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Lá pelos meus 14 ou 15 anos, os irmãos Carlos Eduardo e Sérgio me chamaram pra fazer
teste no Vila Nova. O clube faria uma peneira num sábado à tarde qualquer e não pensei duas vezes: peguei uma chuteira emprestada – só tinha Kichute – e me preparei pra encarar o desafio no clube do coração.

Morávamos no Conjunto Caiçara, aquele setorzinho simpático atrás do Laboratório Halex Istar. Era uma época em que pipocavam bons jogadores no setor e que qualquer pelada virava uma atração à parte. O Caiçara Futebol Clube chegou a ganhar um Interbairros num jogo épico – e violento – contra o Vila Pedroso.

Com mais uns 8 ou 9 garotos lá do bairro, cheguei ao Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga, o OBA, onde seria realizado o teste.
Naquela época, era o único patrimônio do clube e onde todo mundo treinava, da peneira ao
profissional. Começa o aquecimento e o treinador – acho que se chamava Rui, não me lembro bem – começa a mostrar seu cartão de boas-vindas.

— Vai, caralho, que moleza da porra.
— Afasta aí, porra, vocês são viados?
— Vai tomar no cu, não tenho tempo pra perder com vocês…

Eu estava louco para aquele inferno terminar e a bola começar a rolar. Fazer exercícios nunca foi meu forte, confesso. Se tivesse virado jogador profissional, seria uma espécie de Paulo Henrique Ganso: correr e marcar, nem fodendo.

Terminado aquele tormento, o treinador começou a separar os times aleatoriamente. Só
perguntou quem era canhoto e ia mandando para uma posição qualquer no campo. Fui parar na lateral-esquerda.

Parênteses: no time do bairro sempre joguei de ponta esquerda – sim, sou da época que
existia ponta esquerda – e, como conseguia me sair razoavelmente bem com a perna direita, era deslocado pra lá quando Maurício aparecia pra jogar – esse cara jogava muito, chegou a treinar no Palmeiras por um tempo.

Voltando ao OBA, o treino começou a rolar e o time adversário era tão ruim que a pelota nem chegava direito na nossa defesa. Então comecei a abandonar minha posição para poder tocar na bola de vez em quando. Problema era que, toda vez que eu fazia isso, o treinador gritava na minha orelha. Aquilo me encheu tanto o saco que cheguei nele e pedi para trocar de posição.

— Quer ir pra ponta?
— Sim.
— É mesmo? Então vai pra zaga no lugar daquele negão lá.

Filho de uma p%$#. Eu não tinha cacoete algum pra ser zagueiro. Não sabia marcar e odiava sair correndo atrás de atacante. Com 14 anos, a única coisa que eu queria era driblar, fazer gol e chegar em casa com a medalha de artilheiro no peito. “Hoje é o primeiro e último dia que venho nessa bosta”, pensei.

Depois de me deixar de castigo lá por um tempo, ele me chama e me posiciona no meio de
campo. Ufa, que alívio. Mal tinha acabado de me posicionar e vi o zagueiro do outro time
receber a bola. E esse zagueiro era o Luiz Carlos, da nossa turma do setor. Sabia que ele era bem limitado e previsível.

Ele olhou para o zagueiro que estava do outro lado do campo e abaixou a cabeça pra tocar a bola. Então, nesse momento, saí correndo na certeza do que ele faria. E não deu outra.
Interceptei o passe, corri com a bola (pareceu uma eternidade pra chegar na área), driblei o goleiro e, quando fui chutar para o gol vazio, alguém me derrubou dentro da área.

— Bate o pênalti você, ordenou o treinador.

Ué, já que o senhor insiste! Olhei para aquele gol gigante, o goleiro minúsculo e pensei “agora eu se consagro”, vou meter lá no ângulo pra impressionar o professô.

Chutei.

Pra fora.

Minha nossa, como consegui errar?

— Bate de novo, ordenou o treinador.

Olhei para o gol de novo e ele já não parecia tão grande. E o goleiro ficou gigante. Como me achava craque e faltava humildade na minha pessoa, já pensei: vou meter no outro ângulo pra mostrar que foi um acidente de percurso.

Chutei.

Pra fora de novo.

Minha nossa, que vergonha. Onde enfio minha cabeça? Serei reprovado com louvor. Minha
carreira promissora e cheia de títulos acabava ali, naquele instante.

Final do teste. O treinador começa a falar o nome dos aprovados. Para minha surpresa, e de todo mundo que estava lá, passei. O porquê? Não tenho a menor ideia.

Só sei que fico puto sempre que vou ao OBA e olho para aquele maldito gol do lado da sede.

P.S. Carlos Eduardo passou no teste, seguiu por todas as categorias de base e acabou virando ídolo quando chegou ao profissional. Era conhecido pelo apelido: Tim. Sérgio era irmão do Tim e morreu atropelado pouco tempo depois. Perdi um grande amigo
e o Vila Nova, um grande zagueiro.

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VILANOVADAS

 Essa semana rolou uma conversa sobre a venda do OBA e a construção de um estádio na área do CT do clube. A pergunta que eu faço: tem espaço lá para uma sede administrativa, um estádio e campos de treinamento? Se a resposta for sim, é uma ideia que me agrada bastante. Do contrário, melhor deixar quieto. Basta passar a administração pro CT e ampliar o OBA, criando um projeto arquitetônico para 20 mil pessoas e ir fazendo por etapas.

 Outra coisa que não me agrada nessa história de vender o OBA: conhecendo bem as figuras que circulam lá dentro, é perigoso esse dinheiro virar fumacinha de ninja e o clube ficar apenas com um CT mal acabado.

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Anderson Milhomem
Anderson Milhomem, 47 anos, publicitário, diretor de arte que tem o design como inspiração, a escrita como paixão e o Vila Nova como religião. Deus no céu e Bé na terra. Amém. @anderson_milhomem