Começa nesta terça-feira o governo de Jair Bolsonaro, o terceiro militar eleito presidente e o primeiro da história da República, depois de Hermes da Fonseca (1910-1914) e Eurico Gaspar Dutra (1946-1950).

O novo chefe do Executivo nacional, porém, nunca escondeu – pelo contrário, sempre ressaltou – sua admiração pelo regime militar que esteve à frente do País por 21 anos, até 1985. Esse fato levou as redes sociais, especialmente os críticos ao novo governo, a uma frase bem irônica sobre o réveillon:

Onde vocês vão passar a virada de 2018 para 1964?

Claro que os apoiadores do novo governo não assimilaram bem a ironia. Mas o fato é que, à parte os contextos histórico e político bem diferentes e em um mundo totalmente transformado pela tecnologia, há sim algumas semelhanças entre esses dois Brasis separados por mais de meio século.

 1  Combate ao “perigo” comunista

Uma das ênfases de Bolsonaro e seus apoiadores durante sua trajetória política e também durante a campanha presidencial foi sempre associar o PT ao socialismo/comunismo, um pacote no qual foram enquadrados tudo e todos os que adotaram posições divergentes de sua linha de pensamento. Não são poupados nem empresas de ponta do capitalismo, como a Rede Globo e o Facebook. A diferença é que nos anos 60 o mundo estava realmente polarizado entre Estados Unidos e União Soviética e havia motivos, ainda que não imediatos, para imaginar que a esquerda assumisse o comando do País, no que a ida do então presidente João Goulart à China e suas reformas de base contribuíram para esse discurso.

 2  Exaltação do patriotismo

A presença da bandeira e das cores nacionais na campanha de Bolsonaro, reforçada pelo parte de seu slogan (“Brasil acima de tudo”), provocou uma onda verde-amarela somente vista em tempos de Copa do Mundo. O entusiasmo patriótico contra a chamada “ideologia globalista” se assemelha em muito ao sentimento que em 1964 levou milhões de brasileiros – principalmente das classes média e alta – às ruas para dizer que “nossa bandeira jamais será vermelha”, um lema que é recorrente desde então, tendo sido usado também pelo então candidato Fernando Collor em 1989.

 3  Respeito à Constituição como promessa

Um dos primeiros atos do general Castelo Branco ao assumir o poder após a derrubada de Jango do poder foi, no Congresso Nacional, jurar respeito à Constituição vigente. Jair Bolsonaro tem reforçado também que obedecerá os princípios da Lei Maior do País. A pergunta: a insistência nessa declaração vem do fato de que, como parlamentar e candidato, havia feito várias vezes declarações abertamente anticonstitucionais, como a de que fecharia o Congresso, fuzilaria adversários e boicotaria veículos de comunicação?

 4  Presença de militares no poder

Assim como em 64, embora agora pela via eleitoral, o governo Jair Bolsonaro leva ao Palácio do Planalto um numeroso contingente de militares de todas as Forças. Se por um lado isso é natural, haja vista sua origem e história de vida, é importante observar que em vários governos do período militar havia mais participação civil nas pastas do primeiro escalão do que a lista que o novo presidente leva para Brasília neste início de mandato.

 5  Discurso revolucionário

A tomada do poder pelos militares foi chamada, durante muito tempo, de “Revolução de 64”. A ideia era caracterizar o período como uma mudança total de cultura, em que se deixava para trás, na política, vícios como o da corrupção. Da mesma foram, Bolsonaro chega ao poder evocando para si a imagem de um governante que nunca foi maculado por ato de corrupção e alguém que vai “mudar tudo o que está aí”.

 6  Messianismo e discurso conservador religioso 

A segunda parte do slogan de campanha do agora presidente afirma: “Deus acima de todos”. A importância de lideranças de várias denominações e a adesão incondicional de um grande número de cristãos à candidatura de Bolsonaro sempre acenaram para uma tomada da política pela religião. A escolha de uma pastora evangélica (Damares Alves) para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos também aponta nesse sentido. Nada que não houvesse também em 1964, quando religiosos conservadores, numa grande maioria de católicos, reelaborando o lema integralista “Deus, Pátria e Família” no movimento Tradição, Família e Propriedade (TFP), de Plínio Corrêa de Oliveira.

 7  Adesão de veículos da grande mídia

Assim que os militares tomaram o poder e João Goulart se exilou no Uruguai, os grandes jornais da época, que já combatiam o governo, exaltaram e apoiaram incondicionalmente a ação dos novos comandantes do País. Ainda durante o curso da campanha eleitoral, Jair Bolsonaro conseguiu a declaração de apoio de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record; logo depois das eleições, o proprietário do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Silvio Santos, também se posicionou a favor do então presidente eleito pelo PSL.

Semelhanças, porém, não determinam a história. Ela pode até ser pendular, mas não se repete. O Brasil, pela intervenção de seus políticos, segue seu curso para melhor ou pior, mas sempre de modo diferente.

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Estádio das Coisas
A arena para todos os debates