São Luís, a capital do Maranhão, é apenas uma das várias localidades que sofrem e das que sofrerão duramente com a pandemia do novo coronavírus no Brasil.

A Justiça determinou lockdown desde a terça-feira, 5/5, na cidade e em mais três municípios da região metropolitana.

É que, ainda sem que tenha sido alcançado o pico de contágio, por lá o sistema de saúde pública já está no limite da capacidade.

Então, é preciso com urgência evitar ao máximo que as pessoas continuem se contaminando, por causa de uma conta simples juntando três fatores: número de leitos; quanto tempo cada um dos leitos ficará ocupado por doentes de covid-19; e quantos doentes precisam desse tempo (internação) e desse espaço (leito).

O que é o lockdown? O termo foi usado originalmente para nomear o protocolo que foi criado para, durante uma rebelião, manter detentos em suas celas até que fosse restaurada a ordem no presídio.

Em um cenário de pandemia, o lockdown é para evitar esse outro tipo caos, o do sistema de saúde.

Palavras têm vida e mudam de sentido.

E as vidas também mudaram de sentido pela dinâmica da natureza. Uma simples mutação, o surgimento de um vírus perigoso e todos agora precisam se fazer detentos. A humanidade inteira somos hoje reféns do coronavírus.

Para impedir sua entrada no organismo, a forma de se preservar e esticar o tempo até haja uma vacina ou medicamento eficaz é só uma: ficar quieto em casa.

O aprisionamento voluntário, a pedido das autoridades, foi em princípio, razoavelmente aceito na maior parte do País e bem aceito em outra parte. Era o chamado isolamento social, apelidado de quarentena.

Serviço perdido. Um isolamento relaxado muito precocemente, mas que, ainda assim, serviu para quebrar a progressão geométrica inicial e atrasar a disseminação do vírus.

Por não ter feito direito a primeira parte, vem então o confinamento obrigatório, uma expressão em português para  o lockdown agora vira o único recurso para muitos centros urbanos. E aqui temos um problema.

Uma coisa é fazer lockdown em Milão, Londres, Madrid ou Nova York. Outra, bem diferente, é em São Luís, Belém, Manaus e Rio de Janeiro.

E a diferença tem nome: desigualdade social.

Do arrocho à asfixia

A prova foi a esquizofrenia da medida no Maranhão: numa cena, o centro histórico de São Luís totalmente controlado e vazio; noutra, a aglomeração na periferia, onde até ambulância teve dificuldade para transitar.

O mesmo fenômeno se repetiu em Belém: bairros mais ricos cumprindo o confinamento; nos mais pobres, a saída às ruas para ganhar algum trocado.

Se isolamento já é sufocante para pequenos empresários, assalariados e ambulantes, lockdown é asfixia. Não dá para manter à força, e sem um custo social enorme, uma favela com todo mundo dentro dos barracos; e nas palafitas de Manaus, como fazer?

Não é à toa que as primeiras medidas nesse sentido vêm do Judiciário. Medida extrema, que têm consequências sérias.

Para o lockdown ser efetivo, seria necessária uma congruência de interesses de todos os envolvidos, das diversas esferas de poder e de governo até as pessoas dos bairros mais carentes.

Pessoas têm interesse em ficar saudáveis, desde que sua subsistência esteja garantida.  Governadores e prefeitos também demonstram preocupação com a situação nas cidades-epicentro.

Mas, e o governo federal? Até quando manterá a postura agressiva e oposta à proteção da saúde, apostando inútil e irresponsavelmente na abertura inviável da economia já agora?

goiania corona caixa 300x180 - Lockdown versus desigualdade social: como isso pode dar certo no Brasil?
Aglomerações em agências da Caixa para receber o auxílio emergencial: risco alto de contágio

Até para a ajuda emergencial aprovada por lei, distribuída por meio de seu banco estatal, o governo parece ver a ação como um favor: a desorganização e o excesso de gente nas filas, a falta de observância do distanciamento de segurança, tudo isso compõe um quadro que parece coisa premeditada para forçar os pobres a se manterem nas ruas.

Será que não se percebe, no Palácio do Planalto, que quanto mais tempo demorar pra termos uma voz uníssona pedindo para ficar em casa, mais tempo terá de ficar depois sem sair de casa de forma obrigatória?

Pela ida repentina ao Supremo Tribunal Federal (STF) por parte do presidente Jair Bolsonaro, na manhã desta quinta-feira, 7/5, cercado de ministros e megaempresários, pressionando pela abertura do isolamento de Estados e municípios, parece que serão necessárias algumas dezenas de milhares de corpos.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa    #SeSairUseMáscara


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.