O clamor é para que o técnico da Seleção continue. Mas alguém com tanta fé em seus escolhidos seria uma boa para uma competição como a Copa do Mundo?

Quem reassiste à final Brasil e Alemanha de 2002, surpreende-se com a atuação de Kléberson. A surpresa não diminui a atuação dos destaques Ronaldo e Rivaldo, no entanto nos lembra que aquela final não se resume aos dois gols de Ronaldo. São 90 minutos em que o meio-campista correu como poucos, preenchendo espaços na frente e na defesa da seleção.  A história de Kléberson na Copa é interessante para observarmos a trajetória do time brasileiro na Copa de 2018.

A comparação mais fácil de fazer seria a Fernandinho. Os dois, com funções bem próximas em campo, entraram em uma emergência e não como primeira opção em um jogo contra a Bélgica. Em 2002, Kléberson venceu e se destacou no confronto com a seleção europeia. Na Rússia, Fernandinho fez um gol contra, atuou mal e a seleção voltou para casa.  Como não comparar?

kleberson e klose - O que o reserva Kléberson deveria ter ensinado ao professor Tite
Kléberson controla a bola diante de Miroslav Klose, na final de 2002 | Getty Images

Só que a situação de Kléberson é mais reveladora em outro sentido: a capacidade de um treinador se adaptar em um torneio de curtíssima duração e com desafios de grande monta. Kléberson atuou bem, ficou no time titular e pôde ser peça-chave na final. Essa é a ligação mais importante com a atuação de Fernandinho nas quartas-de-final. É ela que nos permite questionar alguns pontos que serão importantes para o futuro.

Afinal, alguns Klébersons atravessaram o caminho dessa seleção. A diferença é que não se firmaram. Se olharmos a escalação do Brasil contra a Bélgica, havia quatro dúvidas. Não só pelas atuações dos titulares, mas pela atuação de seus substitutos. Firmino pareceu melhor do que Gabriel Jesus; Douglas Costa melhor do que William; Filipe Luís garantia muito mais solidez que Marcelo. E Paulinho? Paulinho não tinha um substituto imediato, mas suas atuações expuseram (e o gol contra a Sérvia escondeu) o elo mais fraco da seleção: o “volante que aparece de surpresa na área” e era só isso.

Paulinho cumpriu uma função nova no futebol: o falso volante. Se tornou uma espécie de atacante disfarçado. Não desarma, não volta para dar cobertura, não constrói no meio de campo. Fica aguardando por ali para, então, aparecer de surpresa na área na hora do ataque. Se não teve um substituto de mesma função, era o que mais precisava.

E os Klébersons que não se firmaram têm tudo a ver com o Kléberson que fracassou: Fernandinho. Porque, se atuou mal contra a Bélgica, não foi seu desempenho que determinou o andamento do time. Pelo contrário, foram os diversos erros de escalação que amplificaram o que poderia ser só uma atuação ruim.

Nesse momento, muitos dirão que isso é exagerar a análise. A seleção fez um jogo melhor do que a Bélgica e o resultado foi uma contingência. Realmente, o resultado poderia ser muito diferente. Para o bem ou para o mal. Aqueles que lamentam o erro de finalização de Renato Augusto, esquecem-se de uma chance parecida por Fellaini no começo do jogo.  Alguns dizem que uns cinco centímetros mais para o lado, a bola de Neymar entraria. Esses centímetros fizeram toda diferença no chute de Hazard que passou raspando a trave. Qualquer uma dessas (ou outras chances) poderiam mudar o resultado para um ou para o outro. Mas, se o resultado foi contingente, o jogo em si já era previsto.

A Bélgica explorou os mesmos defeitos apresentados no jogo contra o México, com um meio de campo em que um volante (Casemiro) tinha de dar conta de dar toda cobertura para a defesa. Casemiro jogou muito bem naquela partida, só que nem sua atuação impediu que os mexicanos se encontrassem no mano a mano algumas vezes contra nossa zaga. A pouca capacidade técnica de seus atacantes interferiu mais do que qualquer coisa. De Bruyne, Hazard e Lukaku se encontraram na mesma situação e tiraram maior proveito.

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Roberto Firmino, ao entrar contra a Costa Rica, com Filipe Luís ao fundo: duas opções que poderiam ter sido escaladas contra a Bélgica | Divulgação

A sorte poderia ter nos ajudado. Afinal, contra nós fizeram só um gol em jogada com bola rolando. E poderia ser isso. Só que se Tite não poderia ter feito nada para impedir o primeiro gol. O segundo gol é fruto direto de suas convicções. A patetice de Marcelo ao se defender contra De Bruyne mostra a falta do “Kléberson” Filipe Luís. Um técnico não pode confundir “o melhor lateral que apoia o ataque no mundo” com “o melhor lateral do mundo”. Esse lateral que pouco sabe defender deixou a faixa direita do campo aberta para livre usufruto dos belgas e sem cobertura de Coutinho ou Paulinho. E é bom ressaltar que Miranda se destacou no um a um contra Lukaku – em times bem arrumados, zagueiros não se destacam por vencer embates dessa maneira repetidas vezes em um jogo.

Tite, como bom técnico que é, poderia prever que isso aconteceria. Só que sua fidelidade férrea aos 11 iniciais combinada com uma dificuldade em tomar decisões rápidas fizeram o Brasil sofrer. Toda a imprensa esportiva reconhecia a má Copa de Paulinho, mas, em um salto de fé impressionante, mais lamentaram o fato de ter sido o autor do gol contra a Sérvia do que pediram sua saída. “Poderia ter saído do time se não tivesse feito o gol”. Um combinação de fatalismo frente ao comportamento do técnico brasileiro com uma fé de que tudo daria certo no final. Não deu.

A imprensa, de uma forma bastante diversa de seu comportamento anterior, se conformou: “Esse jogador poderia ser titular, mas sabemos como é o Tite. Não vai mudar”. Isso não vinha em tom de crítica, mas como um díscipulo que talvez não entenda os desígnios do mestre. Parece que o discurso de autoajuda do selecionador penetrou mais fundo do que parecia. Combinado com a ótima atuação nas Eliminatórias, decidiu-se que Tite sabia o que fazia.

O problema é que Copa não são Eliminatórias, menos pelo nível técnico dos adversários do que pela configuração do torneio. Tite revelou que não é copeiro. Pelo menos, não “copeiro do mundo”. Copas exigem decisões difíceis e rápidas. Não permitem confiar que tudo se resolverá no próximo jogo. Que quem atuou mal em um irá dar a volta por cima em outro. É preciso aceitar que o Kléberson entrou melhor. Que Raí tem mais nome e bola, só que Mazinho dá mais equilíbrio.

O espanhol Roberto Martínez entendeu isso e mudou radicalmente o selecionado belga. Poderia ter dado errado. O Brasil poderia ter ganho com o time que foi a campo, poderia ter perdido com um time alterado. O que não poderia ter acontecido é um técnico que, tendo visto os defeitos ocorridos contra o México, não fazer nada para consertá-los sabendo o que iria enfrentar. Tudo pela fé em seus 11 escolhidos.

É por isso que vale menos a contingência do resultado do que o que isso impacta o futuro. O clamor é para que Tite continue como técnico da Seleção. Faria um ciclo de Copa completo, ao invés da metade que teve. Só que, para um técnico que tanta fé coloca em seus escolhidos, seria uma boa coisa dar mais tempo ainda para ele construir esse tipo de relação? Se dois anos construíram uma fidelidade absurda entre ele e seus jogadores preferidos, o que aconteceria em quatro com um novo ciclo? Certamente se daria melhor ainda nas Eliminatórias, ganharia torneios menores, mas será que chegaria na Copa do Mundo com disposição para alterar o time quando as coisas não dessem certo? Parece pouco provável.

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