Era 2009. O Goiás vivia não apenas o sonho de buscar uma vaga à Libertadores, mas, a partir de uma campanha criada por torcedores – um deles, Elias Júnior, se tornaria depois diretor de marketing do clube -, a massa esmeraldina queria mais:

“EU ACREDITO NA ESTRELA DOURADA”

Era uma alusão ao título nacional como objetivo e à consequente troca da cor do adorno prateado do escudo, que ostentava a lembrança pelo título da Série B de 1999.

Pra completar a fase de autoestima verde nas alturas, Fernandão voltava do mundo árabe direto para o Goiás, que ali vencia a batalha para ter o jogador contra times como São Paulo, Santos e Internacional.

Naquele agosto de 2009, o campeão mundial revelado na Serrinha desceu de helicóptero no meio do gramado do Serra Dourada, antes de um jogo contra o… Flamengo.

Na véspera do confronto, o verborrágico Hélio dos Anjos – que era o treinador do Verdão, havia feito uma declaração contundente contra os torcedores mistos:

— Tenho ódio desses flamenguistas do interior de Goiás. Eles são uma vergonha, não têm identidade nem caráter para honrar a própria terra. Pelo contrário, vestem a camisa do Flamengo, ou de qualquer outra grande equipe de fora, e vão ao estádio torcer contra um time do seu Estado.

A declaração era e é intolerante e reprovável, principalmente tomando por base o que vemos hoje como consequência de pensamentos sectários, no Brasil e no mundo. Uma coisa é ser bairrista, orgulhoso de suas raízes; outra coisa é preconceito e xenofobia.

De qualquer forma, esse desabafo irado do então técnico do clube, juntado à campanha da torcida pela Estrela Dourada refletiam, na verdade, a vontade que aquele Goiás de dez anos atrás tinha de ser mais do que era. A chegada de Fernandão coroava o momento.

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No Goiás x Flamengo de 2009, a polêmica faixa contra os torcedores mistos | Reprodução

Naquela noite de meio de semana, o estádio estava, sim, dividido em dois lados entre esmeraldinos e flamenguistas. Contra estes era apontada uma faixa com os dizeres “falsos goianos, vergonha de Goiás”.

Primeiro tempo: 2 a 0 Goiás, com Amaral e Léo Lima. Adriano e Petkovic empataram e, aos 45 minutos do segundo tempo, Iarley marcou. Era o gol da vitória esmeraldina. Um gol que consolidava a grandeza daquela atmosfera de sonhos. Que dia! Que noite!

Nem eu nem ninguém que estava ali naquele estádio poderia imaginar que o Goiás de dez anos depois entraria no Serra Dourada como um penetra na festa alheia.

Também nenhum ali imaginaria, projetando 2019, qualquer jogo em que os esmeraldinos fossem uma minoria evidente na arquibancada. Pelo contrário, a ideia corrente era oposta a isso.

Mas aqui estamos nós, em meio à polêmica da divisão do estádio e, mais, da inevitável invasão no lado verde por rubro-negros infiltrados (o que aumenta o risco à integridade física, em vez de diminuí-lo, como na estranha alegação/recomendação da Polícia Militar).

A decisão dos dirigentes em priorizar o lado financeiro em vez de marcar posição na geopolítica do futebol, algo contestado pela maioria dos esmeraldinos mais atuantes, não se explica pelo agora: ao contrário, é reflexo do que ocorreu entre 2009 e 2019. É consequência do projeto de apequenamento do clube que se implantou desde então.

Vários foram os alertas que a torcida deu e continua dando de modo a tentar acordar a diretoria para que ela, então, devolva o Goiás ao rumo do engrandecimento. Não adianta construir arena suntuosa se o discurso e o posicionamento não apontam para algo além da mediocridade.

Protestos e atos pedindo pelo resgate da grandeza do clube marcaram esse intervalo de dez anos. Foi assim com o Vem Pra Rampa, em 2015; com a Democracia Esmeraldina, no mesmo ano; com a União Esmeraldina, nos tempos atuais. A torcida quer um Goiás muito maior do que o percebido pelos inquilinos da Serrinha.

O jogo desta quinta-feira é um retrato do momento que vivemos. O Serra Dourada estará cheio logo mais, mas não com a lotação que aqueles que estiveram lá, naquele 3 a 2 de 2009, imaginavam ver. Faltou grandeza durante esta década.

LINCOLNEANAS

 * * * * *  A volta de Gilberto ao meio de campo do Goiás, depois de contusão que o tirou de vários jogos, é a melhor notícia que poderia ser dada à torcida. Com ele, o comportamento defensivo tem sido outro.

 * * * * *  Ninguém pense que o Flamengo vai aliviar o pé. O técnico Jorge Jesus é como um Bernardinho do gramado. E deve estar puto até hoje pelo magro 1 a 0 contra o CSA, ainda mais com o adversário merecendo o empate no segundo tempo. Se o Goiás souber aproveitar esse ponto de pressão e Michael aparecer (como quase sempre ocorre em jogos grandes), há alguma chance.

 * * * * *  Ainda em tempo, sobre domingo: a TV Anhanguera tinha a opção de transmitir o jogo em Curitiba. Não a exerceu, por conta de custos. Uma empresa que quer realmente valorizar a goianidade não teria perdido a oportunidade de mostrar isso.

 * * * * *  Para rever os gols do Goiás 3 x 2 Flamengo de 2009, clique aqui.

 * * * * *  O jogo é jogado. Quem morre na véspera é só peru de Natal.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.