Declaração ao vivo de Casagrande sobre batalha contra a dependência química marcou a transmissão da final da Copa do Mundo pela emissora

Durante toda a Copa do Mundo, vez ou outra, apareciam nas minhas mensagens de WhatsApp ou na timeline do Twitter alguns memes e vídeos fazendo troça do principal trio esportivo da Rede Globo.

tres patetas 479x300 - Para dezenas de milhões de pessoas, o momento mais humano da Rede Globo
Meme aludindo à série “Os Três Patetas” faz sátira maldosa com Casagrande, Galvão Bueno e Ronaldo | Divulgação

Em épocas assim, sempre foram bastante comuns imagens com Galvão Bueno, Ronaldo e Casagrande. Uma clássica é o meme em que são representados como os tipos da comédia em série Os Três Patetas. Galvão apareceu em, digamos, ligações estreitas com Neymar; Casagrande e Ronaldo foram alvos de vídeos engraçadinhos que faziam alusão à doença do primeiro – a dependência química – e à obesidade do segundo.

São piadas muitas vezes menos criativas do que de mau gosto, por vezes cruéis mesmo. Mas se entende, de certa forma: por ser detentora dos direitos de transmissão e por sua hegemonia e seu poderio impressionantes, a emissora acaba sofrendo uma natural superexposição. E muitas críticas – parte delas, merecidas. O mesmo ocorre com seus profissionais mais destacados.

Considero Galvão Bueno um sujeito chato em seu ofício. É um torcedor-narrador, o que vejo como desnecessário e até nocivo à informação. Por isso (embora não só por isso), não assisto aos jogos transmitidos pela Globo. Mas há o oposto – quem goste e veja por ele. E esse tipo deve ser maioria, já que não é por acaso ele estar há tanto tempo na cadeira principal do jornalismo esportivo.

Ronaldo também frequenta o posto de comentarista há várias Copas. É outro motivo para eu não assistir ao canal, ainda mais tendo nas emissoras de TV por assinatura outros mais competentes na função. Mas muita gente gruda na telinha por ele estar ali e ser uma lenda do futebol. Faz o papel que Pelé exerceu em outros tempos.

E temos também Casagrande. Um ex-jogador que faz bem seu trabalho como comentarista: não é condescendente com os atletas brasileiros nem demasiado ufanista. Fala algumas obviedades durante as transmissões, mas tem opinião firme. Não chega a ser um motivo para eu dar audiência à rede, mas também não a faria perdê-la.

O fato é que, por estar sem acompanhar a emissora durante praticamente toda a Copa do Mundo, perdi aquele que talvez tenha sido o momento mais humano da Rede Globo em muito tempo: o breve depoimento de Casagrande em relação a sua vitória sobre a dependência química.

“Essa é a Copa mais importante da minha vida. Eu tive uma proposta quando vim para cá, quando saí do Brasil, que era chegar pela primeira vez numa Copa do Mundo sóbrio, permanecer sóbrio e voltar para a minha casa sóbrio. Então estou muito feliz…”

A declaração do comentarista veio após o fim da partida final, em meio ao clima de despedida da Copa do Mundo. Enquanto ao vivo mostravam cenas da festa da torcida em Paris, Casagrande fez o desabafo, chorou e levou Galvão Bueno à comoção:

— Assim você chora e me faz chorar também… (pausa) Parabéns, Casa, que Deus te abençoe… (pausa) Vamo lá, ainda tem coisa para acontecer!

Embora não apareçam as imagens dos personagens, veja (ou reveja) o momento da declaração:

Há sempre muita coisa armada na TV, que ninguém se engane em relação a isso. Muitas lágrimas de crocodilo, comoção por conveniência, beijos e abraços de araque. Mas a espontaneidade sempre tem espaço, principalmente quando vem de certas pessoas. Casagrande é uma delas.

O depoimento, transmitido para dezenas de milhões de pessoas, chegou ao ouvido de muitos que enfrentam a mesma batalha que o ex-artilheiro do Corinthians e da seleção brasileira. Entenda: a luta contra as drogas, para quem se tornou dependente, é para o resto da vida. Cada dia sóbrio é uma vitória.

Quando uma celebridade se despe de seu suposto pedestal ao ponto de falar algo tão íntimo em rede nacional, sabendo ainda da repercussão que haverá nas redes sociais, vê-se uma atitude de muito desprendimento e coragem. Mais do que isso, é um ato de solidariedade com todos os que enfrentam o mesmo drama. É como se ele dissesse a cada dependente “você não tá sozinho, cara, vamo junto nisso!“.

Surpreendido com a fala do colega e amigo, Galvão também embarca no tom emocional. E tem motivos para isso: o próprio Casagrande já deixou claro que o narrador foi fundamental em seu processo de recuperação, inclusive profissionalmente, “comprando brigas” com a direção da Globo para que ele prosseguisse na equipe.

Por tudo isso, foi um momento único, de uma humanidade que merece ser registrada.  Naquele dia, naquela hora, o Casão conseguiu tirar muitos que vivem o mesmo drama de um possível desânimo com essa luta para lhes dar um novo alento.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.