Aterrorizante pensar que muitos, silenciosamente, se sentiram contemplados pelos comentários criminosos. Racistas no armário, desprezíveis da mesma forma

De novo. É uma pauta que deveria ser surreal, guardada para enredo de literatura do realismo fantástico, mas está aí novamente, como um velho fantasma: o racismo à brasileira.

Jogadores perdem uma Copa do Mundo, o Hexa fica pra próxima, mas uma parcela dos torcedores se sentem ofendidos com a derrota. Resolvem descontar nos atletas e os que se destacaram negativamente são especialmente alvejados. Sentem o ódio na pele, literalmente.

Racismo vale esta - Racismo com Fernandinho: pior é saber que há quem se sinta representado
Algumas das mensagens de ódio deixadas para o jogador nas redes sociais | Reprodução

Realmente, Fernandinho não foi bem contra a Bélgica. O volante do Manchester City era um dos remanescentes em campo do 7 a 1, quatro anos atrás, ao lado de Marcelo e Willian – Thiago Silva estava no grupo, mas, suspenso, não participou do jogo.

Naquele desastre contra a Alemanha, em pleno Mineirão, Fernandinho foi muito mal e falhou bastante. No entanto, deu a volta por cima. Foi convocado para estar no grupo desta Copa sem muita contestação e vinha de um título inquestionável de seu clube pela Liga Inglesa, conquistado ao lado de Gabriel Jesus, Ederson e Danilo, todos também chamados pelo técnico Tite.

Infelizmente, contra os belgas o volante foi de novo infeliz. O primeiro gol surgiu de um desvio involuntário contra o próprio gol, depois que o grandalhão Fellaini encostou de leve a cabeça na bola após um escanteio. Bélgica 1 a 0.

Menos de 20 minutos depois, outro escanteio, este em favor do Brasil, acabou em contra-ataque. Fernandinho deveria parar a jogada com uma falta no atacante Lukaku. Teve a oportunidade, mas não fez isso. De Bruyne recebeu o passe e fez um belo gol. Bélgica 2 a 0.

A seleção perdeu o jogo e a chance do título. Está eliminada e de volta para casa. Neymar virou um pereba mimado, um craque a ser zoado nas redes.

E Fernandinho? Fernandinho virou macaco. Seu perfil no Instagram foi invadido por publicações que expressam o pior que há em pessoas humanas inconformadas por não serem atendidas com o Hexa.

Não é de hoje que se diz que brasileiro não gosta de esporte, gosta mesmo é de ganhar. Aquele homem ou aquela mulher esportista talentosa/talentoso, que trabalhou a vida inteira para conseguir resultados de alto nível, essa pessoa é obrigada a conviver com críticas absurdas de quem nunca viu na vida.

Foi assim com Gustavo Kuerten (tênis), com Rodrigo Pessoa (hipismo), com Rubens Barrichello e Felipe Massa (automobilismo) e com tanta gente mais.

Esse tipo de brasileiro se apropria do trabalho alheio para se sentir mais poderoso. Quando seu “empregado” fracassa, ele grita para o mundo a incompetência de quem não lhe deu mais uma vitória, uma medalha, uma taça.

Foi assim com Guga, Pessoa e Rubinho. Foi e é pior com os negros. Porque pretos, quando fracassam, são menosprezados por sua cor.

Agora, parem e pensem: menosprezo à cor de uma pessoa. O cara se sente no direito de falar em “macaco”, “banana”, “África”, “senzala” etc. para com isso sentir que colocou o outro em seu lugar.

Essa face horrenda de parte da população foi exposta nessas publicações. São criminosos de internet, que devem ser procurados pelos órgãos policiais devidos, processados e punidos. Esse tipo de agressão precisa ser combatido até o fim e espero que assim seja neste caso, porque a tecnologia possibilita uma apuração até relativamente fácil.

O mais aterrorizante, no entanto, é que muitos silenciosamente se sentiram representados pelos comentários racistas. São racistas no armário, desprezíveis da mesma forma, mas regozijando-se com a coragem dos que levam a cabo o crime que mentalizam.

 

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.