Elder Dias

Mais do que qualquer outra, a data de 16 de julho de 1950 é fundamental para a constituição da identidade do futebol nacional.

Um estádio monumental havia sido construído especificamente para que o País sediasse a Copa do Mundo e então recebia seu batismo de fogo, com a derrota inesperada do Brasil para o Uruguai, de virada, por 2 a 1.

Mais do que inesperada, inconcebível: durante a semana que antecedeu a final, todos já tratavam a seleção brasileira como campeã. Um jornal, O Mundo, chegou a postar uma manchete com os dizeres: “Estes são os Campeões do Mundo”.

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O Maracanã recebeu o maior público oficial de todos os tempos de um Mundial: 173.850 pagantes. Como os portões do estádio foram arrombados, estima-se que havia em torno de 200 mil pessoas presentes.

O primeiro tempo terminou sem gols, mas com menos de dois minutos da segunda parte, o Brasil abriu o placar, com Friaça, em seu único gol pela seleção.

1*9o7iq7kqDi6T0UQEbzfDmw - Maracanazo, 70 anos: mais do que uma derrota, um trauma
Manchete do “Globo Sportivo”, depois da primeira rodada da Copa: título do Brasil era dado como quase certo | Reprodução

A equipe, dirigida por Flávio Costa, vencia o jogo até os 21 minutos, quando Ghiggia cruzou e Schiaffino empatou.

Enquanto o então presidente da Fifa e criador do evento Copa do Mundo, Jules Rimet, descia da tribuna do Maracanã para o campo, com o objetivo de entregar o troféu ao Brasil – ninguém imaginava outra situação -, o Uruguai fez o segundo gol: Ghiggia, na mesma jogada pelo lado direito, em vez de cruzar, surpreendeu o goleiro Barbosa e chutou direto e forte, rente à trave esquerda.

Faltavam ainda 11 minutos para o fim do tempo regulamentar, mas todas as testemunhas são unânimes em falar que, daquele momento até o fim da partida, o estádio ficou em silêncio. O Brasil em campo não teve forças para reagir.

Jules Rimet não estava preparado para fazer um discurso para uma vitória uruguaia. Improvisou alguma coisa até que Obdúlio Varela, o capitão lendário da seleção vencedora, quase lhe tomou o troféu das mãos. Mais tarde, o jogador sairia à noite pelas ruas do Rio, para beber e chorar junto com os torcedores que tinha entristecido aquele dia.

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O Uruguai, cumprindo seu papel, causava ao Brasil um trauma não só esportivo como social e identitário. Um aprofundamento daquilo que o cronista Nelson Rodrigues, amante do futebol, chamaria de “complexo de vira-latas” e que só seria superado, de certa forma, com a conquista do Mundial pela primeira vez, em 1958, com Pelé e Garrincha, na Suécia.

Aquele 16 de julho foi, com certeza, a data mais trágica da história do futebol brasileiro. No esporte nacional, talvez só a morte de Ayrton Senna seja algo comparável.

Em tempo: alguém se lembraria do 7 a 1, outra derrota marcante, também em Copa e também no Brasil. Mas os memes e o deboche em torno do fato já desmerecem a analogia. A derrota de 1950 foi a tragédia; a de 2014, a tragicomédia.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.