“Veio um morador da área ali e foi tentar socorrer o meu genro.”

Subúrbio do Rio de Janeiro. Um carro acabava de virar uma peneira, alvejado por rajadas de tiros. Tiros de fuzil. Havia pessoas vivas lá dentro, atônitas e desesperadas. Havia feridos também. O catador de papel Luciano Macedo estava próximo à cena de terror e resolveu ajudar. Só queria ajudar.

“Quando bateu na porta e eu a abri, começou novamente a rajada. Foi quando eu me escondi debaixo do painel do carro. Foi aonde alvejou minhas costas de raspão…”

As aspas são de Sérgio Gonçalves de Araújo. O morador era Luciano. Luciano não tinha painel de carro aonde se abaixar para se esconder.

“Os tiros chegaram no padastro da Luciana, o Sérgio, e no morador que foi tentar ajudar depois que a gente saiu. A gente já tinha saído do carro.”

As aspas agora são de Michele da Silva Leite Naves. Ela, que também estava no carro alvejado, confirma a atitude heroica do morador e a segunda rajada de tiros a que se referiu Sérgio (para quem atirou “por engano”, uma segunda rajada também “por engano” parece complicar uma versão menos culposa que dolosa).

Uma bala perfurou um dos pulmões de Luciano. Ele levou ainda mais dois tiros. Tiros de fuzil.

Todo o relato acima foi extraído da reportagem de oito minutos produzida pelo Fantástico do domingo, 14/4, uma semana depois de o carro do músico Evaldo Santos Rosa absurdamente ter sido alvo de uma ação de homens do Exército que resultaram em pelo menos 83 tiros disparados contra sua família em Guadalupe, zona norte do Rio. Ele morreu no banco do motorista, caído no ombro de seu sogro, Sérgio.

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O catador de papel Luciano Macedo: morte por praticar a empatia | Reprodução

Nesta quinta-feira, 18/4, o desatino daqueles militares provocou a segunda morte. Luciano não resistiu. Estava em coma num hospital público de Duque de Caxias, tinha infecção generalizada e a decisão judicial de transferi-lo para uma unidade mais aparelhada chegou tarde demais.

Desde o horror ocorrido, pouco se havia falado do catador de papel atingido. Na matéria do primeiro telejornal global diário, o Bom Dia Brasil, a notícia da morte de Luciano ocupou 37 segundos. No domingo, em meio à Páscoa e à cobertura do feriadão, talvez não haja no mesmo Fantástico qualquer registro da segunda morte daquele domingo em Guadalupe.

Catadores de papel compõem uma classe especialmente invisível à sociedade. Estão, para esta, na mesma casta dos mendigos, dos andarilhos, dos bêbados crônicos e dos loucos mansos. Apenas um grau acima estão os garis e os flanelinhas, como o empático Capoeira, nascido Varlei Rocha Alves, que ganhou visibilidade (e, com ela, uma vaquinha que lhe rendeu uma casa) por ajudar uma senhora a atravessar a rua alagada durante a última tragédia pluviométrica na Cidade Maravilhosa usando caixas para improvisar uma ponte, na cena de Copacabana.

O também empático Luciano morreu sem conhecer o bebê que terá Daiane, sua mulher, que viu o marido ser executado. Se fosse um País que reverenciasse a memória como instrumento para não repetir seus próprios erros, Luciano Macedo viraria nome de praça em frente a um quartel do Exército.

Mais do que isso: a homenagem ao catador de papel seria também uma reverência à empatia, à solidariedade, à compaixão. Foi por conta de ser empático, solidário e compassivo que Luciano foi executado – à semelhança de Alguém cuja morte é relembrada justamente nesta Semana.

Quem dera este País aprendesse com seus erros. Assim não haveria Brumadinho depois de Mariana. Não haveria Ninho do Urubu depois da boate Kiss. E não haveria Muzema depois de tantos casos de construções irregulares nos morros do Rio.

Mas, justamente por conhecer o País como ele infelizmente é, a família de Luciano, assim como a de Evaldo Rosa, dará graças a Deus se obtiver o mínimo da ajuda. Punição, para redimir o “engano”? Se o caso fosse em Copacabana, talvez pudesse haver esperança.

Com a iminente inexistência da Praça Luciano Macedo, este texto segue aqui, escrito como tentativa de acender uma minúscula chama para buscar enxergar, na pessoa – agora na memória – do herói catador, os invisíveis que nos cercam e aos quais aquela que mais deveria protegê-los se mostra frequentemente tanto mais cega: uma senhora chamada Justiça.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.