Texto 4 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Marcello Assunção

A interrogação sobre a assimilação ou não de aliados diante da gradativa depuração e desagregação do setor (dito) liberal do bolsonarismo coloca uma série de questões. A cada novo “aliado” temos debatido sobre a incoerência ou não na sua assimilação numa frente antibolsonarista/antifascista.

No entanto, esse processo não é acompanhado de propostas concretas. Isso não é novo, desde o movimento Fora Temer e Lula Livre não foi constituído um programa concreto com pautas que dialogassem com setores descrentes com a política conciliatória petista e depurados de seus direitos sociais e políticos pelo behemot neoliberal.

Isto se deve particularmente ao que alguns pensadores chamaram de “hegemonia da pequena política”. Com esta expressão queremos nos referir (por meio de chave gramsciana e na sua interpretação por Carlos Nelson Coutinho e Alvaro Bianchi) a um horizonte estratégico que foca meramente no jogo “parlamentar” e que não toca na “grande política” que se direciona, por sua vez, pela transformação estrutural da sociedade.

A equipe de Bolsonaro habilmente regula o terreno do debate em suas lives neste âmbito, impossibilitando, para aqueles que caem em suas armadilhas, discutir alternativas, mas sim de responder a um jogo controlado. Entretanto, é preciso que consigamos ir além do “jogo de cena” da barbárie ao qual Bolsonaro é responsável para pensarmos em termos de projetos e possíveis aliados.

Por incrível que pareça, quem vem rompendo esse “moto-contínuo” do “jogo bolsonarista” têm sido personagens que nunca imaginaríamos estar em uma frente antibolsonarista.

felipe neto - Sobre aliados e alianças: a necessidade de um programa único em tempos de covid-19
Ao furar a bolha, Felipe Neto consegue alcançar, por meio de uma comunicação competente, setores que nunca alcançaríamos | Reprodução

As posições de Felipe Neto (particularmente no seu vídeo-carta aberta para todos os artistas e influenciadores do Brasil, com 10 milhões de visualizações em seu Twitter) são emblemáticas nesse sentido, pois, ao furar a bolha ele consegue alcançar por meio de uma comunicação competente setores que nunca alcançaríamos. Mas isso seria suficiente?

Ao meu ver, a resposta está exatamente na formulação de um programa único em duas dimensões: ampla, porém demarcada, e restrita. Um programa “amplo” que agregue todos os setores que lutam contra a barbárie bolsonarista sintetizada não só por seu (des)governo, mas particularmente por sua política suicida em relação à covid-19.

Chamaremos essa mobilização de “anticesarista” por articular as pautas de uma ética liberal no sentido da defesa do estado de direito e dos mínimos institucionais, assim como do confronto ao negacionismo/anticientificismo dos projetos do governo federal frente à covid-19.

Poderíamos sintetizar tal programa nos seguintes pontos: a defesa do isolamento social e do auxílio econômico enquanto meios para minimizar a catástrofe ao qual vivemos; a súbita valorização do Estado como estabilizador da economia e planejador do desenvolvimento tecnológico e científico; a crítica à continuidade do ensino remoto que exclui milhões de alunos do ensino base (que resultou recentemente no adiamento do Enem); a defesa do estado de direito e das suas instituições (STF, Congresso Nacional e as demais) e da liberdade de imprensa.

Entretanto, não podemos reduzir nosso engajamento a este consenso social-liberal de maior visibilidade. Por isso, é preciso articular e demarcar esse programa mais amplo com um outro mais “restrito” voltado para os setores à esquerda do espectro político.

Isso significa, em grande medida, a luta que denominaremos como “antiautocrática”, ou seja, que compreende ser insuficiente a crítica meramente política que não toca nas medidas econômicas de âmbito neoliberal. Mesmo com o recente surto “keynesiano”, sabemos que as medidas econômicas neoliberais não foram de todo purgadas, nomeadamente, no que se refere ao teto de congelamento dos gastos e o seu consequente sufocamento dos setores essenciais.

A esquerda antiautocrática não pode confundir a revolução na ordem das palavras com a revolução na ordem das coisas; seu isolamento e incapacidade de diálogo devem-se não somente a sua falta de projetos concretos, mas também a sua incapacidade comunicativa.

É preciso defender que essas medidas “keynesianas” não são importantes somente em nosso “estado de exceção”, ocasionado pela covid-19, mas como parte fundamental (mesmo que limitadas por um horizonte institucionalista) de uma política estatal em uma sociedade tão radicalmente desigual como a nossa.

O “direito à respiração”, como disse o arguto filosofo camaronês Achille Mbembe, deve ser pauta não só em momentos da nossa crise vigente, mas parte de um programa daqueles que lutam contra a barbárie que nos assola, pois, como diz Walter Benjamin ao referir-se ao fascismo do seu tempo “o estado de exceção que vivemos na realidade é regra geral”.

Portanto, a repolitização democrática da economia política – com o debate sobre: renda cidadã; democratização dos bens e recursos públicos; uma coordenação global da sociedade por meio de órgãos internacionais efetivamente conectados para servir às questões fundamentais, à crítica aos efeitos da financeirização, e à brutal estratificação social; a suspensão da dívida pública; taxação de grandes fortunas etc. – mesmo que limitada por contradições próprias de um horizonte institucionalista, pode trazer à tona uma série de debates que envolvam a necessidade real de controle político e social do movimento de capital (em suas diferentes formas).

A esquerda antiautocrática não pode confundir a revolução na ordem das palavras com a revolução na ordem das coisas; seu isolamento e incapacidade de diálogo devem-se não somente a sua falta de projetos concretos, mas também a sua incapacidade comunicativa.

E isso significa ter um horizonte de curto e longo prazo. Temos de convencer (não sendo, evidentemente nossa única tarefa) figuras de grande visibilidade como Felipe Neto, Anitta e tantos outros não só para o engajamento na luta “anticesarista”, como para a luta antiautocrática e antissistêmica.

Não podemos ter a veleidade de nos isolar somente em nossos modelos do que deveria ser, mas apostar naquilo que podemos fazer para minimizar a barbárie imediata e disputar, no campo das ideias, “hegemonia” por ideias que tencionem os consensos sociais.

O motor para o compromisso de não nos isolarmos

Transmutar a fórceps a política estetizada de Bolsonaro em uma estética politizada por meio da intervenção nas redes é um dos caminhos e sem grandes comunicadores não teremos possibilidade de um confronto real.

A barbárie do necroestado (“A fantástica máquina de produzir cadáver”, o “Holocausto urbano”) que se transmuta gradativamente em “Estado suicidário” (pra usarmos a expressão de Vladimir Safatle) precisa ser barrada.

O desprezo/extermínio secular do Estado diante das “vidas que não importam”, como a de João Pedro e tantas outras crianças negras e pobres desse Brasil, e por todos aqueles que morreram por covid-19 devido em grande parte às ações irresponsáveis de Bolsonaro (e dos seus adeptos) deve ser o motor para que tenhamos o compromisso de não nos isolarmos diante da catástrofe em que vivemos.

Precisamos sensibilizar aqueles que detêm capital comunicacional para que este processo seja barrado, tarefa que deve ser realizada com um programa amplo e restrito concreto que dispute hegemonia diante do caos encenado por nossos facínoras.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa    #SeSairUseMáscara


COMENTÁRIOS




Marcello Assunção
doutor em História pela UFG e desenvolve pesquisa de pós-doutorado na USP