O que leva alguém a perder o medo? E o que leva uma multidão a fazer o mesmo? E uma nação inteira, então?

Minnesota é um Estado do centro-oeste estadunidense, com 5,6 milhões e 225 km² de área. Uma população e uma área menor do que a de Goiás, por exemplo. Tem 24.190 casos confirmados de covid-19 e 1.026 mortes pela doença.

Números que deveriam assustar, mas só podem assustar até certo ponto.

Até o ponto de ter algo que assuste mais. Em Minneapolis, a maior cidade desse Estado, o limite foi marcado pela tortura de um homem negro até a morte por um policial.

George Floyd implorava para poder respirar até desfalecer. Esteve com seu pescoço pressionado contra o solo durante nove minutos pelo joelho do policial Derek Chauvin.

Desarmado e deitado no chão, repetia: “Não consigo respirar, não consigo respirar, senhor!”.

Nem a filmagem da cena em um celular demoveu o agente de segurança da arbitrariedade que se transformava ali em assassinato.

Se os Estados Unidos têm problemas raciais sérios, Minneapolis é um epicentro de tudo isso. É uma das piores áreas metropolitanas para negros morarem, com disparidades registradas por vários índices sociais.

Mas, por que o protesto se espalhou? Por que não se concentrou ali?

Porque o “ali”, nos Estados Unidos da América de hoje, são vários. Porque o sentimento é geral.

O governo de Donald Trump parece um castigo eterno para pobres, negros e migrantes, para ficar só nas pessoas e não chegar às coisas.

E o flagelo da pandemia, juntamente com a certeza de grave crise econômica e o risco de ver o atual presidente reeleito, tudo isso fez o homicídio qualificado de Floyd se tornar a definitiva gota d’água para o transbordo do fel.

Paixão não é uma palavra doce, embora os romances e as novelas nos enganem. Paixão é ardor, é vigor, é vontade, é sangue quente nas veias. É a paixão o que move e faz mover. Paixão faz o bem, e faz o mal também.

E os que estão indo às ruas não só de Minneapolis, mas de várias cidades da maior potencia do mundo não podem mais controlar sua paixão. São uma taça derramando raiva e desespero, humilhação e indignação.

Só a paixão explica perder qualquer temor de doença, de polícia, de morte. Só a paixão mantém aglomerações temerárias passando por cima de recomendações sanitárias e ordens autoritárias.

Os negros estadunidenses sabem e sentem que já têm a alma mais ferida pelo Estado do que o corpo poderá estar pelo coronavírus.

No meio da pandemia, não veem nada que possam perder com ela. Até porque não adiantaria mesmo se salvar só pela metade.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.