por Rogério Godinho*

Tento me colocar no lugar de alguém que perdeu um ente querido. De uma pessoa que viu o vídeo da barragem da Vale se rompendo, as pessoas correndo e a terra cedendo sob seus pés. Que viu seu filho ali. Que já evita o noticiário pois a palavra desaparecidos ainda é usada 14 dias depois.

Essa pessoa descobre que a Vale sabia. Que dois dias antes os sensores que medem a pressão do líquido apresentaram dados discrepantes, vários até deixaram de funcionar. Ela se dá conta que os ativistas estavam certos, que não eram exageros e mentiras como os executivos diziam, que agir corretamente não eliminaria empregos, mas teria salvo a vida do seu filho.

Não consigo imaginar a dor. Não conheço nenhuma das centenas de pessoas que perderam a vida para preservar o lucro. Só consigo assistir de novo e de novo a cena das pessoas correndo e morrendo.

Sinto raiva, penso no grau de ganância de executivos que estavam prestes a distribuir bilhões de dólares em dividendos. Em novembro, a expectativa era de uma distribuição de US$ 10 bilhões.

DEZ BILHÕES DE DÓLARES. Quem são essas pessoas inescrupulosas que se negaram a fazer o certo somente porque reduziria um pouco esse lucro tão astronômico? 

Minha fúria aumenta quando essa empresa — a Vale — se recusa a assinar o Termo de Ajuste Preliminar Extrajudicial. Ainda agora, a ganância prevalece. O objetivo do Ministério Público era realizar ações urgentes em Brumadinho. Os dias passam. A Vale pede mais tempo para analisar o termo.

Angustiado, concluo que eles agem assim em decorrência de seu enorme poder. Que sempre vão existir juízes e políticos dispostos a ajudar na preservação do lucro. Que hoje a Vale pode ser punida, mas amanhã a população terá esquecido e esses homens estarão lá para garantir o lucro bilionário. 

Assisto novamente ao vídeo. Nunca vou conseguir imaginar a dor. Nem entender a ganância de quem a provocou.

* Rogério Godinho é jornalista, escritor, consultor e palestrante.

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