Marcelo Brice
Reinaldo Assis Pantaleão

Quando criança, almoçávamos quase todo domingo na casa dos avós de Campinas. Às vezes meus irmãos não animavam de ir e ficavam com minha mãe e a avó; mas eu sempre ia, porque era oportunidade de tirar mais uma história do meu pai, de conhecer aquelas ruas, de me deslumbrar com o passado e vê-lo se conectar com o presente. Gostava de saber como as coisas foram, essa era a oportunidade para uma narrativa, para a memória ou para um professor de História.

O ônibus demorava uma eternidade pra nos pegar no ponto no Itatiaia, onde embarcávamos no 174 – Campinas-Campus, que nos deixava – depois de passar pelo Rio Meia Ponte, Balneário, Urias e Fama – na 24 de Outubro, a avenida que recebia de nome o dia do aniversário de Goiânia.

Meu pai vivia sempre com jornais e livros. É o cheiro dele que eu mais tenho afeição e lembrança. Sexta-feira podia ficar acordado por muito tempo esperando meu pai chegar das aulas noturnas, porque eu não teria aula aos sábados.

Logo estaria abrindo a porta, e eu lhe abraçando e sabendo que mataríamos muitos facínoras-lacaios que se escondiam atrás de uma farda verde-oliva e de uma ideologia massacrante

Além de tudo – e das histórias que ele me contava enquanto trocávamos de CDs e situava memórias e aprendizados para o futuro, sempre ligados ao disco que escolhíamos pra ouvir –, no momento em que ele despontava no portão e fazia o barulho com a chave, eu sabia que aquele cheiro de suor frio com jornais, papéis e livros me faria feliz. Logo estaria abrindo a porta, e eu lhe abraçando e sabendo que mataríamos muitos facínoras-lacaios que se escondiam atrás de uma farda verde-oliva e de uma ideologia massacrante.

Certamente minha parcimônia aparente, essa desafobação, tinha a ver com nossas esperas ao ônibus, e ao ver meu pai ler aqueles jornais, os artigos e as polêmicas (quando tinha disso na imprensa), eu também queria matar o tempo naquela coisa que o deixava tão concentrado ao ponto de ter que anunciar quando o ônibus virava na esquina, e eu vibrava. Foi assim também que acabei por ler jornais, já que não podia perguntar toda hora. A regra tácita: parados, a gente lia; andando, eu perguntava e ele contava. Se chegássemos cedo, ainda tinha comércio aberto, porque mesmo aos domingos a 24 de Outubro sempre fervia de vida e atividade.

*****

Sempre perguntador, já jogava pro meu pai ao descer do ônibus, ele que se virasse: “Pai, como era aqui quando cê era mais novo? Tinha esse tanto de loja?”. E ele, de acordo com a verve, escolhia uma abordagem. Campinas era minha outra cidade, minha outra parada, um lugar sagrado que eu conhecia, mas olhava à distância de quem não a teve na sola dos pés.

Ainda é assim hoje. Mesmo morando fora, sinto que tive Goiânia na sola dos pés, o Itatiaia me sinto parte; Campinas, a vejo com o respeito que se tem aos avós e se pede “benção…”.

Havia mistério ali. Atravessávamos a 24 e subíamos a Rua Santa Luzia, nisso eu ia perguntando: “Como você conheceu minha mãe?”; “qual era a loja da família dela?”; “quem trabalhava aqui?”; “mas por que você conviveu com minha mãe no colégio como professores se ela trabalhava no comércio?”; “o movimento hippie chegou aqui?”; “cê torcia pra quem?”; “e a polícia, como era?”; “cê fumava maconha?”; “e meu vô, não era da polícia?, por que ele deixou a ditadura te prender?”; “onde a irmã da minha vó tinha casa de zona?”; “como era sua relação com a minha avó?”; “e com esse monte de irmão?”; “cê já trabalhava?; “como assim, cê queria ser padre?”; “meu tio Tião te ensinava matemática, né? Ele é bom em matemática, mesmo cego faz as contas de cabeça!” (Ainda estava longe de entender a ideia de abstração e que matemática e os números são formas quase pura de raciocínio); “e por que você é bom em história?”… e lá vai!

Nisso era um tal de: “num sei quem morava ali”, “sua tia-avó ganhou uma bolada de um político e comprou este prédio”, “assisti Glauber Rocha nesse cinema, lotado, todo mundo se achando, pronto pra dançar o ieiê depois”, “o Jurandir quis me levar pra Woodstock, mas não fui e ele me trouxe uma calça boca de sino”, “o Stepan Nercessian (o ator global) é goiano, com menos de 17 anos colocamos ele num fusca pra fugir da ditadura, hoje é ator no Rio”, “grêmio estudantil era muito forte nessa época e formamos uma chapa, teve uma disputa entre PCB e AP, e o Euler Ivo era o cabeça de chapa no Pedro Gomes”, “eu tava na chapa, mas teve problema e o Euler ficou muito tempo fora de circulação e eu fui expulso do Pedro Gomes”, “seu avô ficou quase um ano sem receber da polícia, e aí a gente limpava fossa dos vizinhos pra ter renda”…

Mil coisas, mas o turbilhão é mais a forma de exposição aqui, porque tinha uma lógica na apresentação, era por eixos, tinham dias que mais saudosismo familiar, dias que eram mais esporte, dias músicas, outros cultura, literatura, política ou quando tudo se misturava; já passávamos do Mercado de Campinas, mais perto do Setor Coimbra, a parte não nobre.

De repente, parava de perguntação, sem saber, pra deixá-lo escolher uma forma de me contar alguma daquelas coisas; dessa vez seria sobre o Dragão da Campininha. E aí que ele começou com: “Sua vó e eu sempre tivemos uma relação de amor total, mesmo analfabeta, ela me incentivava a virar padre, por achar bonito, talvez o contato direto com Deus, e sabia que era a única forma de eu estudar e ser alguém na vida, fui coroinha, mas hoje sou ateu… se Deus existe está… deixa pra lá…”.

Já estávamos quase em frente à Igreja Nossa Senhora Aparecida e ele: “Você foi batizado aqui”. E eu: “Eu lembro. Acredita, eu lembro do meu batismo? Será que inventei isso? Mas você ateu e minha mãe crente, por que essa de batizar?”. E ele: “Às vezes é melhor não criar problema, e o ritual é bonito, é importante pras pessoas…”. “Vou te contar uma parte dos times, antes da gente chegar…”

*****

–  Menino, varre a cozinha direito, está ficando sujeira e fica feio.

– Certo, mãe, é que os meninos estão passando, e nós vamos lá no campo do Atlético ver o treino.

– Tá… só que faz o serviço direito e a hora que vocês chegarem tem bolo pra todo mundo.

Aí eu caprichava. E chegam os meninos, cada um com uma fruta na mão, e logo o Ademir gritava: “bora, Magrinho” (meu apelido até completar os 20 anos), e jogava uma mexerica pra mim. Isso foi rotina dos 10 aos 15 anos. E, sem exageros, foram momentos inesquecíveis.

foto panta brice 1 scaled - Pai, filho e lembranças (in)contidas: Campininha, futebol e luta
Filho e pai: os professores Marcelo Brice, atleticano, e Reinaldo Pantaleão, torcedor do Galo | Arquivo pessoal

No Estádio Antônio Accioly, eu, torcedor do Goiânia Esporte Clube, o Galo Carijó que dominou o futebol goiano (ainda amador, por uma década), junto com meus amigos, todos torcedores do Atlético, assistindo ao treino do Dragão da Campininha, e engraxava também, mas mais convivia.

Cheguei a treinar no infantil do Atlético, comandado pelo sr. Ataíde, um ser humano admirável. Engraçado é que com 5 anos ouvia o Tião, meu irmão torcedor do Goiânia, vibrar com os gols do Lailson, atacante do Goiânia, e do Foca, artilheiro do futebol goiano, eu tinha os galizés “Feliz” e “Betinha” que batiam nos galos maiores. Junta isso, e pra tomar posição contra a torcida de outros irmãos ao Atlético, não deu outra, e daí nasce minha paixão pelo Galo. Aos sábados ia pra casa na ZBM (região da zona do baixo meretrício, na antiga Campininha) da minha tia engraxar os sapatos das meninas. Eu recebia abraços, beijos e uma gorjeta delas, ali muita coisa aconteceu na antiga cidade de Goiânia, a jovem capital. E lá entravam e saiam autoridades (muitas), policiais (muitos), parentes, e também, boa parte dos jogadores do Atlético.

Ir ao Estádio era uma festa, convivência com os jogadores, e sempre estava por lá o grande torcedor, o senhor Antônio Accioly, dono de um cartório, figura simples, brincalhão, conversava com todos, e sempre pagando picolé pra meninada, com um óculos ray-ban preto, e com roupa branca. Tínhamos por ele um respeito e uma admiração profundas. Do nosso timinho de campo de terra da Rua 211, no Setor Coimbra, despontaram alguns futuros craques e promessas: Ademir, Sancila, Dito, Jair, Petrônio, eles jogaram no juvenil do Atlético, se seguissem a carreira logo seriam titulares. Mas foram crescendo, a idade, e aí vêm estudos, trabalho, e o sonho acabou.

Depois te conto mais…

*****

Chegávamos, tinha a hora do almoço, e depois passávamos a tarde com os avós, os tios e às vezes alguma criança, mas pra mim estava bom demais, era um monte de história, dos requeijões de Trindade ao cachorro mais inteligente do que gente, Duque, que morreu envenenado, e ninguém nunca mencionou quem podia ter sido, o que me deixava mais injuriado. Meu pai lia os artigos de domingo dos jornais que comprávamos na primeira banca de revista da 24 de Outubro e folheava alguma boa edição da coleção “Os Pensadores”.

Nisso, eu conversava, ficava em silêncio, perguntava de futebol, de Copas, dos times que meu tio Tião sempre sabia de cabeça, das seleções, via as galinhas, escutava rádio, café forte, bolo frito… Já era hora de voltar. Eles viviam em outro tempo e isso era maravilhoso. Abraços e até semana que vem, acho que sim, benção, obrigado, boa semana!

*****

Era a volta. E era sobre: “vimos a final da Copa de 1966 na TV desse vizinho aqui, o seu Zé, na rua, os outros jogos a gente ia pra janela, amontoado”, “em 1970 também quase ninguém tinha TV aqui, mas a gente dava um jeito”, “antes de conhecer sua mãe eu dei uma esticada até o norte, hoje Tocantins, pra sumir da ditadura”, “seu avô não gostava das posições revolucionárias, aquele tipo conservador, sua avó sempre comigo, mãe é mãe – ai, a Ferreirinha!…”, “mas, apesar de tudo, ele que me avisou que eu tinha que dar o pé”, “e não vou dizer ainda sobre os policiais que frequentavam a ZBM…”

Eu não entendia tudo daquilo, claro, mas achava tudo verdade, não entendia de poética, mas de um mundo que povoou e povoará sempre as experiências e a criatividade, disso gostava muito. Fomos andando, agora mais rápido, pra não ficar muito escuro.

“Pai, e aí, mas o que foi mais importante pros times nessa época antiga, quando cê tinha mais ou menos a minha idade? Você nasceu em 1950, né… Dá tempo da gente ir pela praça Joaquim Lúcio, pegar o ônibus mais vazio?”

Queria mesmo ver os moleques, todos de DNA atleticano, se aprontando pro skate, golzinho e basquete.

A torcida comandada pelo folclórico Respeita-As-Cores, além do gênio da pintura e das artes Frei Nazareno Confaloni, que subia no alambrado, xingava os árbitros, e quando o Atlético perdia era um Deus nos acuda! E a torcida respeitosamente, “segura o Frei!”, hahaha!

–  Tá bom, vou te contar. Marcante foi o título do Atlético em 1964, um time de primeira, com grandes competidores. Meu irmão Eurico e a minha irmã Cleuza eram só alegria, pois atleticanos fanáticos, já que o Galo não podia ganhar, fiquei alegre também, vibrava pelos amigos de infância que eram torcedores do Dragão. Sempre estava com o grupo do amigo Newton, o nosso futuro “Dom Escuro”, querido por todos nós, grande Escurinho, poeta, músico e atleticano roxo. A torcida comandada pelo folclórico Respeita-As-Cores, além do gênio da pintura e das artes Frei Nazareno Confaloni, que subia no alambrado, xingava os árbitros, e quando o Atlético perdia era um Deus nos acuda! E a torcida respeitosamente, “segura o Frei!”, hahaha!

Foi assim. Momentos de uma infância cultivada nas lembranças in(contidas)… Tempos foram passando, aí envolvimento em movimentos culturais e a luta contra a ditadura. O Atlético revelou um craque, campeão em 64, extraordinário: o grande Luizinho, começou como centroavante, foi deslocado para a ponta direita. Vendido ao Vasco, lá arrebentou, era cotado para convocação à seleção que disputaria a Copa de 66. Infelizmente, quando infernizava a defesa do São Paulo, o perna-de-pau Paraná, maldosamente, quebrou sua perna. Depois de recuperado, voltou e foi campeão pelo Atlético em 70.

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– Pai, o Maskote me ligou e pediu pra gente escrever uma crônica pro livro que ele e o professor Horieste tão organizando sobre o Accioly, o Dragão e a Campininha; disse que te falou e que seria bom ter nós dois, um torcedor do Galo e um do Dragão, pode salpicar política…. Tive uma ideia, vamô fazer uma crônica dialogada de memórias? Aí eu conto no fim que decidi torcer pro Dragão, você, Galo e o Pablo (meu irmão), Goiás; pra me posicionar diferente, porque gostava muito da minha tia Cleuza, ela precisava de um apoio em casa, além do que ela sempre me dava presentes muito bons (rs)! E vou contar que joguei no Accioly e conversei com o Júlio César – o Imperador, quando ele foi campeão da série C em 1990, com a camisa 10”.

– Beleza; mas não esquece de dizer que minha última ação junto com a torcida atleticana foi participar de um protesto na porta do Estádio Olímpico, contra a fusão dos dois dlubes (o Galo e o Dragão, porque um nasceu de dentro do outro) e a venda do Estádio Antônio Accioly, que é inclusive patrimônio da cidade. Manobras de picaretas que usam a arte do futebol para enriquecerem. Assim as lembranças vão ficando com muitas alegrias e saudades. A luta continua!

– Ah, e vai corrigindo o texto e editando, pois têm erros, e acrescenta algo machadiano. Os erros de digitação, tudo culpa do gato que não quer nem saber, acho que o danado não torce nem pro Atlético nem pro Galo…

Marcelo Brice é professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e vice-diretor do Campus de Porto Nacional.
Reinaldo Assis Pantaleão é professor de História, líder comunitário e ativista político.


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