por Vinicius de Souza Melo*

A pergunta no título deste texto pode parecer descabida. Ora, se Trump discursou na Assembleia Geral da ONU, o discurso só pode ter sido dirigido aos representantes dos países-membros e ao mundo como um todo. Que raio de pergunta é essa? Não, caro leitor, não estou duvidando de sua inteligência – e espero também não estar dando a você razões para duvidar de minha sanidade mental. Como em quase tudo que se refere à polêmica figura do atual chefe do Executivo dos Estados Unidos da América, nada é assim tão simples.

Não é preciso ir longe para observar que a relação entre Trump e a Organização das Nações Unidas pode ser definida por algumas palavras, mas certamente “respeito” não está entre elas; o atraso ao chegar para proferir seu discurso é apenas mais uma demonstração de sua pouca consideração por instituições multilaterais desde que tomou posse, em 20 de janeiro de 2017.

trump na onu 450x300 - Para quem Trump falou em seu discurso na Assembleia Geral da ONU?
Trump durante a cúpula da ONU: ele pode recebe um “convite para se retirar” da cadeira principal da Casa Branca | Divulgação

E, assim como em quase todos os seus pronunciamentos, seja em público, seja pelo Twitter – a rede social que é a menina dos seus olhos –, sua fala como sempre não deixou de chamar a atenção. Mas a mensagem de Trump, embora tenha sido proferida no púlpito da Assembleia Geral, em sua 73ª reunião, e transmitida para o mundo todo, estava voltada principalmente para o público norte-americano.

O discurso do atual mandatário da maior nação do mundo tem algumas características marcantes: declarações polêmicas; afirmações duvidosas (nem sempre apoiadas em fatos); uso de frases curtas – não raro compostas por uma única palavra como “TRISTE!” ou “INJUSTO!” – para resumir situações complexas a termos simplórios; e um inegável narcisismo. Mesmo em ocasiões em que o foco não é sua pessoa – como nos eventos em que esteve presente para demonstrar apoio a candidatos de seu partido em eleições locais ou para o Legislativo federal, Trump nunca resistiu a se gabar dos feitos de sua gestão – ou ao menos, de conquistas que ele atribui à sua gestão – e a atacar adversários e ex-membros de seu governo. E, em todas essas ocasiões, seu discurso teve como alvo sua base eleitoral, que demonstra inequivocamente se deliciar com o estilo histriônico do bilionário e apresentador de reality shows.

Ao discursar na sede da ONU, Trump, em resumo, disse que seu governo realizou conquistas como quase nenhuma outra gestão na história de seu país, em apenas dois anos; defendeu sua visão de isolamento e ação unilateral, em oposição a uma abordagem multilateralista – que vê como limitadora da liberdade e soberania de sua nação; atacou (não sem uma dose de razão, note-se) países como a Venezuela, Irã e Síria; atribuiu à estratégia de seu governo a decadência do autoproclamado Estados Islâmico; reiterou a imagem de seu país como vítima de um sistema de comércio internacional injusto que o prejudica econômica e socialmente; defendeu sua política de restrição de entrada de imigrantes; elogiou países cuja política interna têm causado certa preocupação, como a Polônia; e louvou uma visão conservadora da sociedade americana.

Não há nada de novo no front, todos estes assuntos já foram tratados em ocasiões anteriores. Mas, para Trump, este é um ano especial, quando cada oportunidade de se pronunciar tem importância inegável. Em novembro deste ano, teremos as chamadas mid-term elections, nas quais serão disputados todos os 435 assentos da House of Representatives (equivalente a nossa Câmara dos Deputados) e um terço dos 100 assentos do Senado; uma oportunidade para o partido que está no poder aumentar sua base de apoio – ou, no caso da oposição, de tornar a vida da situação mais difícil, “roubando” cadeiras e votos. Essa última situação não seria agradável normalmente, mas para o atual presidente, poderia significar o início do fim de seu mandato.

Ligações obscuras

As investigações sobre a suposta influência russa nas eleições presidenciais de 2016 estão cada vez mais próximas de Trump. Michael Cohen – seu ex-advogado e homem de confiança, foi condenado pela Justiça por ter cometido ilícitos no tocante ao financiamento de campanha eleitoral, fraudes fiscais em oito ocasiões e ter realizado declarações falsas junto a uma instituição financeira – estaria fornecendo informações à equipe do  procurador especial Robert Mueller, que investiga a suspeita de colaboração entre os membros da campanha do então candidato e cidadãos russos para prejudicar sua adversária, Hillary Clinton, e garantir a vitória republicana. E o advogado é apenas um dentre cinco membros da equipe de campanha que colaboram, ou estão prestes a colaborar, com as investigações.

trump woordward 533x300 - Para quem Trump falou em seu discurso na Assembleia Geral da ONU?
Bob Woordward e seu livro, que é mais uma ameaça ao governo Trump | Divulgação

Junto a isso, na semana retrasada houve o anúncio do novo livro do jornalista Bob Woodward, intitulado Fear (Medo), resultado de uma série de entrevistas com funcionários da Casa Branca que revelaram um retrato bastante perturbador do presidente, descrito como alguém com pouquíssima compreensão de política internacional e que tem de ter suas piores ideias podadas por assessores para evitar verdadeiras hecatombes mundiais. Nestes tempos em que o trabalho da imprensa tem sido, em todo o mundo, vítima de descrédito e as famigeradas fake news proliferam nas redes sociais, nunca é demais lembrar que Woodward é um profissional de reputação sólida, cujo trabalho junto ao colega Carl Bernstein foi imprescindível para elucidar o infame escândalo de Watergate.

Junte-se a isso atitudes temerárias, como negar-se a reconhecer que cerca de 3 mil pessoas morreram em Porto Rico em decorrência dos erros do governo federal após a passagem do furacão Maria (e atribuir esses números a uma tentativa de desmoralização por parte do Partido Democrata), e não é difícil entender por que sua popularidade declinou para espantosos 36%, um índice negativo histórico. Enquanto isso, os democratas parecem passar por uma renovação. Após a derrota em 2016, uma nova geração de democratas está emergindo nas eleições deste ano – muitas mulheres e descendentes de imigrantes hispânicos, como a nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez, sensação das prévias do partido – fortemente influenciada pelas ideias do pré-candidato derrotado Bernie Sanders.

Com a popularidade em baixa e com a possibilidade de um processo de impeachment cada vez mais visível no horizonte (caso as investigações conduzidas por Robert Mueller confirmem as cada vez mais sólidas suspeitas), não se trata apenas de sucesso político: as eleições de mid-term podem levar o governo do polêmico presidente a um fim prematuro, bem como conduzi-lo, com vários de seus aliados, a uma condenação legal. Ao discursar na ONU, Trump se dirigia não ao mundo, mas a seus eleitores, na esperança de evitar esse trágico fiasco eleitoral.

Vinicius de Souza Melo é mestre em Relações Internacionais pela PUC-GO .

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Estádio das Coisas
A arena para todos os debates