Quando ingressei na polícia eu estava saindo de duas situações recentes e complicadas: uma expulsão de casa, por ser gay; e uma experiência evangélica em busca da tal “cura gay”. Fiz o concurso da Polícia Militar em 1999. Lá se vão quase 20 anos. Lembro-me, como hoje, do primeiro dia na porta da Academia da PM. Todos os “bichos” enfileirados, vestidos de calça jeans e camiseta branca. Uma cadete mais velha, loira, vociferava frases disciplinadoras e dava as boas-vindas para os anos que estariam por vir.

Durante três anos, o quartel foi uma casa de amigos, apesar das dificuldades. E a casa dos meus amigos foi a minha casa. Eu era um quase-adolescente e me divertia com os companheiros. Não sofri grave violência homofóbica por parte dos colegas – ou não a percebia. Mas a LGBTIfobia estava lá, no mesmo lugar de hoje, escancarada na linguagem macho-belicista-policial a definir os contornos do lugar do abjeto, do vergonhoso e do risível: “viadinho”, “ratazana gay”, “goiabinha”, “manja-rola” eram predicados comuns proferidos contra qualquer um que demonstrasse “suspeita”.

Eu escapei. Apesar da liberdade proporcionada nos três anos de formação teatral, fui disciplinado pela família para apagar traços de feminilidade. Isso fazia com que eu e um primo ensaiássemos o pronunciamento de gírias e formas para engrossar a voz. Aliado a isso, minha cara de guri foi fator importante para me salvar das críticas por não “pegar” meninas: “Ah, deixa ele, é muito novo”; “Ele só pensa em estudar”; “É o mascote da turma”.

No segundo ano do militarismo vivi uma cena inusitada. Fui abordado pela PM enquanto beijava, no escuro noturno dos corredores de um camelódromo, o namoradinho de então. Foi um choque. “Meu Deus, vou perder o emprego”; “Vou ser expulso da corporação e ainda ridicularizado na frente dos colegas”. Aos prantos, eu implorei aos soldados, que realizavam policiamento com motocicletas, para que não contassem a ninguém. Uma amiga, que era da turma de um deles, conseguiu convencê-los a não passar a história para frente. Até hoje mantiveram a promessa. Eu os agradeço profundamente porque episódio parecido havia acabado de gerar a “expulsão” de um outro cadete. A palavra expulsão está entre aspas porque, pelo que sei, o aluno não teria sido enxotado da Academia ou sofrido processo administrativo. Ele apenas foi convidado pelos comandantes a se retirar: “Você pede baixa ou nós contamos para toda a tropa.”

Passados os anos, em 2004, começaram a surgir buchichos acerca de minha homossexualidade. Seguranças de boates LGBTIs, que também eram PMs, comentavam com amigos da minha turma que, logo em seguida, me contatavam: “Fabrício, estão te confundindo com algum parente ou outra pessoa.”. Eu começava a “me assumir”, mas a vergonha da minha condição e os baixos salários me levariam a pensar em outro concurso.

“A dor e o alívio de ser empurrado para fora do armário”

Ingressei na Polícia Rodoviária Federal em 2005. No primeiro ano de trabalho, novamente, fui abordado pela PM em outra situação amorosa. Não, eu não era um promíscuo ou coisa do tipo. Era só azarado mesmo. De todo modo, é importante dizer que héteros também namoram nas ruas e dentro dos carros e não são julgados pelo seu comportamento. Mas essa abordagem foi diferente. Após ela, o policial saiu de seu local rotineiro de trabalho e se dirigiu à unidade da PRF para contar o que tinha visto. A história se espalhou e eu seria recebido na Polícia Rodoviária Federal como um policial gay! Conversas nos corredores, nos postos e em todo lugar: “Fiquei sabendo de tal coisa, é verdade?” Eu dizia “sim”, com a dor e o alívio de quem era empurrado para fora do armário.

fabricio rosa policial 450x300 - Ser um policial gay: o relato de uma difícil luta cotidiana
Fabrício Rosa, policial rodoviário federal e ex-PM, dá testemunho da difícil relação das instituições de segurança pública com a homossexualidade | Arquivo pessoal

De lá para cá muita coisa aconteceu. A generosa PRF mudou minha vida para muito melhor. Troquei a moto pelo carro. Comprei meu apartamento. Conheci 23 Estados brasileiros em operações policiais, ministrando aulas ou fazendo processos correcionais. Fiz minha primeira viagem internacional e todas as outras que se seguiriam. Auxiliei na criação e manutenção das Comissões de Direitos Humanos da PRF. Idealizei e realizei projetos com repercussão nacional. Encontrei meu espaço, especialmente nas ações de combate à violência sexual e ao tráfico de pessoas.

“A danada da homofobia faz sentinela à nossa volta, em que pese a generosidade e o olhar compreensivo da maioria dos colegas da PRF”

Ela circula nas piadas estigmatizadoras, nos olhares e cutucadas reveladoras, nos silenciamentos, nos não convites e desconvites para participar de eventos, nos pedidos para trocar o quarto do hotel em viagens a trabalho, na contrariedade visível ao ver que um nome de um LGBTI consta na mesma equipe policial e, no meu caso, até mesmo em reunião com autoridade do alto escalão “esclarecendo” que “não era bom eu falar publicamente que era gay”.

Bom humor para enfrentar a homofobia

As situações de homofobia são muitas e cotidianas, mas prefiro encará-las com bom humor e com compreensão histórica dos fatos. Entretanto, se não nos atentamos, elas nos retiram direitos. Um exemplo: sou casado desde 2007. O reconhecimento da união estável homoafetiva pelo STF ocorreu em 2010 e nesse mesmo ano eu e meu companheiro formalizamos nossa união. O processo administrativo interno transitou por inúmeras esferas, em Goiânia e em Brasília, e o pedido de reconhecimento da união – para fins previdenciários e de plano de saúde – foi negado. Foi um “upa” para que houvesse aceitação e para que o resultado final fosse positivo.

Em meu caso, vale esclarecer que, junto à homofobia, convivo com a incompreensão, por parte de alguns, e o ódio, por parte de outros, acerca de minhas posições políticas. Sou socialista e militante pela liberdade. Sou a favor da legalização do uso, do comércio e da produção de todas as substâncias, nomeadas drogas, que foram – aleatória e politicamente – postas na ilegalidade. Faço parte, há alguns anos, de duas associações de policiais que comungam do mesmo pensamento: a Law Enforcement Against Prohibition [Agentes da Lei Contra a Proibição, em português] e o Movimento dos Policiais Antifascismo.

Nos encontros nacionais dessas associações, nós discutimos os nefastos efeitos da guerra às drogas, especialmente para a juventude negra e pobre, e para os próprios policiais. Em um desses encontros, afirmei que a guerra às drogas tem modificado a atuação das polícias, inclusive da Polícia Rodoviária Federal – a deixando mais bélica e mais reativa que o de costume. Essa fala, aliada ao fato de eu ter colocado meu nome à disposição para concorrer ao cargo de governador de Goiás pelo PSOL, fez com que várias pessoas, incluindo policiais, me encaminhassem mensagens pelas redes sociais, com críticas odiosas e preconceituosas. Diziam que eu sou “uma vergonha” para a instituição e que não tenho o direito de “agir assim”. Por outro lado, passei a ouvir da boca de colegas policiais de minha confiança, nos bastidores, que outros PRFs estariam desejosos que fosse instaurado um processo disciplinar, contra mim, por incitação ao crime. No caso, incitação ao “uso de drogas”.

Desde então, fiquei esperando uma denúncia. E ela veio. Uma denúncia anônima de um fato público, no qual se expressa apenas a visão de um cidadão brasileiro acerca de determinada política pública. Uma denúncia que poderia ter sido, justificadamente, arquivada sem maiores constrangimentos. Fui corregedor da PRF e sei que é juridicamente plausível o arquivamento de denúncias anônimas que não trazem elementos probatórios mínimos acerca de irregularidades.

Por tudo isso, fui comunicado pela Corregedoria da PRF em Goiás de que deveria me apresentar, em data escolhida por mim, para ser inquirido em audiência com o objetivo de esclarecer tais falas. A audiência ocorreu duas semanas atrás. Fui bem recebido pelos colegas da Corregedoria, onde atuei por anos. Relatei parte do que está exposto aqui. Expliquei que tenho muito orgulho de ser PRF, que sempre defendi que os policiais devem agir dentro da legalidade e esclareci que alguns termos utilizados pelos jornais não são exatamente como eu dissera.

Amigos, familiares, militantes de movimentos sociais, artistas, membros de comitês de políticas públicas, pesquisadores, sindicalistas, policiais, servidores, mãe: quero dizer que eu estou bem. Esse texto é para tranquilizar vocês e é uma tentativa de agradecer o carinho de tanta gente. Acredito verdadeiramente que o processo administrativo será arquivado sem maiores consequências, já que não cometi nenhuma irregularidade funcional ou crime. Agradeço, de modo especial e caloroso, os voluntários advogados que me prestaram assistência: Elias Menta Macedo, Tarihan e Chyntia Barcellos, amo vocês. Prometo continuar na luta por direitos humanos e por um mundo sem LGBTIfobia e com plena liberdade de expressão!

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Fabrício Rosa
Policial rodoviário federal, candidato ao Senado em Goiás pelo PSOL, coordenador estadual da Aliança Nacional LGBTI+, membro da Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBTs (Renosp).