Antes de tudo, é preciso avisar que os encontros que tive com o grande Moraes foram como as lives dos novos tempos: virtuais e cercado de mim mesmo ou de pouca gente. Por questões de choque de agenda, nunca tive o prazer de ir a um show dele – sim, só nos damos conta disso quando já não dá mais pra contar com isso.

Ocorre que no começo dos anos 80, eu mal sabia que era um moleque quando ouvi no rádio de casa aquela introdução vibrante com aquele instrumento que eu viria a saber que era uma guitarra elétrica sob efeito de distorção. E a seguir, um embalo contagiante de banda de fanfarra, em meio a uma letra acelerada, cantada com poesia e voz característica. Era Pombo Correio, já da fase pós-Novos Baianos. Eu tinha sido apresentado a Moraes, mas também à Tropicália naquele exato momento. Conheci naquela hora o jeito mais brasileiro de lidar com uma guitarra.

Como menino, eu imaginava ali o pombo com a carta no bico indo entregá-la para a amada do cantor apaixonado. Não tinha como dar errado. Foi meu primeiro encontro com Moraes.

Alguns anos depois, já adolescente, o Moraes me apareceu de novo, na trilha sonora de uma novela da Globo. Era aquela fase Sullivan & Massadas da música brasileira e o baiano teve de se adaptar. Fez uma musiquinha bem melosa na letra, mas batendo a real da cena de onde ele vinha já na introdução da música, com um cavaquinho delicioso de ouvir. Sintonia, a canção pra tocar no rádio do seu coração.

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Moraes Moreira, ainda com os Novos Baianos: disco revolucionário para a MPB | Divulgação

O último grande encontro acabou sendo, de forma inconsciente de minha parte, uma homenagem a ele e à música dos Novos Baianos. A seleção brasileira iria decidir o penta contra a Alemanha e, como em toda Copa do Mundo, haviam eleito uma música-tema pra empurrar os torcedores. No caso, era Festa, da Ivete Sangalo.

Eu trabalhava na editoria de Capa do jornal O Popular e decidimos fazer uma coisa bem brasileira para dar nossa parcela na corrente-pra-frente, mas saindo do clichê “vai rolar a festa”. Na hora, me veio a letra de Brasil Pandeiro:

“Chegou a hora dessa
gente bronzeada mostrar seu valor…”

E assim a ideia foi caminhando, até sair a edição do dia seguinte com a manchete: Brasil, esquentai vossos pandeiros”… E Moraes, Baby, Pepeu, Paulinho, Luiz, Jorginho e Dadi – assim, como escalação de um timaço – fizeram a trilha sonora para a gente apresentar Ronaldo, Rivaldo, Gaúcho, Marcos, Roberto, Cafu, Felipão naquele domingo de 2002 que já vai chegando à maioridade agora.

Assim que nesta segunda-feira foi anunciada a ida de Moraes deste plano sonoro para outras melodias, um amigo me disse que, no meio de tanto desgoverno e doença, sentia a alma do Brasil morrendo.

É uma meia verdade. Está difícil, a fase é dura, mas ainda podemos encontrar a música de Moraes. É isso que faço agora, enquanto termino este texto. Acabou chorare, queridos; tenhamos tino e coragem.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.