Texto 6 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Ana Prestes

Convidada a participar do Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, de iniciativa do professor Marcelo Brice, da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e do jornalista Elder Dias, editor do portal Estádio das Coisas, arrisco aqui, nas próximas linhas, algumas reflexões – não sem antes ter lido com atenção os artigos dos colaboradores que me precederam e me ver provocada por várias questões por eles problematizadas e que são, no fundo, as grandes perguntas que se apresentam no Brasil, deste ano pandêmico de 2020.

Brice, em seu texto Eu sou rycaa!”: o eleitor entre o ressentimento e o arrependimento, lança o debate ao perguntar: “quando a grande ficha vai cair”? Está se referindo ao momento tão desejado por muitos dos que partilhamos uma verdadeira angústia perante o poder destruidor do governo Bolsonaro, em suas palavras, “quando o bolsonarismo vai deixar de motivar os andaimes da vida nacional”.

Ao buscar respostas, apresenta os traços mais marcantes dos recém-emergentes “bolsonaristas arrependidos” e recorre à noção de “narcisismo das pequenas diferenças” com que Freud tentou explicar os motivos do apoio ao hitlerismo na Alemanha nazista. A comparação é inevitável e nos assombra a todos.

Por ser o bolsonarismo algo assustadoramente análogo ao fascismo do século passado, o debate sobre personalidades autoritárias e os apoios que conseguem mobilizar é recorrente na atual busca coletiva por respostas.

Rizzo, em seu texto Bolsonaro é fruto da esperança, não do ódio (eles é quem estão nos avisando), também faz alusão às tentativas de se socorrer nos estudos comportamentais, sociológicos e psicológicos pós-Segunda Guerra que tentaram explicar a ascensão de totalitarismos a partir do diagnóstico da “psique coletiva que se vê refletida no líder totalitário”.

Ocorre que, em um Brasil de 5 milhões de escravizados por mais de 300 anos, autoritarismo e violência são inconteste herança maldita e encontrar os traços patológicos do indivíduo Bolsonaro não seria a melhor forma de decifrar o fenômeno, sugere Rizzo.

Melhor seria, segundo ele, tentar entender a atual forma de consolidação da opinião pública no Brasil e de como isso se transforma em votos. Nessa busca, a quantas anda a capacidade do sistema democrático de prover a mediação entre opinião e voto?

O que há de explicativo no poder das fake news e na falência da tecnocracia? O que mobiliza mais: ódio ou esperança?

Já não bastasse esse cenário tenebroso, Ulisses do Valle, em Bolsonarismo e pandemia: um encontro de catástrofes, nos lembra do funesto encontro entre bolsonarismo e pandemia de coronavírus em 2020.

“Dá-se aí, inclusive, um empate catastrófico (parafraseando Gramsci), pois a pandemia dificulta um impeachment que feche o horizonte de Bolsonaro e o bolsonarismo dificulta a superação da pandemia mortal”

Algo tão monstruoso que ainda nem sabemos definir bem os contornos do produto decorrente da coincidência de ocorrência, no espaço e no tempo, de dois processos tão maléficos, alerta ele. Sendo que a pandemia, algo já terrível, conseguiu ficar ainda pior sob o bolsonarismo e este, já tão violento e irracional, “tornou-se hediondo” com a pandemia.

Dá-se aí, inclusive, um empate catastrófico (parafraseando Gramsci), pois a pandemia dificulta um impeachment que feche o horizonte de Bolsonaro e o bolsonarismo dificulta a superação da pandemia mortal. Ambos passaram a co-sobreviver após esse “beijo da morte” gerado por seu encontro.

Para a superação desse beijo mortal, é preciso articular uma grande frente ampla, argumenta Assunção em seu texto Sobre aliados e alianças: a necessidade de um programa único em tempos de covid-19. E quando ele diz “ampla”, é ampla mesmo, inclusive com aliados até ontem improváveis, como o gigante da comunicação Felipe Neto.

Ainda que sejam complexas de construir tais alianças entre os que estão mais à esquerda e mais à direita do espectro político brasileiro, segundo ele, diante da “catástrofe em que vivemos” não podemos nos isolar.

E isso significa “apostar naquilo que podemos fazer para minimizar a barbárie imediata” e disputar tanto o agora, como o futuro, com distinção e sabedoria. Ao fazer, por exemplo, com que o keynesianismo pandêmico de ocasião sirva de embalo para reflexões mais consequentes em um cenário pós-pandemia.

O quinto e último artigo que me precede é de Manoel Gustavo e leva o nome Agamben, o negacionismo, a paranoia. Nele, o autor traz um debate fundamental sobre o atual papel do conceito de biopolítica nos debates pandêmicos.

Foi Foucault que nos ensinou, lá atrás, sobre como enxergar as medidas de disciplinamento biológico e de higiene para controlar populações inteiras – e esse debate é um dos mais intensos no atual momento.

Gustavo se apoiou em um dos artigos de Giorgio Agamben, que consta da coletânea de textos Sopa de Wuhan – Pensamiento Contemporaneo en Tiempos de Pandemia, para mostrar que uma aplicação simplista e pouco criteriosa do conceito de biopolítica, feita por Agamben, pode levar mais a erros do que acertos na análise do atual momento.

O autor não fala da correlação deste debate com o da necropolítica, mas tudo indica que o conceito de Achille Mbembe para denominar o ato do Estado de dizer quem deve viver e quem deve morrer está mais adequado ao nosso Brasil bolsonariano. Neste país, a pandemia criou condições para expandir a matança de pobres e negros.

Monstro de duas cabeças

Chego, portanto, ao que me cabe e me inspira a contribuir com o debate. Também quero saber quando a grande ficha vai cair. Concordo que é necessária uma coalizão de forças, chamada frente ampla, que derrote esse monstro que momentaneamente possui duas cabeças, a de Bolsonaro e a da pandemia.

Creio que a necropolítica, que é a resposta do governo ao coronavírus, tem servido como mais um instrumento de aniquilação de nossa democracia. E, nesse ponto, afirmo que o artigo de Rizzo, entre todos, foi o que me provocou mais inquietações.

Ao contrapor a explicação mais usual sobre a vitória de Bolsonaro, que aponta para a conjunção entre fake news e ódio (dos eleitores ao petismo) a outra possibilidade explicativa – a combinação entre a falência da tecnocracia e a esperança (dos eleitores em Bolsonaro) -, seu texto leva a uma interessante reflexão.

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Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” segundo Jorge Amado | Reprodução

Preciso dizer de antemão que o conceito de esperança é bastante caro para mim. Por circunstâncias que não escolhi, cresci na casa do Cavaleiro da Esperança. Foi essa alcunha carinhosa que meu avô, Luiz Carlos Prestes, ganhou a partir de um livro escrito por Jorge Amado nos anos 40 do século passado.

Cresci com essa noção muito presente em minha formação, de que o povo brasileiro é antes de tudo esperançoso. Sua esperança invariavelmente está ligada a um líder (todos homens até aqui) que lhe alimente os vislumbres.

Além de Prestes, houve outros no período recente brasileiro, como Getúlio e Lula. Capazes de arrastar multidões ao dialogar com o que há de mais perene para a grande população deste país desde a colônia: exclusão, fome e desalento. Reforma agrária, no caso de Prestes, e trabalho, no caso de Getúlio e Lula, foram os vetores de conexão profunda entre os líderes e a esperança popular.

A “esperança” da necropolítica é seu desejo de morte

O que, então, alimentou a esperança dos que votaram em Bolsonaro? Segundo Rizzo, seria a esperança de que “os tecnocratas, alheios às aspirações do povo, fossem derrotados e expulsos para sempre”.

O representante político da tecnocracia, ainda segundo Rizzo, seria Aécio – e políticos típicos do PSDB – que virou “petista” ao ser desmascarado como corrupto. Blocados, petistas e liberais seriam a tradução daquilo que o povo brasileiro já não suporta, de um falso republicanismo que encobre a corrupção.

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O então senador Aécio Neves, no período em que apoiava “manifestações pacíficas” pelo impeachment de Dilma Rousseff

Para derrotá-los, foi mobilizada uma massa de insatisfeitos, dispostos inclusive, a referendar discursos racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos e quantos outros preconceituosos houvesse para derrubar a estátua do homem cordial, afável por fora e violento por dentro, espelho dos tecnocratas.

Isso me parece tudo, menos esperança. Assemelha-se mais a um desejo de morte. De busca por uma liderança que chancele o extermínio do diferente, que alimente o instinto destruidor e de aniquilamento do outro.

Associado a isso, está o uso do mix que bolsonaristas fazem entre fake news, teorias da conspiração e algoritmos, tão bem explicado no livro Os Engenheiros do Caos, de Giuliano Da Empoli, traduzido para português por Arnaldo Bloch e que deixo aqui como sugestão de leitura.

Em seu livro, o cientista político ítalo-francês apresenta os resultados de uma pesquisa sobre a relação entre as redes sociais e a ascensão ininterrupta da extrema-direita no mundo.

A arte dos “engenheiros do caos”, que dão nome ao livro, seria transformar algoritmos em votos. O tema que Da Empoli levanta dialoga com o texto de Rizzo no sentido de que há uma transferência da esfera tradicional do engajamento político e da mediação democrática para a terra sem lei que é o ambiente das redes.

Nesse sentido, a capacidade de mediação democrática entre a formação da opinião pública e sua materialização em votos está mesmo em franca falência. Se antigamente era necessário um longo caminho para a formulação de consensos, hoje a lógica é a da uberização da política – tudo precisa estar pronto e disponível para consumo imediato.

Tautologia e bolsonarismo

Daí fica a pergunta tautológica: foi a falência da democracia que gerou a pandemia de fake news, ou foi a pandemia de fake news que fragilizou a democracia? Como diabos viemos parar nesse lockdown político?

Da Empoli vê o Brasil como um dos laboratórios dessa nova forma de fazer política e que deu uma chacoalhada geral em valores tradicionais da democracia. Hoje, dizer mentiras é produzir agenda, pautar a sociedade, pois mesmo quando vamos tentar desfazer as fake news somos obrigados a falar delas.

É como tentar voltar o gênio para dentro da lâmpada, nos escapa totalmente. Por outro lado, a realidade passa a ser mais um dado entre tantos outros – e, nesse ponto, a melhor defesa para figuras como Trump, Bolsonaro ou Salvini, que inspirou Da Empoli, é o ataque.

Quer maior confronto com a realidade do que um presidente estimular seus adeptos a invadirem hospitais para “conferir se a covid existe”? Outro ponto que alimenta o que Rizzo viu como a esperança – e eu vejo como o ódio – entre os apoiadores dessas figuras neofascistas é a reiterada promessa de punição do inimigo em comum.

Rizzo viu este inimigo na tecnocracia, mas eu acho que está além, há um antagonista que é o tal “meu malvado favorito” sempre de prontidão: o comunismo. De repente, para os adeptos do governo, todos os opositores são “comunistas”, pois o termo parece poupar o esforço do raciocínio. É tido como autoexplicativo. No fundo, o uso da palavra encobre o ódio de classe da elite e facilita a manipulação dos incautos.

Torna-se, assim, quase que uma missão civilizatória superar a necropolítica bolsonarista que coloca um país inteiro como refém de seus caprichos autoritários muito bem acomodados sob o signo da morte.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
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Ana Prestes
doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Trabalha na Câmara dos Deputados em Brasília e é analista internacional nas horas vagas