# Copa do Mundo da Rússia 2018 – Dia 21 #

Pausa para as quartas-de-final, hora de falar de um assunto que deveram me incomoda.

Antes que me perguntem – se é que paira alguma dúvida –, eu detesto handebol. E nem tanto por ser assim, um esporte idiota, mas por subverter dois grandes pensadores: São Tomás de Aquino e Darwin. Duvida?

No caso de São Tomás, tem aquele lance que ele fala da simplicidade da (acho que) NATUREZA, que quando ela acha uma forma como algo deve ser feito despreza todas as demais.

E no caso, estamos falando de um esporte que usa uma quadra, uma bola, uma goleira de cada lado e o objetivo consiste em botar a bola dentro das goleiras. Ok, o nome desse esporte é FUTEBOL… concorda, São Tomás? A natureza já havia escolhido uma forma que aproveitava os instrumentos acima citados, todo o resto depois seria desvio de função.

Ou então, um jeito de burlar a seleção natural, que o coitado do Darwin teve o mó trabalho pra desenvolver. Aí, então, vem professor de Educação Física que não sabe jogar bola pra bagunçar. Imagina a decepção do cara ao ver a sua TEORIA sendo tão maltratada?

Voltando ao handebol, ele surgiu como um “sistema de cotas” para abranger gente que não sabe jogar bola, e isso é errado. Porque o handebol não serve pra nada, quer dizer, depois que você chega à idade adulta, vai fazer o quê com isso? Quantas quadras são alugadas para praticantes alucinados de handebol? Sim, foi legal no colegial, até na faculdade, e no meio da Educação Física existe um inexplicável fascínio da mulherada pelos caras que jogam handebol (dondo vieram minhas tentativas de ter praticado isso, tendo sido, inclusive, tricampeão na faculdade), mas depois não serve pra absolutamente mais nada! E todo o tempo dedicado ao handebol foi em vão.

Por isso eu acho errado! Porque quando o cara não sabe jogar bola, tem de deixar ele mergulhar para enxergar todo seu iceberg das competências e descobrir alguma coisa que sabe fazer, sei lá, algo envolvendo matemática, Super Trunfo, dinossauros, computadores, enfim, dá pra tentar achar alguma aptidão em algo e deixar a quadra para o futebol. Ou então, se quiser usar as mãos, estão aí o vôlei e o basquete existindo, apesar de muita gente não dar a mínima.

spain lost russia 559x300 - Rússia 2018, dia 21: abaixo o handebol praticado com os pés!
Triste fim do tiki-taka espanhol na Copa de 2018: eliminação precoce para a Rússia | Antonio Calanni/AP

Sim, eu detesto o handebol, mas ele venceu. No caso, me venceu! Invadiu o meu terreno no que existe de mais sagrado e subverteu o futebol. Eu tava tentando identificar o que REALMENTE me incomodava nesse jeito do Barcelona e da Espanha jogarem, até que o meu Padrin Rock and Roll matou a charada:

– Aquele trem é chato demais, é handebol “cos pé”!

É isso! Essa coisa que o Barcelona joga é “handebol cos pé”. Por isso é tão chato. Claro, talvez por isso seja tão eficiente, pois as partidas de handebol terminam 62 x 59, ou seja, é mais fácil fazer gol desse jeito do que jogando futebol “de verdade”, mas por favor, parem de dizer que é BONITO. Não tem um único drible durante o jogo todo! Não há espaço para a imprevisibilidade. É bola de pé em pé, naquilo que em handebol se chama “engajamento”, até o gol.

Detalhe: se no futebol tivesse uma regra como no handebol, que pune o time que fica enrolando demais com o chamado “jogo passivo”, o Barcelona teria trabalho. Se todo aquele rame-rame deles de bola pra lá e pra cá tivesse que ter o destino do gol, ia complicar a vida desses caras.

Sim, é chato. Mas funciona. Quer dizer, dá certo. Ninguém consegue ganhar dos caras, salvo acidentes de percurso. O meu medo é se todo mundo resolver imitar, e os professores de educação física escolar, com um sorrisinho cínico no canto da boca, comemorarem a invasão do futebol por esse esporte que não deveria nem existir, sendo o próximo passo simplesmente abolir o jogo com os pés e liberar o uso das mãos.
Vai sair mais gol, inclusive…

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Randall Neto
Randall tem 45 anos, é brasileiro sem orgulho nem preconceito, com algum amor, sim senhor. Tem dois filhos, torce pela Argentina e ainda acha que dá pra empatar o jogo contra a Itália de 82. Escreve sobre Copas do Mundo desde 2002.