# Copa do Mundo da Rússia – dia 25 #

No dia 8 de julho de 2014 nem Neymar nem Thiago Silva estavam em campo. Ambos apenas puderam assistir ao resultado mais vergonhoso da história do futebol brasileiro.

Enquanto a seleção apanhava impiedosamente de 7 a 1 da Alemanha, enquanto virava passeio o sonho do Hexa dentro da própria casa, o primeiro estava envolvido em talas por conta da contusão grave que lesou uma vértebra no jogo anterior, atingido em uma entrada desleal do colombiano Zuñiga.

Suspenso por cartões amarelos, Thiago Silva estava nas tribunas do Mineirão e assistiu literalmente de camarote naufragar a equipe da qual era o capitão.

Por crueldade – e não ironia – do destino, Thiago Silva foi exatamente o personagem que ficou mais estigmatizado pelo 7 a 1. O choro que ele não conseguiu controlar durante a decisão por pênaltis contra o Chile, pelas oitavas-de-final daquela Copa (ele pediu ao treinador Luiz Felipe Scolari para ficar por último nas cobranças), o marcou de forma muito pesada.

Por outro lado, com sua ausência imprevista e traumática, Neymar saiu praticamente incólume do desastre. Pelo contrário, por ser o grande destaque, criou-se a dúvida: “E se o Menino Ney tivesse jogado?”. Bom, talvez fosse 7 a 2, quem sabe…

neymar e thiago silva - Rússia 2018, dia 25: os 7 a 1 de Thiago Silva e Neymar separados por 4 anos
Thiago Silva abraça Neymar após seu gol de cabeça contra a Sérvia | Divulgação

Pano rápido, corta. Quatro anos depois, a Copa do Mundo terminou para ambos no quinto jogo, na derrota para a Bélgica. Nada de vexame desta vez: um 2 a 1 resultante de muitas falhas de finalização, um gol contra como fatalidade e muita eficiência do outro lado.

A diferença foi como cada um voltou para casa desta vez. Thiago Silva foi talvez o melhor jogador brasileiro – ou o mais constante, ao menos. Fez um gol contra a Sérvia, cometeu pouquíssimas faltas e demonstrou não só segurança, mas muita maturidade. Um homem que nada lembrava aquele rapaz assustado, ainda que com a faixa de capitão.

Neymar, ao contrário, saiu pela porta dos fundos da competição. Nervoso, superexposto até por si mesmo, com penteados que pediam atenção, foi se atolando. Seu futebol grandioso e tão singular ficou esmaecido, vivendo de lampejos e tendo como grande momento a jogada de seu gol contra o México, que ele mesmo inicia. Fora isso, foi marcado por xingamentos, provocações, estilo não me toques até com a arbitragem e, o pior de tudo, as simulações, quedas e rolamentos que viraram memes mundo afora.

Aos 33 anos, Thiago praticamente encerra seu ciclo na seleção. Sem ter ganhado nenhuma Copa do Mundo, pelo menos resgatou a imagem cinzenta que havia deixado de 2014. Está maduro e talvez próximo de encerrar sua carreira com dignidade.

Neymar é quem realmente importa para o futuro da seleção. Aos 26, provou que precisa de dar um giro de 180 graus em sua vida e seu comportamento. Tem de deixar de ser o Menino Ney, dar um golpe mortal nesse peterpanismo que insiste em carregar junto com seus “parças”.

Talvez a primeira coisa seja recomeçar. Refazer os objetivos, esquecer a obsessão por ser o melhor do mundo e o levou a cometer a insanidade de trocar a herança da camisa 10 do Barcelona de Messi em poucos anos para uma aventura no futebol francês que até agora rendeu intrigas e badalações, além de um título previsível de campeão nacional.

Thiago e Neymar jogam no Paris Saint-Germain. Ambos vão se encontrar em poucos dias. Ainda doloridos pelo fracasso na Rússia, quem sabe seja a hora de um passar para o outro seu testemunho de superação de um trauma. Porque o 7 a 1 de Neymar, não duvide, está ocorrendo agora.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.