissati dá mostras de que o partido está sem rumo em plena campanha eleitoral | Marcelo Camargo/Agência Brasil

O PSDB tem, de longe, a maior estrutura de campanha, a maior quantidade de políticos apoiadores em potencial e o maior tempo de TV. E, de longe, é o que teve até agora a pior relação custo-benefício.O partido parece viver um pesadelo-castigo.

Não foi sem motivo que, em um momento de lucidez beirando o sincericídio, Tasso Jereissati – um de seus maiores líderes e ex-presidente nacional da sigla – listou a sequência de erros fatais que levaram os tucanos a uma campanha totalmente à deriva.

Foi em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. O senador cearense admitiu três erros-chave do PSDB: o primeiro foi não ter aceitado a derrota nas urnas em 2014. De fato, o partido questionou o resultado desde o minuto seguinte ao fim da computação dos votos, exigiu a recontagem e foi até o tapetão do Judiciário para tentar barrar a posse de Dilma Rousseff (PT) a seu segundo mandato.

O passo em falso seguinte admitido por Jereissati foi atuar no Congresso para minar as reformas econômicas que a presidente havia enviado – e que eram políticas baseadas em princípios tucanos. Ou seja, era o que eles teriam feito se estivessem com o condão do poder na mão. Preferiram ficar com Eduardo Cunha e cerrar fileiras em busca do impeachment por pedaladas fiscais.

Quando depuseram Dilma, veio o terceiro grande erro, segundo o figurão do PSDB: embarcar no governo de Michel Temer, no qual chegaram a ocupar cinco ministérios – e ainda estão lá, com Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores depois de ter sido vice da chapa presidencial derrotada pela petista.

A cereja do bolo envenenado foram os casos de corrupção, especialmente envolvendo o então presidente do partido, senador Aécio Neves, o candidato de 2014. A demora em reagir às denúncias e a tentativa de minimizar algo tão grave como as confissões grampeadas do grão-tucano mineiro multiplicaram o descrédito da população no partido.

A fatura de toda a lambança está sendo cobrada agora. Pela primeira vez desde 1994, o PSDB deve ficar fora da disputa presidencial. Mais do que isso, ao deixar vago seu posto na oposição e depois abandonar o governo que ajudou a criar, ficou sem lugar e sem discurso. Foi dada à extrema-direita a chance de assumir o posto anti-PT. Bolsonaro está aí para provar.

Geraldo Alckmin também não empolga; pelo contrário, mostra o quanto o codinome Picolé de Chuchu lhe cai bem. Noves fora a merenda e outros escândalos de sua gestão, o ex-governador paulista em quatro mandatos, mesmo com todo o tempo do mundo no horário eleitoral, tem dificuldade para passar credibilidade e, mais do que isso, determinação. E esta é, mais do que qualquer outra, uma campanha para quem tem sangue nos olhos.

A cena também não está boa para o partido nos Estados. Pode perder São Paulo, onde manda desde 1995; teve problemas recentes com a polícia e a Justiça no Paraná e em Mato Grosso do Sul, inclusive com a prisão de Beto Richa, ex-governador paranaense; e tem poucas chances de evitar o ex-aliado e agora arquirrival Ronaldo Caiado (DEM) de assumir o comando em Goiás.

Nacionalmente, os tucanos sabem que, a não ser que ocorra uma grande reviravolta, vão assistir de seus apartamentos o segundo turno das eleições. O desabafo de Tasso Jereissati já passou o recibo. Ironia do destino: a luta por um fiapo de democracia que ainda resta pode obrigar os tucanos a ter de apoiar aqueles que ajudaram a derrubar do poder em 2016.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.