Todo mundo deve ter ouvido falar na frase “matar o pardal com um tiro de canhão”. Ou algo assim.

Significa, na prática, usar uma força desproporcional para destruir um alvo, um inimigo. Isso vale para pessoas em cargos de comando ou mesmo para instituições poderosas em si.

Quantas vezes vimos campanhas intensas contra algo ou alguém ocorrendo na nossa frente, principalmente por quem detém o poder da comunicação?

E quando essa “campanha” na verdade é exercida sem propósito aparente algum, apenas como consequência de um desatino coletivo?

Foi o que se deu neste domingo, com um simples profissional do futebol: o goleiro Sidão, do Vasco da Gama, na partida em que seu time perdeu para o Santos, em São Paulo, por 3 a 0.

Em uma tarde especialmente infeliz, ele – que fazia apenas seu segundo jogo pelo clube, no qual já chegou com a contratação questionada – falhou direta ou indiretamente em dois gols e em alguns outros lances da partida. Foi o que bastou para que a torcida santista gritasse seu nome, em uma espécie de incentivo às avessas.

Às avessas, também, ele venceu a enquete chamada Craque do Jogo, promovida pela TV Globo pela internet, com 90% dos votos. Obviamente, houve uma adesão em massa a seu nome de torcedores de clubes rivais – imagina o potencial de votos de flamenguistas!

Quase ao fim da transmissão, o narrador Luís Roberto anunciou o “vencedor” e observou que a enquete tinha virado uma brincadeira. De mau gosto, diga-se, mas ainda no nível dos torcedores internautas.

Seria o momento para que a produção da Globo no evento entendesse o que deveria fazer a seguir. É que o tal Craque do Jogo é entrevistado após a partida e recebe o troféu por seu desempenho. Logicamente, haveria um constrangimento evitável.

Ninguém fez nada e o protocolo foi seguido. Findo o jogo, a repórter Júlia Guimarães, visivelmente embaraçada, entrevistou Sidão e, ato contínuo, tentou justificar a entrega do “troféu”. O goleiro recebeu o objeto com a maior dignidade possível e saiu sem falar mais nada.

Veja como o Twitter do Globo Esporte tenta remendar a situação e enaltecer o comportamento do goleiro. Sem sucesso (para a emissora).

A reação nas redes sociais foi imediata. Creio que poucas vezes a área esportiva da Rede Globo tenha sido tão execrada (e merecidamente, é bom ressaltar). O comentarista Walter Casagrande Jr., da própria TV, tachou como “ridículo” o troféu. Muitos outros profissionais da imprensa nacional foram solidários ao jogador e críticos à entrega do “prêmio”.

Sidão é um goleiro de 36 anos que fez um sucesso tardio como profissional, ao ser vice-campeão paulista defendendo o Audax. A seguir, fez boa temporada no Botafogo e, contratado pelo São Paulo, foi malsucedido, assim como no Goiás, clube que defendeu até mês passado e do qual saiu enxotado pela torcida por uma declaração mal-elaborada – por inabilidade, não por maldade – sobre sua ida para o clube (que teria sido uma “descida” na sua carreira).

Sua história de vida é impressionante. Superou diversas dificuldades, a maior delas a morte da mãe, pela qual se sentiu responsável. Foi usuário de drogas e esteve a um passo da criminalidade. Confessou ter tentado o suicídio após entrar em depressão.

Não se faz com uma pessoa o que a Globo fez usando uma concessão pública. Essa mesma concessão foi usada outras vezes para execrar pessoas e instituições de diversos tamanhos e envergaduras. No caso presente, humilhou uma pessoa já detonada em muito pela vida e em um momento muito ruim de sua vida profissional.

Repito: ao perceber o resultado da enquete, a grande Rede Globo poderia ter criado “n” saídas para o imbróglio que causara. Preferiu seguir o protocolo covarde. Depois do ato consumado, veio um pedido de desculpas a Sidão.

Desculpa, Globo, mas essa não dá. Essa vai para um novo quadro: o Imperdoável Futebol Clube. Porque “inacreditável” é muito pouco para esse seu tiro de canhão num ser humano que falhou em seu ofício.

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.