Não adianta pôr a culpa no “politicamente correto” ou dizer que é “mimimi”.

A situação constrangedora por que o Goiás Esporte Clube passa neste meio de semana em nivel nacional é fruto de um deslize de marketing inconcebível nos dias de hoje.

Para quem não está a par (acho que bem poucos dos que lerão esta publicação), o clube lançou no Twitter uma espécie de teaser do lançamento do novo uniforme. Um vídeo curto no qual duas modelos aparecem sensualizando com as camisas branca e verde, com algo como um funk tocando ao fundo.

O vídeo é curto, mas o estrago institucional foi grande. Jornalistas da área esportiva, humoristas e outras celebridades repudiaram e desqualificaram a peça publicitária. A polêmica tomou lugar até no Encontros, programa global da jornalista Fátima Bernardes.

Não vou escrever sobre o tema em si, porque acho que quem pode falar com propriedade são as mulheres. E o que mais vi em grupos de conversação e redes sociais foram homens criticando o que chamam de “hipocrisia”. A velha hegemonia masculina pela qual nos acostumamos desde pequeno a enxergar o mundo sem qualquer empatia.

Nessas navegações encontrei no Facebook o texto sucinto e direto da colega Raphaela Ferro, ex-repórter da Editoria de Esporte do jornal O Popular e hoje dedicada às salas de aula da faculdade.

Principalmente aos portadores de cromossomos XY, vale a pena ler e tentar ver o caso por uma perspectiva de quem vive a questão na pele, justamente por frequentar estádios como torcedora e profissional.


por Raphaela Ferro*

Para quem não entende o problema de o Goiás divulgar um vídeo sensualizando mulheres, há pouco a dizer. Mas, tentemos. Vá a um estádio. Em quais espaços ali dentro você vê mulheres? Já perguntou a alguma delas as situações de violência que vivenciou ali?

Talvez muitas mulheres não percebam o assédio, o abuso, a violência quando estão em ambientes esportivos. Mas é tudo muito simbólico. Trabalhar a comunicação do clube com a sexualização feminina reforça esse ambiente hostil e o normaliza, respaldando as atitudes machistas tão comuns nesses locais.

Eu quero ter o direito de trabalhar e de me divertir com o futebol. Algo que não é possível se as entidades envolvidas nessa prática não entendem que a violência simbólica me limita, me amedronta, para não dizer que me impede.

A sexualização de mulheres na divulgação da camisa de um clube de futebol tem apenas uma função discursiva: a de definir qual é o lugar que nós, mulheres, devemos ocupar nesse contexto. Esse lugar não nos cabe e isso é algo que, hoje, times da elite do futebol nacional deveriam saber.

Podemos, sim, e vamos ocupar todos os espaços. Que mulheres sejam musas, se quiserem (e, aqui, vou me abster de toda a discussão possível a respeito desse querer), mas que sejam também torcedoras, atletas, treinadoras, repórteres, narradoras, médicas, fisioterapeutas… E que paremos de sofrer assédio e de sermos vítimas de violência (seja física ou simbólica) por isso.

* Raphaela Ferro é jornalista e professora universitária do curso de Jornalismo da UFG.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.