por Rodrigo Cássio Oliveira*

Quem é muito jovem hoje em dia e ouve Jair Bolsonaro dizer que João Gilberto foi apenas “uma pessoa conhecida” não entenderá nunca o que esse artista significou para o Brasil.

A bravura dos grandes músicos vem do domínio perfeito de um estilo. Os virtuosos treinam sem descanso para transformar seus instrumentos em uma extensão do próprio corpo, elevando a técnica ao nível mais alto possível. João Gilberto era perfeccionista assim, mas isso não é tudo.

João criou um estilo. Você pode ouvir bossa nova no melhor do rock feito já ao final dos anos 1960, como em Break on Through, dos Doors. Mas você também pode pegar um avião agora e assistir a um show de fado contemporâneo em Portugal – o do Fado A’Lado, por exemplo –, que a bossa nova vai estar lá. João Gilberto expandiu o repertório da música popular em todo o mundo.

Falamos de música popular, o que é muito importante. Para criar a bossa, João inventou um jeito novo de cantar e tocar um instrumento popularíssimo, cuja origem remota é praticamente insondável (os antepassados do violão surgiram há milhares de anos). Há toda uma tradição da palavra cantada, que vai da lírica dos trovadores portugueses até a seresta de Silvio Caldas e o samba-exaltação de Ary Barroso, que João Gilberto reelaborou e refinou ao lado de Tom Jobim, Baden Powell, Vinícius e outros.

Mas João não é original apenas pela singularidade estilística da bossa. É preciso observar também as referências culturais que ele assimilou para criá-la. João promoveu o encontro do samba brasileiro com o jazz americano, isto é, do ritmo mais libertador e ardente que a cultura negra criou no Brasil com a extravagância harmônica mais culta e sofisticada que a cultura negra criou nos EUA. João Gilberto inaugurou a segunda metade do século 20 como uma espécie de ponto de encontro do que havia de mais bonito e inovador nas influências culturais que formavam um novo Brasil.

E aí vale dizer que João criou a bossa no Rio de Janeiro, quando a cidade estava prestes a entregar o posto de capital nacional para Brasília, esse outro símbolo da nossa modernidade inventada, de uma racionalidade impossível. João já era a Tropicália muito antes de terem feito a passeata contra a guitarra elétrica em 1967. É que o seu violão moderno tocava uma ideia completa do Brasil. Suas canções faziam uma síntese depurada da nossa estranheza, das nossas contradições e das nossas maravilhas. João era um ponto de encontro voltado para o futuro.

O Brasil que temos hoje não pode fazer jus à memória de João Gilberto. Um presidente digno teria feito muito mais do que uma declaração insossa: teria oferecido o melhor lugar no coração do Brasil para velá-lo em público.

Como vocês estão vendo, eu sou fã absoluto de João. Se um dia eu deixar de sê-lo, é porque já não fará sentido, para mim, dizer que sou brasileiro.

Rodrigo Cássio Oliveira é doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

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