Era 12 de março de 2017. Michael se tornava celebridade instantânea pedindo música no Fantástico, após detonar o Vila Nova em Goianésia com três gols, numa goleada por 5 a 0 em que o artilheiro Nonato (que fez dois gols) virou coadjuvante.

Eu já sabia de sua origem no terrão, onde ficou conhecido como Porrinha. Na semana que começava, então, propus à equipe do Jornal Opção, do qual eu então era redator-chefe, que fizéssemos uma matéria com o garoto, então com 21 anos.

Acabei sendo eu mesmo o encarregado da pauta, que – tenho certo orgulho de dizer isso – foi o primeiro texto mais amplo na imprensa focado na história daquele baixinho habilidoso. Então, com um providencial intermédio de sua então namorada, conversei com Michael por quase uma hora via ligação de Whatsapp. As informações deram corpo a um texto-perfil que ainda hoje está on-line pelo jornal (confira aqui, mas combinemos de antes concluir a leitura deste artigo).

Diziam então que ele já estava contratado pelo Goiás. E estava. Um mês depois se apresentava na Serrinha. Dois anos e sete meses se passaram desde então. Diziam que ele era jogador de pelada. Depois, que era jogador de Campeonato Goiano. Depois, ainda, que só dava conta de Série B.

E Michael, a despeito de todas as desconfianças – por seu tamanho, sua envergadura, sua origem, pela falta de base, tudo era motivo de um olhar torto – se tornou uma das principais figuras da Série A de 2019.

O jeito de lidar com a imprensa, com os colegas de trabalho, com as pessoas que lhe cercam, mostram que Michael não é mesmo deste mundo do futebol. Ele tem em si a pureza da resposta das crianças, como dizia o poeta Gonzaguinha, e isso encanta e surpreende num mundo regado à malandragem e cheio de declarações prontas.

Esta segunda-feira tivemos a prova definitiva disso, o atacante esmeraldino comoveu a redação do canal Fox Sports e fez o ex-craque Edmundo chorar ao vivo, contando sua história (quer ver? clique aqui então). Os demais jornalistas ficaram sem ação, sem ter o que perguntar!

Michael e crianças 2 428x300 - Fica, Michael: é hora de pedir ao Goiás para pensar além do dinheiro
Michael e as crianças: uma relação mais do que especial, genuína| Rosiron Rodrigues (Goiás EC)

Não por acaso, os olhos das crianças brilham por Michael. É o jogador-alvo delas na hora de entrar em campo: ele teria de ser um polvo para dar conta de todas as mãozinhas que querem lhe segurar para entrar no gramado. E é assim porque elas veem nele, além do craque que é, algo que é próprio delas e que foi citado aí atrás, dois parágrafos acima.

Para a torcida esmeraldina em geral, o moleque da camisa 11 representa o resgate da autoestima e da vontade de ir ao estádio ver um jogo do Goiás. Um amigo conta que já não fica mais nas arquibancadas, tem de subir para as cadeiras. O motivo é nobre: sua mãe, idosa, agora quer ir ao Serra todo jogo, “ver o Michael”.

São coisas que não têm tanta consequência material imediata ($$$), mas que agregam valor à imagem da instituição de forma forte e rápida. O Goiás passou a ser o “clube do Michael” não só pelo que ele produz em campo – o que já tem sido bastante –, mas por tê-lo acolhido e o revelado, expondo ao País toda essa história de vida e de superação por meio do esporte.

E é exatamente por isso que este Blog lança um desafio para ser encampado pela torcida junto à diretoria: não podemos deixar esse garoto ir embora tão fácil. Segurem Michael pelo maior tempo possível – seja por meio do aumento da multa rescisória, seja por uma negociação que implique sua permanência por aqui mais uma ou duas janelas de temporada.

Será não só pelo retorno que ele traz tecnicamente, mas também pelo que ele se tornou como símbolo do melhor do futebol, dentro e fora de campo, em meio a tanta boleiragem.

Não se acha um jogador com tudo isso todo dia. Precisamos menos do dinheiro do que de uma referência assim para o Goiás Esporte Clube.

Fica, Michael!

LINCOLNEANAS

 * * * * *  Ao contrário da maioria, não achei que o Goiás foi tão pior assim contra o Avaí, tomando como base o já memorável 2 a 2 com o Flamengo. Era outro tipo de jogo e os times da zona de rebaixamento estão vendendo caríssimo suas derrotas – o próprio Avaí só foi derrotado por um magro 1 a 0 no Morumbi e o CSA fez os líderes suarem sangue pela vitória no Maracanã e repetiu o mesmo com o Athletico domingo passado.

 * * * * *  Também indo na contramão do que muita gente da torcida criticou, considero que o público do domingo foi acima da expectativa para um jogo naquele horário – e ainda em dia de Enem. No mínimo havia 3 mil presentes a mais do que um ou dois meses atrás. Isso certamente já é consequência da fidelização promovida pelo Sou Verdão, o programa de sócio-torcedor. Só por isso já valeu a pena subir o valor do ingresso contra Corinthians e Flamengo.

 * * * * *  Um clube disputa competições para alcançar o maior objetivo possível. E o possível agora é ir para a Libertadores. Ninguém, nem torcida nem jogadores nem diretoria – pode pensar menos do que isso.

 * * * * *  Não custa nada imaginar: alguém já vislumbrou o que seria a dupla Michael & Walter no melhor de sua forma física?

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.