Neymar faz mal às crianças; faz mal à cultura, ao imaginário do País. Essa coisa de pelejar somente para si não faz os grandes. Nunca fez

por Pettras Federico

Um sujeito como o Neymar faz um mal danado para um país. Alguém incontestavelmente talentoso, acima da média e capaz de liderar seu grupo com sua potencialidade, mas que sucumbe àquilo que o brasileiro médio adora exaltar como virtude – uma fissura inegável de caráter –, que é o “dá em mim que eu resolvo”.

neymar insta - Neymar em foco (1): o craque que faz mal ao imaginário do Brasil
Postagem de Neymar no Instagram após as polêmicas do jogo contra a Costa Rica: o exemplo do craque é nocivo ao País, escreve articulista | Reprodução Instagram

Não tenho nada contra o talento individual, pelo contrário, pois é justamente esse componente que torna o futebol imprevisível e mágico, é esse o tempero que derruba o cartesianismo do esquema puro, do treinamento duro que faz o limitado quase ombrear com o genial. Quase, mas nunca ombreia! O talento faz o bailarino – não o Rocky Balboa – vencer o Ivan Drago do futebol. O que não se pode confundir é a inspiração geral que o talento desperta com o enxovalhamento fomentado pelas simulações, xingamentos e regalias que cercam o principado da Baixada Santista.

Neymar faz mal às crianças; faz mal à cultura, ao imaginário do País. Essa coisa de pelejar somente para si não faz os grandes. Nunca fez. Aquiles morreu por Menelau. Neymar olharia para trás por qual Eurídice?

Todos sabemos que o futebol transcende a cancha e se impregna na cultura. Para as crianças, para a tessitura de uma cosmovisão nacional, é preferível perder com um Coutinho jogando muito e calado, com um Douglas Costa entrando no intervalo e arrebentando calado, com um Firmino ajudando sem ser lembrado, com um Willian e seu black power sem luzes e apetrechos chama-câmera do que ganhar com um Neymar e seu jogo para ser melhor do mundo, com seu pai e seu free-pass misturados à concentração da delegação, com essa marra babaca de “tea with me que eu resolvo”. By the way, qual cartão amarelo te faz arrepiar, o do Neymar com murro na bola ou o do Shaquiri com a bandeira da Albânia nas mãos, ou a pose do Adriano peitando a torcida genocida do Slobodan Milosevic?

A Copa acabará daqui a pouco, mas seguirá a vida, haverá eleições, nossos filhos colherão exemplos e seguirão paradigmas que não podem ser os de um Neymar. O hexa, que me desculpem os apaixonados, não pode ter esse preço.

* Pettras Federico é professor de Literatura e Língua Portuguesa.

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