# Copa do Mundo da Rússia – 2018 – Dia 17 #

Uma das declarações mais carregadas de guanabarocentrismo oligofrênico e pachequismo inveterado é “O Zico não ganhou a Copa? Azar da Copa”. Eu acho isso de uma pequenez… isso REDUZ tudo o que foi o Zico de tal forma que deveria envergonhar quem a repete tanto! Zico não ganhou a Copa e, mesmo assim, foi um dos maiores jogadores de todos os tempos!

Como outros, tais como, mas não limitados aos dois rapazes que hoje disseram “adeus” à Copa da Rússia e talvez, em definitivo, ao sonho de ganhar um Mundial! Zico andar em companhia de Cristiano Ronaldo e Messi não é nada mal! Os 3 jogaram MUITO mais bola que Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, para ficar apenas nos que ganharam Copa com algum destaque, sem precisar rastejar para atingir o nível dos argumentos dos vermes que sempre soltam um “Paulo Sérgio, Vampeta ou Belletti” nessa hora.

Contudo, para além deles não terem ganho uma Copa, me interessa muito mais entender porque é que eles nunca conseguiram jogar em suas seleções como jogavam nos clubes. Sim, eu sei, é claro que eu sei que existem as diferenças de equipe e é impossível reproduzir nos selecionados o que têm Real Madrid e Barcelona, mas no caso do Zico, não fosse o Telê, era plenamente possível “dar um boost” naquele SuperFlamengo!

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Kanté foi o pesadelo de Messi durante o jogaço que França e Argentina protagonizaram | Thanassis Stavrakis/AP

Ainda me incomoda o fato de que não se trata de jogar abaixo do que podem Cristiano Ronaldo e Messi, jogaram mal! De uma maneira como nunca vi o Zico jogar. Isso aponta, mais uma vez, para o fato de que o futebol é cada vez mais coletivo, com menos margem para os caras que carregam a fama de levar um time nas costas. Mesmo assim, com toda a coletividade, existe espaço para o brilho individual de Cavani e Mbappé – isso, sem falar no incansável Kanté, com sua maurossilvidade exacerbada e escondida em pouca mídia!

A despeito disso tudo, DOIS JOGAÇOS! A derrota Argentina era esperada, apontou para um rumo que deu um pouco de medo, mas no final, o placar não traduziu o que houve em campo.

“Randas, ruim demais perder, né?”

“É, sim. Mas essa coisa de perder pra França eu acho que vocês entendem melhor do que eu”.

“Ah, verdade… mas poderia ter sido pior, poderia ter sido muito feio.”

“Feio? Tipo realizar uma Copa, construir estádio em Manaus, Brasília e Cuiabá, dar estádio pro curíntia, ajudar a quebrar o País e tomar de 7 a 1 em casa? Feio nesse nível?”

Eu acho que o brasileiro nunca teve consciência da própria desgraça e, volto a dizer, é um povo que não tem vergonha na cara! Bituca era cirúrgico há 200 anos: “Uma gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta”.

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Óscar Tabárez e sua inseparável bengala: uma geração uruguaia sob seus cuidados

Citar isso e deixar de mencionar a finalêra linda com a coisa da “estranha mania de ter fé na vida” é ignorar esse povo que fica ao sul da gente, que já foi da gente, que a gente deveria ter mais por perto. Pelo doce de leite, pela picanha, pelo vinho da uva Tannat, por Obdulio e por Galeano. Por Suárez & Cavani! Pelo Maestro Tabárez, claudicante em sua bengala, vendo o fim do seu projeto e do Capitán Lugano e de tantos outros resultar em algo realmente bacana. Para o país. Para o povo! E para que não se resuma o Uruguai à conversinha de presidente meio comunista que anda de fusca e libera maconha. A gente precisa olhar mais pro Uruguai. Inclusive, futebolisticamente, para além, muito além do papo de catimba e garra charrúa! Para além de Maracanazo. De Ramírez dando apavoro no Rivelino dentro do Maracanã (não, não, isso a gente não pode esquecer, é uma humilhação linda demais pra esse povo que se acha DONO DO FUTEBOL ser deixada de lado).

E se o Uruguai segue na Copa como começou – vencendo -, podemos dizer que a França apareceu hoje. E mostrou todos os seus talentos, seus enfants de la patrie ansiando pelo jour de gloire… se reafirmou como favorita, mas uma França sem Zidane, pra mim, sempre vai ser só uma França.

Do fim do dia, fica pra mim uma curiosidade futebolístico-antropológica: do que seriam capazes Messi ou Cristiano Ronaldo se jogassem nessa seleção do Tite?

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Randall Neto
Randall tem 45 anos, é brasileiro sem orgulho nem preconceito, com algum amor, sim senhor. Tem dois filhos, torce pela Argentina e ainda acha que dá pra empatar o jogo contra a Itália de 82. Escreve sobre Copas do Mundo desde 2002.