João Grego

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) poderia racionalizar o uso dos recursos financeiros e humanos empregados nas competições. Se não estiver preocupada com os próprios recursos, deveria, ao menos, preocupar-se com os recursos dos clubes de futebol, que, salvo raríssimas exceções, estão seriamente comprometidos.

O primeiro desperdício de recursos está no protocolo adotado pela CBF para a retomada das atividades no futebol brasileiro.

Não me parece que tenha sido acertada a escolha de centralizar exames em um único laboratório.  Ainda que o laboratório escolhido – o do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo – seja uma referência de qualidade e seriedade.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, é quase senso comum que esta estratégia estaria cercada de riscos.

E os riscos acabaram se materializando já nas primeiras rodadas dos campeonatos das Séries A, B e C.  É óbvio que coletar material no Norte, Nordeste ou Centro-Oeste brasileiro, armazenar corretamente e enviar para o Sudeste para análise, não é uma operação trivial, ainda mais em um período em que as companhias aéreas estão operando com o mínimo de aeronaves e os cancelamentos de voos tem sido frequentes.

É certo, também, que todas as unidades federativas possuem laboratórios com capacidade atestada para realizar os exames previstos no protocolo. Ou não? Se a CBF não tem essa confiança, deveria vir a público apresentar suas dúvidas e motivos para não confiar nesses laboratórios, ajudando assim milhões de pessoas que estão depositando sua confiança nestas instituições ao realizarem seus exames.

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Além da questão da centralização dos testes, o protocolo adotado é uma peça de ficção.  Os jogadores são examinados em um dia, os resultados saem no dia seguinte ou, no pior dos casos, em até dois dias após a coleta. O que acontece aos jogadores após a coleta do material? Ficam isolados? Estão protegidos de qualquer tipo de risco de contágio? A resposta é não.

Os jogadores realizam a coleta do material para os testes e vão para o treino. E do treino, para suas casas.

Mesmo que todos cumpram em seus lares um rigoroso isolamento social, foram expostos ao risco de contágio pelos demais jogadores do elenco e membros da comissão técnica, por vizinhos de condomínio com quem compartilharam o elevador e por seus próprios familiares.

Todos, então, testados negativamente para a covid-19, são presumidamente negativos dois dias após, mesmo com os riscos apontados no parágrafo anterior. E, assim, ficam concentrados para a próxima partida ou embarcam em voos comerciais, onde terão novos riscos de contágio.

O segundo desperdício de recursos está nos milhares de quilômetros que a grande maioria dos times vai percorrer desnecessariamente nas competições.

A CBF poderia ter feito muito mais do que simplesmente promover a mudança de datas nas tabelas das competições, somando alguns dias à data originalmente marcada para as partidas.

Tomemos como exemplo a Série A. Não seria mais sensato que a tabela fosse reorganizada para que os clubes não fossem forçados a visitar a mesma localidade mais de uma vez para realizar suas partidas?

Não seria mais lógico e racional que, por exemplo, Goiás e Atlético Goianiense pudessem compartilhar um voo fretado para Curitiba e jogar consecutivamente contra Athletico e Coritiba? Que Ceará e Fortaleza pudessem fazer o mesmo quando fossem enfrentar Inter e Grêmio em Porto Alegre?

Para Rio e São Paulo, poderiam ser feitos blocos de dois jogos, já que jogar quatro partidas seguidas fora de casa seria injusto com os demais times. O fato é que as viagens deveriam ser racionalizadas para serem menos desgastantes e dispendiosas.

Imagine a quantidade de recursos financeiros que seriam economizados. Em época de vacas magérrimas, como a que vivemos, esse alívio de caixa seria essencial. Sem falar na preservação dos recursos humanos: quanto menos se deslocarem e quanto mais tempo permanecerem concentrados para os jogos, menores os riscos de contaminação.

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Essa medida seria benéfica não apenas para jogadores e comissões técnicas, mas para todo o ecossistema do futebol, em especial as equipes de rádio e televisão.

Não creio que seja tarde para revisar esses pontos. Em um momento de tantas incertezas e tantas variáveis para administrar, me parece bastante razoável pensar em mudanças que poderiam resultar em economia.

O futebol precisa evoluir dentro e fora de campo.

João Grego é especialista em Marketing Esportivo e ex-diretor de marketing do Goiás Esporte Clube.


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