Texto 10 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Márcio Antônio Cruzeiro

Nos últimos anos, o termo mito tornou-se corriqueiro no Brasil, sendo possível ouvi-lo em qualquer espaço, geográfico ou de classe, tamanho o grau de viralização social, que o elevou à condição de protagonista e instrumento na construção de uma personalidade: Jair Bolsonaro.

Mas, afinal, por que, como e para que Bolsonaro foi moldado para servir ao conceito de “Mito”?

Do ponto de vista histórico e filosófico, o mito se desdobra em três grandes campos conceituais.

O primeiro remete à Antiguidade Clássica, quando era considerado “uma forma atenuada de intelectualidade” e situado, como diz Platão, em uma “zona que está além do restrito círculo do pensamento racional e na qual não é lícito aventurar-se senão com suposições verossímeis”.

platão 300x171 - O mito e a ilusão do "Mito": o despresidente Bolsonaro não é miragem – é fetiche
Platão usava o conceito de “mito” como forma de contornar os limites da linguagem

O mito foi utilizado pelo discípulo de Sócrates, em seus diálogos, como forma de contornar os limites da linguagem, que não podia dar conta da amplitude do pensamento. Aristóteles, por sua vez, faz a mesma distinção entre racionalidade e mito, tomando-o como oposto à verdade, embora admita que pode ter o caráter de uma verdade imperfeita.

Nesse sentido de verdade imperfeita, o que é desvelado pelo mito não pode ser demonstrável pelo intelecto, apenas encontrar guarida em um recôndito moral ou religioso.

A segunda concepção de mito remonta ao século 17 e também o insere em um plano diferente da racionalidade, mas agora com igual validade ao pensamento racional, sem subalternizá-lo a este. O mito, portanto, não seria uma “verdade intelectual degenerada”, mas uma forma “fantástica ou poética” de narrativa.

No século 20, a filosofia e a sociologia definiram de forma exemplar esse segundo caráter do mito, cujo substrato real não é de pensamento, mas de sentimento. Nesse aspecto, alguns pensadores modernos consideram o pensamento mítico como pré-lógico, um movimento que não se submete à lei da contradição e a outras leis do pensamento lógico.

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Por fim, uma terceira concepção de mito sustenta que ele transcende o caráter narrativo para se tornar uma forma de legitimação da tradição e do passado. Assume, portanto, uma função dentro da sociedade e não se define apenas em contraponto ao pensamento racional e lógico.

A partir dessa última proposição, o mito pode ir além de “narrativas fabulosas, históricas ou pseudo-históricas”, moldando-se e unindo-se a um “herói ou a um condutor”. Seja qualquer dessas construções epistêmicas, o mito se apresenta como algo peculiar e significativo, grandioso, profundo e, para nosso desespero, duradouro.

Até onde permitirão ir o Bolsonaro mitológico?

Quando (expressiva) parte da sociedade celebra Jair Bolsonaro como “Mito”, é possível identificar, com muita clareza, elementos das três concepções acima mencionadas. Essa percepção é importante para compreender que saudá-lo como “Mito” não é um movimento anódino de pensamento, de ingenuidade sociocultural, mas de expressão de um lastro histórico e atávico com conceitos que, embora (para a maioria) não sejam traduzidos pela reflexão intelectiva, são sobras em algum recôndito do espírito humano e, portanto, têm validade e legitimidade política.

bolsomito 4 - O mito e a ilusão do "Mito": o despresidente Bolsonaro não é miragem – é fetiche
Bolsonaro no dia da facada, em Juiz de Fora (MG), durante a campanha: até onde os próprios eleitores do”Mito” permitirão que ele vá?

Nesse sentido, é fundamental conhecer em que profundidade a ideia de um Bolsonaro mitológico povoa o imaginário social. Essa avaliação é capaz de produzir respostas para outra questão primordial: até onde a parcela da população que o elevou à condição de “Mito” permitirá que ele vá?

É preciso assumir o desafio de dimensionar o “Mito” Bolsonaro, não tratando-o apenas como uma impostura política, plasmada a partir de sua completa estupidez, da sua insignificância histórica, de sua absoluta falta ética e de seu total desprezo pelo élan civilizacional, que mantém a comunidade humana a perseverar, malgrado todos os percalços e mazelas autoinfligidos.

É necessário admitir que a origem do “Mito” Bolsonaro não está relacionada apenas ao alarde espontâneo que ganhou eco nas redes sociais e nas ruas, mas guarda relação com o processo sócio-histórico, que terminou por gerar uma reação não prevista, ou se prevista, “não desejada”.

O “Mito” Bolsonaro tem uma inegável complexidade, pois é, ao mesmo tempo “uma forma atenuada de intelectualidade”, o “oposto à verdade” e uma “verdade imperfeita” que se afirma por meio de pendores morais ou religiosos. E, por outro lado, não é simplesmente “uma verdade intelectual degenerada”, mas um influxo radical de sentimento, uma expressão do “fantástico e do poético (no sentido de apelo emotivo)”, uma construção pré-lógica. Por fim, pode ser definido como a consubstanciação de uma função social, a do “herói” ou do “condutor”.

O nosso “Mito” é, portanto, uma monstruosidade, que reúne toda a amplitude conceitual e histórica do termo, malgrado as contradições de si mesmo, que o desvelam, no plano real, como um ser apequenado por natureza.

“Dissecar as entranhas do “Mito” Bolsonaro é o único modo de combatê-lo, já que mesmo diante de seus reiterados erros crassos, de sua inépcia congênita (passada com sucesso de pai para filho) e de desvios éticos irrefutáveis, ele permanece celebrado, em adoração.”

Contudo, e estranhamente, ao assumir tais contradições, parece fortalecer-se, distanciando-se cada vez mais do julgamento racional daqueles que o elevaram (e continuam a elevá-lo) ao panteão mitológico do Planalto. À medida que exercita seus paradoxos, Bolsonaro parece não sofrer abalos críticos, pois já não importa qual a narrativa enreda o “Mito”. Espera-se tão somente que ele persevere.

Dissecar as entranhas do “Mito” Bolsonaro é o único modo de combatê-lo, já que mesmo diante de seus reiterados erros crassos, de sua inépcia congênita (passada com sucesso de pai para filho) e de desvios éticos irrefutáveis, ele permanece celebrado, em adoração.

Embora tenha relegado a institucionalidade governamental e a condução do País a um permanente evento primitivo e caótico, que consegue manter graças a uma equipe incompetente e movida por posturas ideológicas anacrônicas e sectárias, seu prestígio não se abalou o suficiente para que se proponha, com a urgência que o problema merece, sua defenestração definitiva.

Parece não ser suficiente, para compreender o “Mito” Bolsonaro, enfrentar a questão apenas com o lavajatismo, que encarcerou Lula e o excluiu do processo eleitoral, e o golpismo que apeou Dilma Rousseff da Presidência. Talvez seja apenas uma “verossimilhança com a verdade”, uma suposição “pré-lógica”, atribuir ao repúdio à corrupção essa mitologização. De outra parte, me parece também que a intencionalidade do mercado, que o considerou um instrumento ideal para combater um Estado de bem-estar social mínimo, não é suficiente para explicar o “Mito” .

Dar conta das melhores ou das mais legítimas respostas ao por que, como e para que Jair Bolsonaro constituiu-se um “Mito” não está na superfície ou na aparência do real, mas em suas vísceras, nas suas camadas fósseis, onde se conforma a consciência da sociedade – uma consciência que se debate permanentemente em perturbadoras relações de poder, em um brutal [e cinicamente negado] choque de classes –, que vive em risco constante de esgarçamento do tecido coletivo, cada vez mais tênue e delicado.

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Ao fim e ao cabo, o “Mito” Jair Bolsonaro não passa de uma ilusão, mas não como uma miragem ou um truque de mágica barato, e sim como um fetiche, algo que foi colocado em substituição a uma coisa que nos foi tirada. É preciso lembrar que o “Mito” que outorgam ao despresidente é uma corruptela do apelido que recebeu no serviço militar, por suas frágeis pernas brancas, e nada tem de um poder subterrâneo e grandioso (assim como nada tem ele de Messias).

Desconstruir essa ilusão requer a máxima consciência do que nos foi tirado e como podemos recuperar o objeto/sujeito perdido, pois é certo (e lógico) e qualquer fagulha de pensamento racional é capaz de concluir: o “Mito” Bolsonaro não serve para nos devolver o Graal perdido.


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Márcio Antônio Cruzeiro
escritor e bacharel em História pela Universidade Federal de Goiás