O mundo é um moinho, mas para muitos são moinhos intermináveis, monstros, dragões e comunistas que demandam corromper a donzela e comer as criancinhas

Everaldo Leite*

Um senhor, certa feita, cansado de batalhas invencíveis, exausto por defender diariamente o larjan aplicando pequenos golpes na praça, começou a odiar o seu país e seu povo.

Apesar do seu pouco estudo formal, obteve grande êxito no autodidatismo e se enfastiou com os jornais – alguns para os quais trabalhou –, se aborreceu com a educação, que nunca chegou a ser aquilo que ele acreditava que merecia, com a cultura, pobre cultura, com os políticos, os perrengues financeiros, enfim, com o lugar onde nasceu, cresceu, reproduziu freneticamente e sofreu. Dali se mudou, para nunca mais voltar.

Passaram-se muitos anos e descobriu que sua ausência naquele país, por mais que ele o odiasse, deveria ser preenchida por algo, aliás, por ele mesmo. Mas desta vez ele eclodiria como um fantasma, um fantasma vingativo, acessado apenas pelos meios psicográficos da internet, por seus seguidores e exegetas.

Em pouco tempo dominou as cabeças ocas como um vírus da mente (ou vírus dos dementes?). Subiu finalmente ao palco, para ser aplaudido de pé por toda a bizarrice que pudesse ter trazido à luz e que tivesse fundamentos em obscuridades que ele mesmo chama de filosofia.

O mundo é um moinho, mas para muitos são moinhos intermináveis, monstros, dragões e comunistas que demandam corromper a donzela e comer as criancinhas. Esbravejantes xingamentos iam encantando os novos heróis da pátria, os seguidores do espírito de porco do monitor.

Palavras de ordem os levaram às ruas, saturando logradouros, inflando patos amarelos, suando em camisetas amarelas, desfilando pixulecos, suplicando ao exército etc. Era preciso derrubar os corruptos, como Davi derrubou Golias, limpar o país, como Deus limpou Sodoma, e proclamar um messias, como a multidão proclamou Brian. Quase deu certo, quase deu certo.

A montanha gemeu, gemeu e pariu um rato, que riu

Das sombras pode surgir qualquer coisa, desde figuras mitológicas até figuras nefastas. Esta última foi quem saiu do buraco que se abriu no chão. A montanha gemeu, gemeu e pariu um rato, que riu. O rato e seu séquito de ratos, seus muitos filhotes de rato, sua mediocridade de rato, sua fome de rato, seus preconceitos e instintos primitivos de roedor.

A massa de cérebro moído viu os sebosos alçando-se aos patamares, trilhando o caminho de rato e quiseram segui-los para a terra prometida. Sob as bênçãos do fantasma do monitor aquele roedor vociferou, fascinou, cativou e atraiu todos que continham em si seus próprios ratos, suas baratas, lacraias e lesmas que cagam gomas.

O estuporador da ilusão, então, roeu a roupa do rei do morro, roeu o ferro, roeu a rosa e o riso da moça, sobreviveu ao veneno, roeu o debate, se reinventou. “Foi eleito o meu ratão”, o fantasma do monitor satirizou em posse da flauta mágica. Sabe que rato que chega ao poder roendo, só se mantém no poder roendo. Não decepcionaria o guru flautista. Enquanto o rato subia a rampa, a verdade descia a ladeira.

E quanto mais o país ruía, mais o fantasma escarnecia. O bom senso escorregou na goma das lesmas e passou a valer a censura das baratas interconectadas, as manifestações das lacraias “a favor”, as fake news dos carrapatos, e foi desta forma que escorpiões atravessaram lagoas sobre sapos e sapos morreram cozidos em fundo de panelas.

Uma coisa é certa, onde ratos governam viceja a peste. A peste estrangeira foi assim acolhida, oficial e libidinosamente, como mulher bonita na abadia. Ela se espalha por onde quiser, atormentando, torturando, afligindo, gemendo, acabrunhando e esticando a canela dos azarados. Essa peste foi abraçada pelo patrão, que a distribui agora entre os pobres, essa “pestezinha” que nos isola em nossas solidões ou nos embebe os pulmões.

Todo sanitarista sabe, sob o mar de lama multiplicam-se insaciáveis vetores. Enquanto isso, sob o pio da flauta do flautista mágico, um ratão fundeado em seu palácio faz o chicote estalar e se banha no sangue amalgamado das vítimas. A música não pode parar, legiões de homens negros, pardos e quase brancos, horrendos a dançar. Ânsia e mágoa vãs, “vai trabalhar vagabundo!”. E ri-se a orquestra irônica estridente, enquanto o rato ri do roto.

Everaldo Leite é economista.
* Texto publicado originalmente no Blog do Everaldo Leite.


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