por Marcos Cipriano*

O presidente Jair Bolsonaro tem todo o direito de vociferar, dia após dia, sua cantilena conservadora, mas daí para reescrever a história há uma distância sideral.

Esta semana, Bolsonaro desqualificou a si próprio, como presidente de um regime democrático, chamando o general paraguaio Alfredo Stroessner de “estadista”.

Ele mandou no Paraguai de 1954 a 1989 e pode ter sido tudo: larápio, pedófilo, torturador, menos estadista.

Basta dizer que a própria justiça paraguaia, em 2003, embargou os bens de Stroessner (na época exilado no Brasil, onde morreu em 2006) por corrupção e graves violações aos direitos humanos.

Além de governar com mão de ferro, o ditador chegou a comandar sessões de tortura e eliminação sumária de adversários do regime de exceção que implantou no país. Não escondia seu sadismo quando o assunto era torturar.

Este não é o primeiro vexame histórico de Bolsonaro, que chegou a elogiar o coronel Brilhante Ustra, figura conhecida nos porões da ditadura brasileira.

stroessner 600x300 - O elogio de Jair ao pedófilo Stroessner: o perigo de se reescrever a história
Alfredo Stroessner, ditador do Paraguai por décadas e acusado de tortura e pedofilia, foi elogiado por Bolsonaro | AP

Stroessner chegou a amealhar uma fortuna pessoal superior a 500 milhões de dólares, generosamente depositados em contas secretas na Suíça e em diversos paraísos fiscais. Com a mesma maestria que torturava, pilhava o humilde povo paraguaio. Não era, portanto, apenas um ditador sanguinário, mas um ladrão do colarinho branco.

A ditadura patrocinada pelo general paraguaio foi uma das mais cruéis da história, com violações sistemáticas dos direitos humanos – prisões, tortura física e psicológica, assassinatos, banimento e exílios forçados, crimes sexuais, censura à imprensa e toda ordem de desrespeito aos direitos humanos fundamentais.

Pedófilo declarado, Stroessner ordenou a criação de um harém de meninas, por determinação pessoal o “plantel” deveria ser composto por garotas entre 10 e 15 anos de idade.

As meninas eram “colhidas” na zona rural por capangas do regime, a mando do ditador.

Na vida cotidiana dos paraguaios, o pedófilo estava por todos os lados. Nas repartições públicas as pessoas deparavam com retratos do general. As fotografias também estavam presentes em diversas residências privadas.

Sob o seu comando, as forças armadas paraguaias eram uma espécie de quartel-general do tráfico de drogas. Na época, o país se consolidou como um hub latino do contrabando. As eleições eram uma farsa para manter o ditador no poder, a exemplo do que ocorre hoje na Venezuela com Nicolás Maduro. Segundo a Comissão Verdade e Justiça, pelo menos 18.772 pessoas foram vítimas de torturas físicas, sexuais e psicológicas durante o regime. Em boa parte dos assassinatos, assistidos pessoalmente por Stroessner, as pessoas tinham o pescoço cortado com serra elétrica.

Ao elogiar uma figura desse jaez, Bolsonaro fragiliza a democracia brasileira. E são por essas e outras boçalidades que chegamos ao ponto de um ministro de Estado determinar que crianças cantem o hino nacional e sejam filmadas.

Não demora muito serem “adestradas” para dizer aos quatro cantos que Stroessner foi um grande ser iluminado.

* Marcos Cipriano é jornalista.

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