Dizem que a história é cíclica, que os fatos trágicos de outra acabam por se repetir, mas como farsa, que o mundo dá voltas.

Enfim, há várias maneiras de dizer algo parecido. E está havendo, no governo(?) de Jair Bolsonaro, algo parecido com o passado que vai além do admitido saudosismo do regime militar por parte do presidente.

Com a escalada de crises do Executivo das últimas semanas, notadamente no Ministério da Educação e na (falta de) articulação política, agravadas pela abertura da caixa de Pandora – vulgo sigilo bancário – de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), a natureza notadamente conspiratória tomou conta de vez do corpo e da alma do presidente.

Jair se torna, cada vez mais, um Jânio Quadros da era digital. Ao substituir Juscelino Kubitschek na principal cadeira do Planalto, o mais folclórico político dos anos 60 impôs ao cargo seu estilo cheio de manias, entre as quais a de governar por bilhetinhos.

Ninguém desconhece que o atual ocupante do posto ama as redes sociais como forma de comunicação. Assim, fala diretamente com seu público – não exatamente com o povo, embora ele creia nisso.

Sendo assim, e crendo nesse artifício, nesta sexta-feira, 17/5, o presidente compartilhou um texto de autoria supostamente desconhecida que fazia uma análise nada favorável a seu governo, colocando-o como vítima de um sistema duro de vencer.

É como se o presidente assinasse no fim de uma carta que falava de sua própria incompetência para lidar com o sistema. Então, se é o caso de o governante não governar por essa razão, sobra qual saída? A saída de um dos dois: ou do presidente ou do sistema.

Ato contínuo, segundo parlamentares, o presidente teria compartilhado postagens um tanto inadequadas ao cargo – a informação é do site O Antagonista.

O convite é para sair às ruas no domingo, 26/5, dizer basta aos corruptos e apoiar a Operação Lava Jato e o pacote anticrime de seu ministro Sérgio Moro.

Até aí, tudo bem, ou dos males, o menor – os grupos Vem Pra Rua e #NasRuas, citados em um dos banners, negam estar participando da movimentação. Mas uma das postagens é muito grave por outro motivo: fala também em impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). No caso, Gilmar Mendes e ninguém menos que o presidente da Casa, Dias Toffoli.

protesto bolsonaro convoca3 - Jair Bolsonaro vai se tornando o Jânio Quadros da era das redes sociais
Imagens que teriam sido compartilhadas pelo presidente Jair Bolsonaro em seus grupos de WhatsApp, segundo deputados | Reprodução

Note: se realmente a informação do site procede, isso é um presidente do Executivo avalizando um panfleto que pede a saída do poder da maior autoridade do Judiciário. Isso não é pouco!

Não à toa, por conta de toda a semana atribulada, com declarações absurdas, manifestações gigantes, investigação de filho senador, parentes e ex-funcionários, a guerra comercial tenha sido só um detalhe na subida brusca do dólar: em um dia, a moeda passou a custar 10 centavos de real a mais.

Como presidente, Bolsonaro comporta-se como inconsequente. Em vez de apagar incêndios, joga gasolina no fogo. Ninguém imagina um País vivendo nesse nível de estresse durante tanto tempo. O próprio mercado não suporta, como se vê. As perspectivas da economia brasileira, que tinha se estabilizado no fim do governo Temer, só pioram.

Com tudo isso, não foi à toa que a hashtag @ImpeachmentBolsonaro tenha liderado entre os assuntos mais comentados no Twitter, onde o presidente e sua turma costumam reinar. É surreal que isso seja totalmente natural com menos de cinco meses de governo.

À tarde, subiu outra hashtag: #BolsonaroNossoPresidente. A polarização que aconteceria. É a reação dos bolsonaristas no ambiente em que seu líder se sente confortável. A cadeira presidencial parece ter uma estrutura muito real.

Bolsonaro parece apostar sempre em um duelo entre sua turma e a dos conspiradores. Vivendo em sua bolha virtual, comandada por seu filho Carlos Bolsonaro, acredita contar com “combatentes” suficientes para vencer o sistema.

Em 1961, com sete meses de governo, Jânio Quadros, imerso em seu mundo particular, apostou tudo na renúncia como uma forma de arregimentar apoio popular. Deu errado e o resultado foi trágico. A história, adaptada, ameaça se repetir.

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.