A mulher nunca deveria deixar que a relação chegasse ao ponto da violência física. Muitas fracassam nisso. A empatia pode ajudar – e muito

O primeiro motivo que leva ao surgimento deste texto é Tatiane Spitzner. Ela, a advogada morta pelo marido e covarde (menos marido do que covarde) Luís Felipe Manvailer, em Guarapuava (PR). Depois de espancá-la dentro do carro, antes de entrar no prédio; na garagem, antes de entrar no elevador; no elevador, antes de entrarem no apartamento; e no apartamento, antes de ela “cair” do 4º andar, o biólogo de 32 anos teve a coragem, surpreendente ante tanta covardia, de declarar que fugiu e bateu o carro a 300 quilômetros rumo ao Paraguai por ter se desesperado com a cena de sua mulher se atirando do 4º andar.

manvailer spitzner 452x300 - Quantas Tatianes você conhece? Quantas você pode salvar?
O agressor e a vítima de Guarapuava: violência que poderia ter sido prevenida ou, pelo menos, reprimida se houvesse mais empatia

Manvailer representa milhões. Milhões de homens brasileiros, que não entenderam até hoje que mulher não é propriedade, não é objeto, não é um ser inferior. Vivem como se o mundo tivesse parado no tempo e torcem para que as leis os resguardem ou, pelo menos, não os prejudiquem em sua pretensa hegemonia. Não são monstros, loucos, possuídos: são homens comuns, que podem estar com você na padaria, no trabalho ou na pelada de fim de semana.

Surge aqui, então, o segundo motivo para o texto: todas as vítimas de violência de seus parceiros/algozes, dia após dia, Brasil afora. A que distância cada uma delas está hoje de se tornar uma Tatiane Spitzner amanhã? E a que distância está você de cada uma delas hoje, a ponto de impedir o mesmo destino? Tatiane pode ser a colega de sala na faculdade, a parceira de treino na academia, a irmã da igreja ou, como foi no caso de Guarapuava, a vizinha de apartamento.

Daí chego ao terceiro ponto-gatilho deste texto, a partir de um comentário do médico e escritor Eberth Vêncio, em seu perfil na rede social Facebook:

“É inaceitável que uma mulher apanhe de um homem. Caia fora do relacionamento ao primeiro sinal de truculência. Não se iluda de que o sujeito vai se redimir, pois não vai. É má índole. E isso não tem cura.”

Está aí a regra de ouro que deveria ser usada por qualquer vítima desse tipo de abuso: à primeira agressão física, cair fora do que literalmente lhe faz mal e vai fazer mais ainda. Indo até além, a prevenção ao feminicídio deveria ser ainda mais anterior: não deixar que ocorra nem mesmo o primeiro tapa, o primeiro empurrão. Já seria hora de pular fora da barca quando o sujeito se mostrasse violento já pelas palavras, em uma eventual discussão: os insultos à dignidade feminina – “vaca”, “piranha”, “puta”, “vadia” etc. – ou a prepotência de diversas formas – “cala sua boca!”, “sou eu quem mando!”, “quem pagou fui eu!”, “você é uma inútil!” – mostram os sinais claros de um machismo que precisa ser contido e uma relação que precisa ser interditada.

A questão é que há tantos fatores envolvidos – na própria relação e também fatores internos/psíquicos – que tudo se torna muito mais complicado do que simplesmente a pessoa agredida abandonar aquele que a humilha, prejudica, ameaça.

Diante de uma pessoa evidentemente vulnerável e submetida às violências de uma relação, o que fazer? Primeiramente é importante pontuar o que “não” fazer: ficar omisso. Tudo piora com a aplicação do antigo (e equivocado) ditado em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. Ora, se uma pessoa está sendo insultada na sua frente ou se você escuta os gritos e pedidos de socorro do outro lado da parede, como não agir, como não fazer nada?

Os vizinhos de Tatiane poderiam ter feito alguma coisa. Provavelmente, tivessem agido, ela estaria viva. Provavelmente, alguns carregarão um remorso pela estrada da vida. No caso, de nada mais adianta. Fazer papel de inquisidor seria outra covardia. O importante é que casos tragicamente emblemático como esse possam dar o “clique” de que a próxima Tatiane pode estar morando do seu lado.

Prevenir o feminicídio envolve a aprovação de leis mais duras contra o crime – ao contrário do que apregoa certo candidato a presidente –, mas vai muito além disso. Começa, de fato, em campanhas publicitárias e escolares que apresentem essa realidade: onde não há respeito não deve haver relação. E, mais importante: que as mulheres dividam isso com as pessoas próximas, principalmente outras mulheres, que sejam parceiras umas das outras nas denúncias e no compartilhamento das experiências.

Não há paixão que valha a menor humilhação, mesmo linguística, discursiva. Até porque o discurso, como já discorreram vários estudiosos, é só a metáfora de uma violência, um recurso que a reprime ou a satisfaz, não se sabe até quando. A mulher não pode pagar para ver onde isso vai dar. Com o apoio das pessoas que a cercam, fica bem menos difícil sair dessa cilada. Empatia salva.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.