Ironia é Lionel errar o pênalti que daria a vitória contra a zebra Islândia no dia seguinte a Cristiano Ronaldo cobrar uma falta no fim do jogo para tirar a vitória da favorita Espanha diante de seu Portugal

Não tem como falar de Messi e não me lembrar de Zico. Ainda mais depois dessa estreia da Argentina na Copa do Mundo.

Além da aparência da silhueta, há muitas semelhanças na história pessoal de ambos: o talento nato descoberto ainda criança; a vida simples da família no subúrbio; os irmão mais velhos que também jogavam futebol; a paixão e o casamento com a primeira namorada; o esforço para desenvolver o corpo franzino. Tecnicamente, também: a facilidade para “grudar” a bola no pé; o dom da distribuição do jogo; as arrancadas fantásticas; as assistências precisas; a infiltração mortal na área adversária; e o instinto de goleador mesmo sem ser camisa 9.

Lembro-me de que o grande duelo dos anos 80 era entre Zico e Maradona. Nada globalizado como se dá hoje a disputa entre o argentino e Cristiano Ronaldo.

Em 1982, o Brasil de Zico deu um baile na Argentina de Maradona. Foi 3 a 1 fora o show, com gol e assistência do Galinho de Quintino. O argentino, ainda novinho, não aceitou a derrota e deu uma entrada criminosa em Batista. Foi expulso. No jogo seguinte, veio a tragédia de Sarriá e a mais brilhante seleção deste os tempos de Pelé saiu da Copa.

Zico penalti França - O craque na marca do pênalti: Messi é o Zico da Argentina
Zico faz a cobrança fatídica contra a França em 1986, enquanto Bats cai para defender o pênalti | Reprodução

Zico era o líder também em 1986. Mas estava limitado, ainda em fase de recuperação após uma agressão de Márcio Nunes, do Bangu, pelo Campeonato Carioca, que lhe custou uma cirurgia no joelho. Logo no primeiro toque que deu na bola, nas quartas-de-final contra a França, deixou o companheiro Branco na cara do gol. Ele foi derrubado. Pênalti, que Zico bateu… e foi defendido pelo goleiro Bats.

Nos pênaltis que decidiram a vaga, Zico acertou a cobrança, mas Sócrates e Júlio César erraram e o Brasil ficou fora da Copa. A mesma Copa em que Dieguito só não fez chover e levou a Taça Fifa para Buenos Aires.

Aquele Brasil x França de 86 foi a única vez em que a seleção brasileira me proporcionou lágrimas. Sabia que ali se encerrava o ciclo daquele jogador, que foi meu super-herói de carne e osso e me fez gostar de futebol.

Messi penal - O craque na marca do pênalti: Messi é o Zico da Argentina
Messi vê o goleiro (e dublê de cineasta) Halldorsson defender o pênalti que daria a vitória à Argentina sobre a Islândia | Reprodução Sportv

Vejo Messi errar o pênalti e não tem como não lembrar de Zico. Pior para Messi é que não tem nem mesmo uma geração de craques como o brasileiro teve. Um com Falcão, Sócrates, Júnior (fora Leandro, Éder, Cerezo etc.), nomes do futebol de excelência; outro com Aguero, Di Maria e Higuaín. Faz diferença.

Ironia é Lionel errar o pênalti que daria a vitória contra a zebra Islândia no dia seguinte a Cristiano Ronaldo cobrar uma falta no fim do jogo para tirar a vitória da favorita Espanha diante de seu Portugal. E isso depois de fazer outros dois gols no jogo – um deles de pênalti.

Como Zico, também Messi parece não ter nascido para grandes glórias por sua seleção. Ao contrário de Zico, porém, a discussão sobre ele estar mundialmente no primeiro patamar de craques da história não existe. Por ter jogado apenas no Flamengo e na Europa ter defendido apenas a pequena Udinese, o brasileiro é pouco lembrado fora daqui. Mas, pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida de que o Galinho foi um dos maiores da história.

A Copa mal começou. Tem muito chão pela frente. Mas o que passa pela cabeça de Messi agora é a sensação de fracasso total como servidor da seleção de seu país. Ainda que este país só esteja na Copa graças aos três gols dele no último jogo das Eliminatórias. Mas quem vai se lembrar disso agora?

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.