Em um País em que ressuscitam a cada dia propostas repaginadas do velho fascismo, a emissora é atacada muito mais por suas virtudes do que por seus enormes defeitos

por Ricardo Brisola Balestreri

Nos últimos tempos, pegou a moda de malhar a Rede Globo. Eu também tenho minhas fortes críticas. A Globo, como qualquer grande empresa, age, antes de tudo, para defender seus interesses corporativos. Assim, por exemplo, faz política fingindo não fazer e se apresenta como imparcial quando, na verdade, tem suas claras preferências. Sempre que interessa, prejulga e pré-condena, sem dó.

Temos visto isso há meses, por exemplo, na cobertura das ações anticorrupção na política, fazendo pesar a mão sobre os políticos de um determinado partido e só abordando os casos de outros partidos quando fica sem saída e não quer passar uma imagem protetiva em relação aos seus, aos de sua “estimação”. Atenção: não estou dizendo que a corrupção daquele partido não mereça uma boa cobertura e uma vigorosa condenação moral. Só estranho a força empreendida em uns casos e sua diluição em outros.

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Cidadão protesta contra atuação da Rede Globo durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff | Divulgação

Nada raro, porém. Essa é a praxe manipulatória de toda a grande mídia, em toda a “sociedade do espetáculo”, e a Globo não é exceção. Há uma forma para manipular menos, contudo – utilizada em países avançados –, que é a declaração de apoio explícita de órgãos da grande mídia a um partido, a candidatos, a determinada linha ideológica. Grandes órgãos de comunicação norte-americanos, por exemplo, costumam fazer isso em períodos de eleição presidencial, o que os torna, potencialmente, veículos menos hipócritas, que se apresentam ao povo sem a máscara da neutralidade. Se a Globo agisse assim, seria mais legítima e teria maior credibilidade.

Mas voltemos à “malhação de Judas” do senso comum contra a Rede Globo. Não creio que isso ocorra por razões tão sofisticadas como as que elenquei acima. A Globo é rejeitada, hoje, muito mais por suas qualidades do que por seus defeitos. É uma rede de comunicação claramente identificada com a forma liberal do capitalismo. Obviamente que não seria identificada com a utopia socialista, uma vez que é empresa constituída para lucrar.

Assim, na vida como a vida é, optou pelo viés mais avançado do capitalismo, aquele que respeita os direitos e garantias individuais e as diferenças entre os cidadãos. Em que pese jamais se redimir do seu pecado de fazer política de forma manipulatória (dado que isso é inerente ao DNA de toda a grande mídia), pelo menos professa uma ideologia que não renega o estado de direito e a preservação do espaço das minorias. Bem melhor do que defender a ditadura (como defendeu, nos seus primórdios) ou alguma forma de governo teocrático e autoritário, por exemplo, como o fazem outras mídias ao redor do mundo.

Defensora inconfessa do ideário liberal, a Globo abre espaço farto em sua programação para os direitos das mulheres, para o combate ao racismo, para a livre expressão das orientações sexuais, para a crítica ao machismo, para a denúncia das truculências cometidas por operadores do Estado, para divulgar o escândalo das enormes desigualdades sociais em um País tão rico. Essas são pautas progressistas que vêm fazendo convergir, historicamente, segmentos das novas esquerdas democráticas, mas, também e especialmente, das direitas de recorte liberal, no mundo inteiro. São motes que também uniram essas visões de mundo, por exemplo, em 1948, sob a liderança liberal da grande Eleanor Roosevelt, para oferecer ao mundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A Globo, visivelmente, pactua com isso – o que, convenhamos, é bem melhor do que pactuar com o racismo, a misoginia, a homofobia, a defesa da escandalosa desigualdade na distribuição de renda, a criminalização da pobreza etc. Isso não a faz santa, imune às sacanagens corporativas, é claro. Quando entra para defender os próprios interesses, atropela qualquer ideário e se preserva. Mas quem não o faz, na ordem capitalista (a única que existe)?

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Manifestação conservadora ataca, ao mesmo tempo, o comunismo e a Rede Globo | Divulgação

Assim, minha tese é de que a Globo é atacada muito mais pelas suas virtudes do que pelos seus enormes defeitos. Em um País em que ressuscitam, a cada dia, propostas repaginadas do velho fascismo, onde as tentações da volta de um modelo de capitalismo de Estado autoritário ganham movimentos de massa nas ruas, onde políticos não se envergonham mais de defender, publicamente, psicopatas torturadores, onde malhar o “politicamente correto” e festejar o bullying em todas as suas dimensões já não constrange grande parte dos chamados formadores de opinião da classe média, uma organização da grande mídia que insiste em permanecer na defesa do modelo capitalista liberal e de seus valores, vai parecendo, cada vez mais, uma propagadora de “imoralidades”, de “maus costumes”, de formas de vida condenadas, diante das trevas ajuizadoras do farisaísmo, agora apropriado da leitura literalista e fundamentalista dos textos bíblicos.

Em tal análise de sentido, ler ao vivo uma nota de autocrítica corporativa em relação a posições equivocadas que sustentaram o golpe de extrema direita em 64 é meritório e digno do ideário liberal. Para os comandos políticos protofascistas e populistas, é demonstração de confusão, fraqueza e emparedamento. A extrema-direita (de idêntica forma à extrema esquerda) jamais pede desculpas.

De forma geral, não gosto da Rede Globo. Há coisas totalmente sem noção, como o BBB – na verdade, quase toda a parte voltada à mera distração é um horror –, e um telejornalismo tão pastel e diretivo que praticamente não assisto mais. Mas há também a Conversa com Bial, o Altas Horas, o Globo Repórter, os programas musicais, a parte cultural, um segmento de humor sofisticado, que não ficam a dever a qualquer das melhores televisões do mundo.

No Brasil da desinteligência polarizada, este artigo só complica. A ideologicamente velha esquerda vai odiá-lo e a direita chucra, colonizada pelo ideário fascista, xingará até a quarta geração. É que há dias em que tenho uma irresistível tentação à provocação das zonas de conforto intelectual. E cansa esse repetitivo “conversê” anti-Globo, essa eterna teoria conspiratória, a chatice desse lugar comum. Amanhã posso estar arrependido de ter postado e achando que já deveria ter abdicado dessas tentativas pretensiosas, messiânicas e inúteis, de “salvar as consciências” de habitarem no Hades da rasteirice intelectual e da alienação, mas, então, será muito tarde.


Ricardo Brisola Balestreri é secretário-chefe do Gabinete de Assuntos Estratégicos do governo de Goiás, professor da Universidade Estácio de Sá e membro do Comitê de Segurança Pública com Cidadania da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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