Texto 7 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Victor Hugo Viegas Silva

Protestar faz bem para a saúde?

O insuspeito Wall Street Journal publicou, dia 18/6, que especialistas foram surpreendidos pelo fato de que não houve um pico de infecções após os protestos contra a morte de George Floyd: nem em Minnesota, nem em Seattle, nem na maioria das cidades dos Estados Unidos em que ocorreram.

Shay Horse, fotojornalista que entrevistei e esteve acompanhando várias dessas movimentações em Seattle, me confirmou:  “A maioria das pessoas está sendo testada logo após o protesto e as confirmações estão dando número de – no máximo – um dígito (1,5% a 2%), então acho que está tudo bem. Acho que provamos que as máscaras mais ou menos funcionam.”

Mas funciona pra quê? O Centro de Controle de Doenças (CDC em inglês) divulgou uma lista de espaços e atividades de maior risco nos últimos dias.

Um resumo: espaço fechado, contato prolongado, compartilhamento de espaço: alto pra altíssimo risco. Espaços aberto, contatos rápidos, poucas superfícies compartilhadas, máscaras: médio baixo pra baixíssimo risco.

Mas, e os cuidados necessários? Trabalhadores da construção civil a céu aberto, por exemplo, estão sofrendo um surto de infecção – mesmo com máscaras ao céu aberto muitas vezes. O mesmo não poderia se aplicar aos protestos?

Depende. Vários médicos simpáticos aos protestos tiveram debates intensos antes dos protestos. Alguns quebraram a cabeça e acharam uma solução: desenvolver uma forma de cuidado específica para aqueles que queriam se revoltar coletivamente.

Colin Furness, epidemiologista contrário a protestar apenas virtualmente, se encarregou disso: “Lembre-se de que as máscaras protegem os outros”, disse ele. “Então você quer olhar em volta e ver quem não está usando uma máscara e dar muitos passos para trás”.

“Para protestar com segurança durante a #covid19, deixe seu sinal falar, seu telefone cantando e use uma máscara”, escreveu outra médica no Twitter. Dr. Nikhil Bhayani, médico de doenças infecciosas da DFW Infectious Diseases PLLC e Texas Health Alliance, também deu a dica para os manifestantes: “As pessoas devem usar uma máscara adequada, firme e segura e mantê-la sempre. Algumas outras dicas de máscara facial de pano incluem várias camadas de tecido, sem respiração restrita, lave as mãos após o uso e lave à máquina rotineiramente.”

Podemos começar com esse debate e conselho de usar máscaras de forma consequente e responsável. Os combinados coletivos em torno dessa premissa básica vão costurando possibilidades de ação comuns, contando já com o reconhecimento de alguns especialistas do tema.  

Um gesto altruísta – máscaras e cartazes

Precisamos fazer esse debate e conversar com especialistas que nos ajudem a adaptar isso para o contexto brasileiro, uma vez que é inevitável que aqui também se repitam os protestos dos EUA.

Não por uma lei universal das hashtags, mas porque até o Estadão teve de admitir que era um absurdo a violência policial atingir um patamar recorde, enquanto os furtos e assaltos, justificativas usuais dos assassinatos, se reduzem em 30%.

Não por acaso o assassinato de Guilherme, 15 anos, em São Paulo ter resultado numa onda de solidariedade e queima de ônibus e o assassinato de Gabriel ter detonado um movimento similar no Rio Grande do Norte.

Os dois com bandeiras específicas de #JustiçaParaGabriel, #VidasNegrasImportam e pautados pela solidariedade, por sentir a dor do outro, não ficar reduzido apenas a sua própria dor. O gesto altruísta de usar a máscara para não infectar os outros combina justamente com esse sentimento, não é por acaso.

Um ponto importante e reconhecido por quase todos para a força dos protestos por George Floyd é a transversalidade com que conseguiram mobilizar também trabalhadores brancos que estavam isolados antes na luta contra a sabotagem da quarentena e conseguiram se integrar de forma solidária em algo.

A forma com que conseguiremos integrar as diferenças brasileiras, que se dão de forma específica e particular, distinta da americana, vai fazer muita diferença para o sucesso do movimento.

Solidariedade real entre os de baixo. Todos com a mesma voz, baixa, porque não rola de gritar. Vou tentar explicar melhor com um contraste.

pandemico mascaras1 300x300 - Protestos combatem pandemias? – o exemplo do “Não podemos respirar”
Um cartaz não é (só) um cartaz…

Um cartaz – o leitor deve saber – nunca é apenas um cartaz. Um cartaz pressupõe discussão sobre o assunto, organização para a compra dos materiais, um desenho pressupondo um público que vai responder positivamente.

O cartaz feito com diversos recortes pressupõe uma preparação e um respaldo de profundidade um pouco maior do que simplesmente ter uma ideia e levar para o protesto. Todo protesto tem uma série de cuidados prévios e após a realização do ato.

Por isso se trata de uma manifestação: nada se cria ali, apenas se manifesta uma força social acumulada previamente. Assim como uma luva descartada no chão pode revelar uma história de descaso e passividade em um abrigo de idosos, cartazes e máscaras podem dizer muito de como se preparou, encarou e o que se pretende fazer com um protesto.

pandemico mascaras2 - Protestos combatem pandemias? – o exemplo do “Não podemos respirar”

Máscaras e cartazes. Em que pese o descuido da manifestante em primeiro grau na foto acima, ao baixar a máscara no exato momento da fotografia, é perceptível que todos os demais estão mascarados. Estão com algum distanciamento. Estão com cartazes previamente desenhados.

Todos levantando os braços sem se acotovelar. Ninguém gritando ou cuspindo no outro. Estávamos errados, errados, errados. A infecção só aumenta se a manifestação for composta por indivíduos isolados, que estão se lixando uns para os outros, sem preparação prévia nem esperança pro dia de amanhã. A máscara não exclui o cartaz, nem o inverso. Um reforça uma forma do outro. E que forma é essa? Vamos ver o exemplo de Seattle.

“Pequenos” podem fazer diferença por serem referências do novo

Seattle, espaço privilegiado para os protestos, desde 2011 tem uma rede de solidariedade de trabalhadores que durante essa pandemia tem tido importante papel de publicização e articulação de lutas isoladas de empregados contra as tentativas de infecção deliberada e roubo de salário de seus patrões. Chama-se Seattle Solidarity Network.

Eles são focados mais em ações relacionadas aos trabalhadores e seus espaços de trabalho, mas também vem fazendo um trabalho importante com relação às lutas contra despejo durante a pandemia – lutas que aqui no Brasil seriam consideradas de sem teto.

O Grupo de Ajuda Mútua de Seattle também vem desenvolvendo ações que antes estavam voltadas para segurança alimentar e aluguéis e agora estão voltadas para a questão das fianças e processos que ocorrerão contra ativistas. É tudo gente que sabe de onde veio, onde está, para onde vai.

Essas pessoas contribuem para um clima em que as práticas de luta encontram um horizonte que não se reduz ao desespero hoje ou amanhã. Podemos contar uns com os outros. Temos alguma estrutura, alguma referência para acolher e integrar os novos desesperados por uma luta coletiva. Se oferecermos um futuro, atrairemos as pessoas certas. Se oferecermos desespero e adaptação, virão os desesperados da luta pela morte.

“A reorganização da nossa sociedade vai exigir isso e muito mais. E ela começa aqui e agora, nas nossas lutas pelas nossas vidas. Começa com um novo pacto político, hegemonizado pelos trabalhadores”

Se vocês acham impossível ao mesmo tempo fazer um protesto, preparar a comida, cuidar uns dos outros e acompanhar o caso de um camarada sofrendo um processo, estão ambicionando muito pouco. A reorganização da nossa sociedade vai exigir isso e muito mais. E ela começa aqui e agora, nas nossas lutas pelas nossas vidas.

Começa com um novo pacto político, hegemonizado pelos trabalhadores. Nesse pacto, o principal não são a democracia, as instituições, a paz e a ordem. O eixo central são as nossas vidas e as necessidades de cada pessoa de nosso povo, do mais frágil ao que mais tem condições de dedicar esforço e energia ao coletivo.

Ninguém fica para trás. Antigamente se chamava a isso de socialismo. Sabe-se lá que nome terá, mas uma coisa é fato: se os capitalistas nos oferecem a morte, há quem vá lhes oferecer de volta a morte da sua sociedade e o nascimento de uma nova. Certamente, eles irão voltar atrás. E quem sabe se não será tarde demais?

Finalmente, é importante também pensarmos como resistimos às ofensivas: lá também os policiais se recusam a usar máscaras e nisso infectam deliberadamente os manifestantes;

Lá, Trump tentou, como Bolsonaro, fazer a máscara símbolo de covardia, enquanto manifestantes fizeram dela símbolo da solidariedade (e venceram). Lá também havia festas de infecção com covid-19, festas parecidas com o “Baile da Covid” que gerou o espancamento de uma médica solidária no Rio de Janeiro.

A luta se dá de forma dinâmica, em disputa. Precisamos disputar os significados em várias frentes e os protestos são apenas um momento dessa disputa.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa    #SeSairUseMáscara


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Victor Hugo Viegas Silva
servidor da Universidade Federal de Goiás (UFG)