Antes de qualquer coisa a escrever aqui, é preciso ter uma questão em vista: Jair Bolsonaro se posta como outsider do sistema, mas é um político. Nunca deixou de ser – apesar de seus seguidores rechaçarem essa ideia.

Por outro lado, Messias nunca se aceitou como presidente da República. Nunca se portou como tal. Ele é um eterno candidato em campanha. Sua história desde que vestiu a faixa presidencial é uma obsessão por encontrar dificuldades e inimigos para sustentar um discurso de confronto que o coloque de volta ao palanque – de onde, na verdade, nunca saiu.

Não consegue entender que existe uma Constituição que precisa ser observada e joga para seu público dizendo que “não pode fazer nada” porque “eles” não deixam. “Eles” são os demais Poderes, a mídia, a oposição, a China ou tudo o que possa lhe fazer sombra. Inclusive membros da própria equipe.

Ocorre que no meio do descaminho havia um vírus. Não o de qualquer “gripezinha” ou “resfriadinho”, mas um novo tipo que passou a desafiar os sistemas de saúde do mundo inteiro desde dezembro.

Com um cenário de pandemia instalado e dias de sofrimento chegando ao Brasil, o Bolsonaro do palanque falou mais alto do que o presidente que ele não queria ser. Ele parece realmente aterrorizado com o quadro da economia, mas se viu ofuscado politicamente pela figura do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, alguém que estava ali na equipe, mas até fevereiro pouca gente se lembrava de que existia.

mandetta óculos - Novo ministro da Saúde, Nelson Teich é última chance para trazer Bolsonaro à sanidade
Ex-ministro Luiz Henrique Mandetta: saída cumprindo propósito de não se demitir | Isac Nóbrega / PR

Mas Mandetta e sua equipe foram se tornando popstars durante o processo. E ele soube aproveitar seu momento: quase sempre demonstrando tranquilidade, ar sereno, boa comunicação e paciência didática para explicar dados e situações – ainda que para esconder falhas e omissões de seu setor, algumas de sua responsabilidade, outras de força maior.

Entretanto, o que conquistou grande parte da população foi transparecer um genuíno intuito de zelar pela vida de todos ao não ceder às investidas do presidente contra o isolamento social. Mas, depois de muito desgaste e vaivéns, deixou o cargo nesta quinta-feira. De qualquer forma, levou até o fim o propósito de “não abandonar o paciente”: foi Bolsonaro quem o demitiu.

Vida que segue. Logo depois de o ex-ministro anunciar sua saída via redes sociais e se encontrar pela última vez, pessoalmente e sorridente, com a equipe do MS e a imprensa, lá estava o presidente no Palácio do Planalto, com fisionomia tensa, para apresentar o substituto de Mandetta, com quem tivera, nas suas metáforas características, “um divórcio consensual”.

No pronunciamento ao lado de Nelson Teich, Bolsonaro se remeteu imediatamente a seu modo monotemático de ver a pandemia: disse que “o governo não é uma fonte de socorro eterno” e que, junto com o vírus, veio uma verdadeira “máquina de moer empregos”. Aí, deu a letra: sua preocupação é mesmo a economia, mas não consegue mesmo entender que o retorno à plenitude dela depende de um forte isolamento social!

E disse que conversou com o novo ministro que entende que a volta ao trabalho não vai ocorrer o mais rápido possível, mas demonstrou que quer uma flexibilização desde já.

Ou seja, marcou seu território, basicamente repetindo a linha anti-OMS que vem fazendo desde o começo.  É a sinalização errada e diz que, mais do que politicamente, ele parece encarar com mais tranquilidade uma máquina de moer vagas de UTI.

O novo ministro já começou sua fala garantindo que não haverá “movimentação brusca” em relação à política de isolamento social. Repetiu que vai pautar seu trabalho de maneira técnica e científica, ressaltou a importância de testes maciços para a população – como na Coreia do Sul – e enfatizou que não existe antagonismo entre saúde e economia. Disse estar afinado totalmente com o governo – o que contradiz a parte de como vai pautar seu trabalho.

Pode ser que fosse apenas discurso para agradar ao chefe. Mas Teich já vai fazer esse agrado apenas com o fato de não ter proximidade maior com as raposas políticas de Brasília, o que era o caso de Mandetta. Um ministro “médico-médico”, não político. Como isso vai dar certo, em meio aos incêndios, com tantas costuras a fazer pelo bem do sistema de saúde de todo o Brasil? Seria curioso observar se não estivéssemos todos diretamente envolvidos.

A missão mais hercúlea

Teich desconhece o jogo político e terá de montar sua própria equipe em meio à subida de casos e de mortes, com a covid-19 já aterrorizando fortemente São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Amazonas.

Combater o vírus com a pandemia deflagrada em um país continental será duríssimo, mas a missão realmente hercúlea do novo ministro está logo ali, em Brasília mesmo: domar o pensamento reptiliano de Jair Bolsonaro, que logo dará sinais de impaciência com a “demora” em dar as respostas que ele quer: ou seja, acabar com o isolamento horizontal e pôr o povo de volta ao trabalho.

Como médico-médico, Nelson Teich sabe que isso seria um genocídio. O duro é convencer Bolsonaro de que retomar a normalidade agora causaria justamente o contrário do que o presidente quer: além do total colapso na saúde, levando a mortes sem controle, um claro suicídio econômico.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.