Quem quiser ter uma noção daquilo em que o Brasil está se transformando deixe agora o que está fazendo e vá percorrer a parte dos comentários dos grandes portais a respeito da desistência do mandato e do autoexílio do deputado federal reeleito Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Se você quer alguma explicação sobre o que o fez tomar essa atitude radical, já começará a entender bastante lendo o que está publicado naquela espécie de latrina virtual das notícias dos sites.

Se você quiser continuar a entender, faça um exercício que falta exatamente a quem está comemorando agora esse fato como uma vitória: é o exercício da empatia.

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Jean Wyllys no Congresso: deputado federal abre mão do mandato por medo de morrer | Marcelo Camargo / Agência Brasil

Tente se colocar, primeiro, como gay. O bichinha da sala, aquele que sofreu um monte na mão dos machões do colégio, que foi humilhado, escorraçado, agredido verbalmente e fisicamente desde a infância. Alguém que não pode expressar seu amor em público, ou mesmo seu desejo, como faz abertamente a maioria de héteros. Homem e mulher de mãos dadas no shopping: que romântico! E homem com homem, mulher com mulher, na mesma situação: que perdição, que safadeza, que escracho! E, repare bem: eu estou falando de andar de mãos dadas!

Tente se colocar como socialista, agora. Uma pessoa que preza, como ideologia, que todos têm de ter o direito a viver em condições igualitárias, sem graves desigualdades sociais e de renda, que acredita no poder do Estado para dirimir essas discrepâncias. É uma forma de ver a vida, não? De repente, ser socialista se torna um xingamento. Você agora é um pária, um apoiador de ditaduras que não são as minhas, um ladrão de cofres públicos, um protagonista da imundície moral.

Mais do que isso, você é também professor. Alguém que ganha pouco e trabalha muito, em sala de aula lecionando, em casa corrigindo provas ou as elaborando, lendo para se aperfeiçoar e ganhando, com tudo isso, a fama de “vagabundo” e “militante da ideologia de gênero”. Imagina então um professor socialista e gay assumido.

Além de tudo, você é político. De um partido que teve uma vereadora da sua cidade executada provavelmente por milicianos. Vereadora de seu partido. Milicianos que têm ligações, não se sabe ainda de que nível, com um político. Político que é filho do presidente da República. Presidente do qual você é uma espécie de arqui-inimigo, com o qual já teve contendas graves, incluindo uma cusparada. Um presidente que já avisou que as minorias “ou se adequam ou simplesmente desaparecem”.

Você tem o importante cargo de deputado federal. Mas, fora do plenário (quando não dentro dele), sua vida é vivida pela metade: por suas posições pessoais e ideológicas, as ameaças de morte são frequentes e a escolta policial permanente é uma necessidade, para ir à padaria, ao cinema, a um casamento, a um happy-hour.

Jean Wyllys tem todas as razões para querer ir embora daqui. A principal delas é a sobrevivência. Seu embarque no aeroporto internacional só com passagem de ida, porém, será uma grande derrota para todos nós, inclusive para os que vão lhe dizer um debochado “tchau, querida” e fazer vídeos festejando a ocasião (vai acontecer, anote).

Como escreveu um colega, o jornalista Rogério Godinho, “não faz a menor diferença a discordância que qualquer pessoa tenha com Jean Wyllys. Não importa. Nosso país se torna (ainda) menos civilizado quando uma pessoa pública — neste caso um representante do povo — é forçado a deixar o país sob ameaça de morte”.

A decisão de Jean Wyllys é algo muito triste, porém totalmente compreensível. Triste por ser um sintoma grave da falência do Estado de Direito em nosso País; compreensível porque não dá para ser um alvo óbvio e ter qualidade de vida ao mesmo tempo.

No fim, perdemos todos, inclusive os tolos que comemoram.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.