Pense rápido: você conhece alguma arquiteta negra?

Negra é a noite recente no céu aberto. Velas, flores, música. Mais de 300 pessoas, a maioria de preto. É palco de teatro, mas não há farsa no luto: a dor é real na PUC, Arena 3. Choram a morte de Susy Nogueira, de 21 anos. A negra que não será mais arquiteta.

No início da semana, vi noticiado um caso que transitava entre os limites da bizarrice e o cúmulo da monstruosidade: uma jovem havia sido estuprada dentro de uma UTI. Pior: por alguém que estava ali pago para cuidar dela.

Seria uma daquelas notícias que ganham destaque mundial no lado B do jornalismo exatamente por serem absurdas demais. Procurei saber em qual país tinha ocorrido tal aberração e vejo que o caso era aqui, na minha esquina: Goiânia, Setor Universitário, Hospital Goiânia Leste.

A vítima era Susy. Dez dias depois, ela – que fora internada após uma de suas crises convulsivas, durante uma aula – morreria naquele lugar, com o laudo apontando uma “pneumonia hospitalar” imprevista.

Pensando bem, por que não isso aqui? Por que esse caso não seria em Goiânia, Goiás, terra onde o machismo faz casa de forma mais do que cultural, quase que como um patrimônio imaterial?

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Susy Nogueira: a arquiteta negra que você conheceria, não fosse o machismo e o racismo | Reprodução

Ora, mas o que o machismo tem a ver com o estupro? Ora, ambos são imposições de um gênero sobre outro. O estupro é nada menos que essa imposição levada ao extremo.

O machismo, invariavelmente, está acompanhado de violência contra a mulher.

Primeiramente, há a violência simbólica, que aparece em forma de piadas, costumes e práticas tradicionalizadas. Há um imaginário pelo qual mulheres são diminuídas no dia a dia. O que levaria alguém a imaginar, por exemplo, que uma barbeiragem no trânsito a priori “deve ser coisa de mulher”? As estatísticas dos Detrans não mostram nada disso – muito pelo contrário, aliás.

A partir daí, do território coletivo ocupado por essa violência advinda do machismo, surgem as demais, as efetivas, que entram pelas casas e tomam assento nos relacionamentos.

Em um momento inicial, tem-se a violência psicológica, com a vigilância, o controle, o constrangimento, os insultos e as ameaças, em geral nesse grau crescente; depois, a violência física, que começa com agarrões, empurrões, tapas, socos e terminam, infelizmente em vários casos, com assassinatos.

Dá-se a essa prática o nome de feminicídio para marcar que é um crime de gênero e não um assassinato convencional.

Mas Susy não era só mulher: era negra também. E não é preciso explicar que, na formação do povo brasileiro, negras e negros ocuparam historicamente – e literalmente – o lugar dos porões. É triste dizer que a ideia de que o negro é “menos gente” ainda ronda por aí, infelizmente com muita força.

Os detalhes do horror que Susy sofreu ainda estão sendo apurados pela polícia, mas o que se tem até o momento é a certeza de que o machismo e o racismo atuaram com seus braços malévolos naquela cena de hospital.

É difícil e demorado mudar a cultura de um povo. Mas casos inaceitáveis como esse mostram que é preciso não retroceder na luta por essa mudança de paradigma. Uma mudança que, diga-se, nada mais é do que aceitar o básico: todos somos iguais.

Não é coincidência que haja uma denominação para as mortes de mulheres por serem mulheres e não haja algo semelhante para o caso masculino. Não é coincidência que o povo negro ocupe em maioria as favelas, os morros, as sarjetas, as cadeias, os subempregos e todos os porões da sociedade.

Machismo e racismo explicam o porquê de bradar que vidas de mulheres negras devem nos importar. Até que isso ocorra, não seremos mais que o rascunho de uma sociedade civilizada. Susy, presente!

(Foto principal: Linda Martins)

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.