Qual é a intenção da produção de um programa que pretende sabatinar políticos ao chamar o assessor de um antagonista para entrevistar sua convidada?

Imagine o petista Lula ir a um debate e encontrar na bancada Joyce Hasselmann, a jornalista que optou por virar panfletária da ultradireita? Ou Geraldo Alckmin encarando Paulo Henrique Amorim, que milita claramente pela esquerda e é um dos maiores críticos do tucano?

Se a questão é partir para o embate puro e simples, como uma arena romana de gladiadores, seria até algo excitante. Afinal, é baixaria que vem dando ibope e um questionador com esse perfil é meio caminho andado para tal.

Porém, se você, como produtor responsável de um programa conceituado e que vai sabatinar pré-candidatos, quer debater de forma propositiva, não dá para chamar alguém que vá estar ali para trollar a pessoa a ser entrevistada.

Ainda mais quando a pessoa em questão não faz qualquer exigência ou objeção à banca de arguidores. É desleal, é fora de qualquer jogo justo, chamar alguém que vá entrar de sola, com o objetivo não de debater, mas de destruir o entrevistado ou, no caso, a entrevistada.

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Frederico D’Ávila, o assessor de Bolsonaro que trollou a sabatina de Manuela: o que quis a produção do programa? | Reprodução TV Cultura

Para o Roda Viva com a deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila, pré-candidata do PCdoB à Presidência, convidaram ninguém menos do que um dos coordenadores da pré-campanha de Jair Bolsonaro – Frederico D’Ávila, que apesar do sobrenome não tem parentesco algum com a convidada. Travestiram-no, na apresentação, de diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Sempre que teve a palavra, em vez de perguntar, o dublê de entrevistador a atacava. Questionou-a sobre o fascismo supostamente ser “de esquerda” e Mussolini, uma espécie de pai da ideia da CLT; referiu-se a episódios familiares na Alemanha Oriental, na Romênia e outras partes da Cortina de Ferro; incluiu na pauta o MST e movimentos “invasores”. Como repórter, enfim, foi um perfeito assessor de imprensa do postulante de extrema-direita que defende.

Mas não foi apenas ele o estorvo para a comunista. Durante os 80 minutos de sabatina, o Roda Viva se transformou em um corredor polonês, em que Manuela precisou se defender de acusações que não tinham a ver com ela e de crimes e condenações que não lhe diziam respeito.

A mesa de entrevista se esqueceu do que ela pretende propor para o País, até por não acreditar: a) que ela possa ser eleita; e b) que suas ideias precisariam ser respeitadas e debatidas (afinal, era uma sabatina).

Manuela mão no ar - Manuela D'Ávila é chamada para o "Roda Viva" e encontra um corredor polonês
Manuela D’Ávila teve de responder a questões alheias a seus projetos na maior parte da entrevista | Reprodução TV Cultura

Já que não tinham do que acusá-la (afinal, tem ficha limpa, estando já em seu quarto mandato como parlamentar e tendo sido antes vereadora e deputada federal), Manuela D’Ávila foi usada como trampolim para atingir o PT e a esquerda em geral. Quando sobrou algum espaço para discussão de negociações eleitorais, teve sua postulação colocada como menor em relação aos demais nomes da esquerda e como aquele que talvez fosse descartável

Observe que só agora vou falar das interrupções que ela sofreu (e que foram o centro da polêmica nas redes durante toda a terça-feira): 62 vezes, segundo a versão anunciada; 38, segundo minha contagem mais condescendente. Ainda assim, um número muitíssimo acima das 8 interrupções que Ciro Gomes sofreu durante o mesmo programa. É o que se chama de manterrupting, o termo inglês cunhado para as interrupções da fala de uma mulher por homens.

Na verdade, Manuela foi interditada pela intolerância de homens e mulheres ali presentes. Uma relação de poder que a menospreza por sua idade, suas posições e (principalmente) seu gênero. Buscaram desacreditá-la do início ao fim. Uma pena que um programa tradicional e sua produção se submetam a esse expediente para passar um pano de “democrático” sobre si mesmo. Vendo por esse ângulo, colocar como cavalo de Troia um assessor bolsonarista foi só a cereja do bolo.

Como a deputada disse durante o interrogatório – não se pode chamar aquilo de entrevista ou sabatina -, “para a mulher é sempre mais difícil fazer política”. É sempre mais difícil a vocês fazer tudo, Manuela. Sei que disse isso também, mas é necessário reafirmar.

O que tirar de bom de tudo isso, se é que é possível, afinal? Ressaltar a coragem e a postura que ela teve durante todo o programa, não baixando a guarda e desmascarando a hostilidade premeditada. E, quem sabe, ver como será composta a bancada de Geraldo Alckmin, daqui a algumas semanas. Será que vai ter “esquerdista” para entrevistá-lo?

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.