Está bem claro que João Amoêdo, candidato do partido Novo à Presidência, se tornou o novo queridinho dos economistas de Facebook. Seu discurso antiestatista, endeusando a iniciativa privada e a retórica do “não se pode distribuir pobreza” encantam aqueles que nem entendem que são preconceituosos. Amoêdo serve principalmente a uma classe média que se imagina ilustrada e moderna. O problema é que, entre os grupos políticos que se consideram liberais, ele representa o que há de pensamento mais antiquado. Se esquecermos as práticas e colocarmos lado a lado apenas o discurso do Novo com outro partido, como o PSDB, este último se mostrará muito mais emparelhado com as teorias econômicas modernas do que o primeiro.

João Amoêdo no lançamento de candidaturas em Brasília 491x300 - Por que o partido Novo já nasceu mais velho do que o PSDB?
O presidenciável João Amoêdo, em lançamento de candidaturas do Novo em Brasília: ideologia econômica antiga já na metade do século passado | joaoamoedo.com.br

Se os discursos dos dois partidos são muito parecidos, é preciso entender como suas matrizes são profundamente diferentes. Isso é essencial para compreender como o Novo é velho. Suas diferenças podem ser rastreadas a um momento crucial no liberalismo econômico: o racha entre a Escola Austríaca de Economia e os outros liberais (principalmente, a Escola de Chicago) nos anos 40 e 50. Por diferenças irreconciliáveis, os dois grupos trilharam caminhos absolutamente diferentes. O segundo se tornaria a ciência econômica mainstream, o primeiro adquiriria cada vez mais um perfil de movimento político.

Se autores como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises infestam a internet, pouca influência eles têm na economia praticada na academia. É sintomático que Hayek tenha sido admitido pela Escola de Chicago no comitê sobre o Pensamento Social e não no de Economia, onde havia muita resistência a sua nomeação. Burgin conta como Mises se tornou cada vez mais isolado entre os liberais que iam se destacando no período, tanto pelo seu comportamento irascível como por suas ideias econômicas, consideradas antiquadas por seus pares. É conhecida a anedota em que chamou de “socialistas” os sujeitos que viriam a ser os maiores expoentes do neoliberalismo.

Deixemos de lado os detalhes dessa separação e o papel de Milton Friedman nela. O que importa é que, a partir dos anos 70, Hayek e Mises se tornaram a inspiração para os libertários, enquanto a Escola de Chicago tornou-se base das políticas econômicas neoliberais.

A diferença entre libertários e neoliberais é imensa. Enquanto os neoliberais pretendem diagnosticar a racionalidade econômica em todo comportamento humano como forma de formular propostas que não tenham basicamente nada a ver com a moral, os libertários se utilizam da linguagem econômica para fazer avançar uma velha moralidade.

Neoliberais versus Libertários

Para o neoliberalismo, a desigualdade é o motor do crescimento. Porém, ela serve apenas como propulsora da concorrência, essa sim o verdadeiro núcleo da economia para a corrente. Sem a desigualdade, a economia não pode avançar porque é ela que estimula o investimento, a chave de todo modelo econômico. Porém, não é por acaso que instituições internacionais neoliberais estejam cada vez mais preocupadas com o grande aumento da desigualdade. Elas identificam que o fosso absurdo que está se abrindo pode tornar a desigualdade não operacional para o neoliberalismo. Deixando bem claro: os neoliberais não se importam com a pobreza extrema. Ela sempre foi uma função do modelo. O que ocorre é que até eles têm notado um limite para essa desigualdade. Infelizmente, no entanto, os donos do poder econômico são gananciosos demais para perceberem os perigos para a própria sobrevivência.

Já para os libertários, a desigualdade não vai estabelecer um sistema de equilíbrio macroeconômico. Até porque a macroeconomia (uma forma de olhar o comportamento agregado, o sistema como um todo, ao invés do individual), é um conceito estranho a eles.

A desigualdade faz parte do sistema de sinais de riqueza/pobreza. E são os sinais de riqueza/pobreza que demonstram quais são os indivíduos merecedores e quais não são. Não há uma “terra prometida” para o Novo, não há um sistema onde todos ganham. O discurso econômico do partido tem um filtro que separa quem merece e quem não merece.

Um exemplo recente sobre isso foi a proposta do candidato Ciro Gomes de “limpar o nome dos brasileiros no SPC [Sistema de Proteção ao Crédito]”. Rapidamente, os libertários que se ajuntam nas redes sociais se concentraram em atacar um lado estranho da proposta: o dos devedores. Ora, quando o pagamento de uma dívida não é concretizado, o grande perdedor não é o devedor, é o emprestador. Foi ele quem assumiu o risco e ficou sem o dinheiro. Ao invés da proposta ser criticada por esse viés, concentrou-se no “povão que deve e não quer pagar.” É a moral que formata o discurso econômico. É o “pobre preguiçoso” que merece as atenções. Esquece-se que o risco moral na economia não se concentra em quem toma o empréstimo, mas em quem o faz.

O MBL [Movimento Brasil Livre], o partido Novo, o Instituto Liberal (Ilisp) e todos esses movimentos que infestaram a internet se inserem nesse discurso. Mesmo que  adequem a retórica para tempos menos intransigentes do que os atuais (não se pode dar tanta bandeira em um país tão desigual como o nosso), transborda a ideia da riqueza como sinal divino. Não importa se por herança, por merecimento ou qualquer outro meio: se você é rico, alguma coisa fez de certo. Isso não é ciência econômica, isso é discurso moral rasteiro disfarçado de economia. Para esse grupo, a economia não é instrumento de um mundo melhor, é a maneira de identificar quem é merecedor e quem não é. Não à toa, essa ideologia tem tido bastante sucesso nos Estados Unidos, que imaginam um passado glorioso de “individualismo bruto” (no original, rugged individualismo) do Velho Oeste. A saída de cena do Estado passa a ser resumido em um darwinismo social tosco: “que vençam os melhores”. Daí se enxergam suas várias áreas de contato com o racismo, a xenofobia e a misoginia. Se o libertarianismo parece tão próximo do progressivismo cultural e social por sua ênfase na liberdade individual, ele se conecta muito melhor com ideias que forneçam os porquês de determinados grupos sempre parecerem ser os melhores na competição desenfreada.

No neoliberalismo, o pobre é absorvido pelo modelo econômico. Os elementos poupança, investimento, renda e outros depuram os conceitos morais e procuram tornar governável essa população pobre. Desde que a macroeconomia emergiu como base da ciência econômica nas décadas de 30 e 40, deixar o mercado livre passou a ser insuficiente. O Estado deve intervir o tempo todo para estimular a concorrência. O neoliberalismo não quer um Estado menor, quer um outro modelo de Estado, no qual se entende que o mercado naufragará se for deixado à deriva. É necessário criar e recriar o mercado o tempo todo.

Em suma: o Estado não é a nave alienígena que surge lançando uma sombra sobre a sociedade civil. Ele não é um elemento que está fora do modelo; ele é o maestro. André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, explicita isso em seu último livro, Juros, moeda e ortodoxia. Ao falar sobre o pai da ciência econômica brasileira, Eugênio Gudin, ele deixa claro: “(…) um liberal, mas longe do liberalismo radical ingênuo que não vê papel para o Estado na economia, como fica claro em sua afirmação de que ‘a função do Estado liberal é a de estabelecer as regras do jogo, mas não a de jogar’, ou ainda a de que ‘nunca precisamos tanto da colaboração inteligente do Estado para o progresso da economia’”. E André Lara está certo: Gudin, nos anos 40, já era muito mais moderno que Amoêdo.

Bolsa de Valores, um falso ícone do livre mercado

Bernard Harcourt se utiliza do símbolo maior do liberalismo econômico para explicar a concepção neoliberal: a Bolsa de Valores norte-americana. Se ela parece “ser” do livre mercado, com seu movimento incessante de compra e venda, há uma estrutura altamente complexa de regras e leis que gerem esse movimento. Acentuando algumas regras que parecem arbitrárias e absurdas ao olhar comum, o autor demonstra como a Bolsa atual se assemelha ao mercado de grãos francês do século 17. A diferença é que, se naquele momento as regras procuravam encontrar um “preço justo”, agora as regras buscam estimular o homem concorrencial. As leis não retraíram, o Estado não diminuiu; ele se transformou.

Isso significa que o neoliberalismo é “mais humano” ou “uma melhor alternativa”? Pelo contrário, ele é muito mais pernicioso. Só que saber as diferenças entre uma ideologia barata e um sistema complexo é essencial para se entender como cada um deve ser combatido. O partido Novo não deve ser ignorado. O crescimento das redes libertárias pelo mundo, por meio de financiamentos bilionários, já está bem documentado e o Novo é a ponta mais visível desse fenômeno recente no Brasil. Só que compreender como ele se utiliza da economia para avançar teorias morais é a parte mais importante nessa disputa.

Enquanto há uma série de novos economistas consagrados que explicam o crescimento como função da distribuição, a esquerda é atraída pelas frases de Amoêdo a se engajar em um debate defasado de crescimento versus distribuição. Como se a ideologia desses libertários tivesse algum crédito. Não tem.

Ao contrário dos marxistas, que entendem que suas teses são minoritárias na explicação econômica e oferecem razões para isso, a maioria dos apoiadores seduzidos pelo discurso libertário acreditam que estão conectados com o que há de mais moderno na ciência econômica. Por isso, a forma mais eficaz de combater o libertarianismo não é demonstrar as qualidades da esquerda para os apoiadores dele; o melhor é lembrá-los de que nem a ciência econômica atual (aquela que eles acham que estão replicando) os respeita.

___________________

P.S. 1: O Partido Novo não se declara libertário e muitas vezes é denunciado por eles por seus “desvios da doutrina”. No entanto, não é a adesão explícita que importa, mas sim a concepção do mercado como algo natural e as derivações morais que surgem disso.

P.S. 2: Antecipando algumas ressalvas: sim, Gustavo Franco foi para o Novo. A ida do economista para o Novo só confirmou para o autor deste artigo que suas encarniçadas disputas com os outros membros da equipe econômica de FHC tinham um fundo muito mais ideológico do que científico.

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS