Elder Dias

Sou jornalista, mas gosto de brincar com números.

Com o trabalho voltado para a pandemia, vasculho informações oficiais disponíveis em portais oficiais de governos e nos grandes sites que acompanham a pandemia no mundo, como o Worldometers e o da Universidade Johns Hopkins.

E olhar os dados da pandemia – ainda que o governo federal tenha relutância em divulgá-los – pode ajudar a entender melhor para onde caminha o Brasil enquanto faz cair a média de meia dúzia de Boeings lotados todos dia em número de vítimas do coronavírus.

A pandemia era uma tragédia inevitável quanto à ocorrência, mas totalmente possível de ser amortecida.

Um ou dois aviões caindo cheios a menos por dia fariam menos famílias enlutadas. Bastava ter o que não houve: vontade política e unidade de esforços entre gestores.

Um mês atrás, no dia 15 de maio, o Brasil registrava 14.817 mortes por covid-19, segundo o portal do Ministério da Saúde – mesmo número do Worldometers, que assinalava, até aquela data, 89.104 vítimas nos Estados Unidos e 33.998 no Reino Unido.

Ou seja, havia 74.287 vítimas a menos entre os brasileiros do que entre os estadunidenses e 19.181 a menos do que entre os britânicos.

Nesta segunda-feira, 15/6, os números de óbitos nos três países eram: Brasil, 44.118; Estados Unidos, 118.283; e Reino Unido, 41.736.

Nesse intervalo, portanto, morreram 29.301 brasileiros, 29.179 estadunidenses e 7.738 britânicos.

Ou seja, na metade final de maio e inicial de junho, a covid-19 matou quase quatro vezes mais por aqui do que na terra da rainha Elizabeth.

E uma novidade: nesse período, a carnificina pandêmica do Brasil superou a do país de Donald Trump.

Pelo visto, o vassalo Bolsonaro já tem algo para puxar assunto com seu padrinho do norte.

Aliás, é o que há em comum entre os três países: chefes de governo que minimizaram a pandemia em seu início.

O Reino Unido foi a última entre as mais importantes economias europeias a se fechar em quarentena. O primeiro-ministro Boris Jonhson pegou o coronavírus e passou maus bocados. Pagou o preço em número maior de vidas e sofrerá pelo menos a mesma recessão de todos os demais.

Donald Trump achou primeiro que o vírus era literalmente intriga da oposição. Depois de jogá-lo do colo dos democratas e não colar, disse que o corona logo iria embora. Não foi. Quando deu por si, viu a maior economia do mundo refém do Sars-CoV-2 e a principal cidade do capitalismo tendo mortes às centenas durante semanas.

Seu amigão da América do Sul repetiu todo o enredo, indo além, porém: mesmo diante de todas as evidências, não voltou atrás em momento algum. Pelo contrário, dobrou a aposta. Não fossem os governadores e uma decisão do Supremo Tribunal Federal, isto aqui teria virado uma imensa Guayaquil.

Mesmo com dezenas de milhares de mortes, Jair Bolsonaro continua o mesmo: sem máscara e provocando aglomerações. Num país dividido e radicalizado politicamente, ele serve de exemplo e até inspiração para uma fatia de pelo menos 25% da população, infelizmente para o lado ruim.

Suas atitudes contribuem para que essa parcela tenha um descaso total ou parcial com as medidas sanitárias. Não há isolamento que sobreviva a tanto negacionismo, noves fora a confusão que os sinais trocados entre autoridades causam ao todo da população.

Apesar de tudo isso, o cenário poderia ser pior, mas – acreditem – parece este ser o pior momento. É um confuso “ainda bem”, bem torto, mas é. Só que isso é discussão para o próximo artigo.

(Crédito da foto: Carl de Souza | AFP)


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.