Notícias falsas mostram que plataformas virtuais não são espaços de debate nem ágoras virtuais como otimistas insistem em imaginar, mas fortalezas ideológicas para confirmação dos preconceitos

No segundo tomo da sua trilogia sobre o nazismo, Richard Evans conta a história do jornal Der Stürmer. Criado por Julius Streicher, o periódico exagerava tanto nas caracterizações grotescas dos judeus que Joseph Goebbels, o homem mais associado ao uso da mentira nos dias de hoje, tentou bani-lo. O motivo de Goebbels era a vergonha do Partido Nazista em ser associado a notícias de judeus bebendo sangue de crianças e outros diversos rituais macabros.

Essa relação entre a manipulação sofisticada da “mentira contada mil vezes” com a grosseria de histórias toscas mal contadas voltou à tona com a ação do Facebook em retirar do ar mais de uma centena de páginas de fake news ligadas ao Movimento Brasil Livre (MBL). Logo se iniciou uma campanha virtual bastante estranha: pela liberdade de contar notícias declaradamente falsas dentro de uma rede social de origem privado. Os indignados que puxaram essa campanha indicaram uma série de sites de esquerda e jornais de grande circulação que praticariam o mesmo crime de fake news.

MBL trio 462x300 - MBL, fakes news, redes sociais e a culpa da mulher de César
Kim Kataguiri, Fernando Holiday e Artur “Mamãe Falei” do Val: o trio do MBL, punido pelo Facebook sob acusação de montar uma rede para espalhar notícias falsas

Páginas virtuais como Mídia Ninja e Catraca Livre, sites de notícias ligados à esquerda – como Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo – até jornais, revistas e canais de TV como Globo, Folha de São Paulo e Veja foram arrolados como isentados de forma injusta pelo Facebook. A direita estaria sofrendo uma censura pela rede globalista e esquerdista que domina as alavancas do poder.

Porém, importa primeiro esclarecer o motivo da retirada: as páginas não foram retiradas por seu conteúdo, mas sim por ter sido constatado que eram parte de “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”.

E é no perfil de rede coordenada que se deve manter a atenção. Porque é ela que nos permite não só separar  fake news de interpretações licenciosas como entender “como” e “para que” essas “fake news” funcionam.

A primeira tarefa é entender que fake news são notícias objetivamente falsas. Páginas, sites e mídia mainstream podem ser acusados de distorcer, ocultar ou enfatizar notícias por ideologia ou interesse político, mas dificilmente se encontram neles erros factuais. É por isso que a figura do ombudsman ou a seção “Erramos” tem uma importância seminal e pouco percebida nesses veículos. Afinal, a capacidade de convencimento desses canais está diretamente relacionada com a visão que seus leitores tem sobre a idoneidade do emissor.

Claro, isso não significa que não distorçam até um ponto muito próximo da mentira. O fato de o maior prêmio do jornalismo homenagear um jornalista de reputação bastante duvidosa já é um indício curioso. Isso se intensifica no Brasil, onde a bibliografia sobre a emergência do quarto poder é praticamente unânime em sua dependência do Estado e incapacidade de criar uma esfera pública desvinculada dos interesses políticos.

Mesmo assim, excluindo-se “barrigas” como a publicação sobre o caso Boimate na revista Veja em 1983, a grande maioria dos veículos atacados pelos defensores do MBL exploram uma conexão entre fatos verdadeiros – não notícias falsas – para imprimir suas versões. Não se encontrará na Istoé uma reportagem intitulada “Dona Marisa está viva e espera fuga de Lula na Etiópia”; o Jornal Nacional não dirá “Lulinha é dono da Friboi”; nem se noticiará que “Sérgio Moro é agente da CIA” na Mídia Ninja.

Se esses espaços exploram esse viés de boato, nunca o dão como uma notícia factual. O que se encontrará é uma série de dados compilados em um tipo de narrativa que acaba permitindo essa interpretação – concorde-se com ela ou não. Dessa forma, dizer que a terra é plana não é uma fake news; se o lunático que pretende provar tal coisa discorrer sobre o assunto de forma a “prová-lo”, depende-se de aceitar a tese. Mas publicar que a Nasa afirmou que a terra é plana, isso sim, é fake news. São sentidos bem diferentes de uma mesma loucura.

O próprio MBL assim entende e por isso mesmo se utiliza de uma série de perfis falsos e outros expedientes que não permitam que sejam conectados diretamente como produtores de fake news. O fato de se portarem da mesma forma que os outros veículos já denuncia que nem eles mesmos acreditam que seja censura. Eles entendem os critérios e não arriscam a retirada da própria página.

Mas, para que servem as fake news a quem as publica? Se o conteúdo da mensagem está diretamente relacionado à credibilidade, seria um tiro no pé para tais veículos, não? Seria e é. A revista Veja é uma das vítimas do exagero da manipulação dos fatos a serviço de um propósito político. Só que as fake news servem a um propósito que só a ideia de rede coordenada pode revelar: elas estão muito mais interessadas na criação de um consenso do que no convencimento de que os fatos de uma determinada notícia são verdadeiros. As fake news se baseiam em algo que Goebbels não entendeu quando pretendeu banir o Der Stürmer: não é uma mentira repetida mil vezes que se torna verdade, é uma série de mentiras sobre um mesmo objeto que criam uma cultura em que qualquer mentira sobre aquele objeto possa ser vista como factível.

O filósofo e antropólogo Ernest Gellner definiu isso com precisão quando afirmou que uma cultura é uma coletividade unida em torno de uma crença e, mais particularmente, em torno de uma falsa crença. Para o pensador, a verdade está disponível a todos e por isso não define um grupo. É a aceitação da mentira que torna um indivíduo membro de um grupo. Como um ritual de passagem.

As fake news compreendem que as plataformas virtuais não são espaços públicos de debate, não são as ágoras virtuais que alguns otimistas ainda insistem em imaginar. Elas funcionam muito mais como fortalezas ideológicas. O seu papel é não só a confirmação dos preconceitos como também permitir que a esposa de César nunca pareça honesta. Mesmo que não se saiba qual seu pecado, importa que o número de fatos negativos sobre ela seja tão acachapante que a sua culpa fique formada de antemão. É por isso que a rede de distribuição das fake news é tão importante. Porque o objetivo final não é convencer que a esposa de César seja culpada de um fato específico, mas que seja culpada só pelo fato de ser a esposa de César.

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS