Entendem o rapaz como mimado ou descontrolado emocionalmente. E tomam isto como uma verdade absoluta para definir o que pensam sobre ele

Sei que vou mexer em um vespeiro, mas não dá pra deixar de tecer minha opinião sobre o assunto da moda atualmente: Neymar. Quem me conhece minimamente sabe que sou um fã inveterado de futebol desde que saí do ovo, embora tenha tentado seguir pela linha da racionalidade há alguns anos. Em minha autoanálise, tenho obtido relativo êxito nesta missão pessoal.

Contudo, têm me tirado um pouco do sério os comentários extremamente maldosos que muitos vêm fazendo sobre o brasileiro que inegavelmente tem hoje as maiores qualidades esportivas em âmbito mundial.

Sem muitas papas na língua, Chico Buarque já retratou há décadas algo semelhante naquilo que era a desenfreada sanha contra a Geni. Porém, é importante, ao meu juízo, que se entenda o esporte de alto nível – em especial o futebol – não como uma ciência exata, mas como uma atividade dependente precipuamente de talento, preparo físico, capacidade mental e disciplina.

Neymar chora2 - Neymar em foco (2): a Geni reinventada
Neymar esconde o rosto e desabafa após o jogo contra a Costa Rica: jogador não é super-herói, defende articulista | Getty Images

O Brasil não é no futebol simplesmente um gigante pela própria natureza. É um dos grandes, que compete em pé de igualdade com outros do mesmo patamar. Neymar não é Pelé (e jamais será!) e não pode carregar todo o peso de uma equipe nacional sozinho, como muitos pretendem. Critica-se nos últimos dias a forma de jogar, as muitas vezes em que ele vai ao solo, o corte de cabelo, as caras e bocas, o jatinho, a namorada, os amigos, a família, um chute que não entrou no gol, o choro…

Ora, esquecem-se muitas vezes do fato de que ele não é nenhum super-herói, mas um ser humano sujeito a emoções, a falibilidades que, entretanto, tem um talento excepcional com a bola nos pés, é um profissional dedicado (ok, isso é obrigação) e sempre teve imenso prazer em representar o Brasil em toda sua carreira vitoriosa. É um menino de apenas 26 anos, que teve de se fazer homem muito cedo e que, inegavelmente, teve de saltar etapas importantes na própria maturação de vida. Isso pode, sim, conduzir a um ou outro desacerto, mas sua balança pende sempre para o lado positivo.

Abro aqui os necessários parênteses até para posicionar-me em uma intentada imparcialidade de análise, deixando bem claro que Neymar não é alguém que eu tenha como ídolo. Em minha juventude, até já tive essa fraqueza e carrego no esporte até hoje a nobilíssima referência de Zico, já aposentado há quase 25 anos. Foi o melhor que vi jogar, mas nem me proponho a iniciar mais essa polêmica. Então, hodiernamente, meus ídolos reais são todos integrantes da minha família e somente a eles exercito minha devoção.

Retornando o rumo da prosa, aponto que nesta Copa do Mundo, que é o maior evento esportivo do planeta, ninguém carrega uma pressão maior do que Neymar em campo, nem mesmo os alienígenas (no sentido do talento esportivo) Cristiano Ronaldo e Messi, que não atuam por seleções tão vitoriosas e tampouco com a qualidade atual do Brasil. Suas equipes, por óbvio, foram também à Copa com o objetivo de vencer, mas a eventual derrota não lhes será tão massacrante quanto é sempre ao Brasil.

E a Neymar foi direcionada pela grande maioria a obrigação de conduzir os brasileiros (sim, porque o futebol por estas paragens ainda permanece sendo o ópio do povo) à conquista do título, que também é enxergado como necessidade por outros tantos. Nesse calor de discussões etéreas, surgem os apontamentos de que um grande defeito é o exacerbado individualismo dele em campo. Aquiesço que a observação pontualmente pode até ser pertinente, mas os números de sua carreira desmentem isso. A quantidade de gols e assistências durante os anos em que atua na Europa é sempre alta e no escrete canarinho ele já é o quarto maior artilheiro da história.

Mas tem também o choro após a partida contra a Costa Rica, né? Por isso, o entendem como mimado e/ou descontrolado emocionalmente. E tomam isto como uma verdade absoluta, sem sequer levar em consideração que esse atleta acaba de retornar de uma contusão séria, que demandou uma cirurgia que quase o impossibilitou de estar presente na Copa. Competição em que ele foi alijado na outra oportunidade, em seu auge, também por uma entrada violenta. Seguramente há uma soma de motivos – uns favoráveis, outros nem tanto –, mas que seguramente a ele doem.

Minhas principais divergências residem em pontos díspares: (I) embora tenda a ser ele a estrela principal da constelação brasileira, inexiste uma dependência exagerada de uma atuação perfeita de sua parte, porque a equipe é muito bem montada e treinada; (II) como já externei, o Brasil é tão bom como, pelo menos, meia dúzia de outras equipes e o futebol é o esporte mais propenso ao melhor sucumbir ao pior em um único jogo.

Sem apelar para a piedade, sem tentar expô-lo como um pobre coitado, meu clamor como amante do futebol e torcedor, na verdadeira acepção da palavra (sou muito mal-acostumado pela insana paixão esmeraldina), é para que possamos envidar esforços para que os pensamentos positivos se sobreponham às criticas venais e mordazes. Neymar não é o Brasil, mas é uma das peças deste intrincado tabuleiro. E eu sou mais Brasil.

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