Sou de centro-esquerda e isso não quer dizer que eu esteja me isentando de ser chamado de “esquerdista” ou “comunista”, termos que passaram a soar pejorativos no triste Brasil atual.

Sou de centro-esquerda porque minhas convicções político-sociais não chegam a ser o que eu considero socialismo.

Mas o fato é que, para parte considerável da população, de Sérgio Moro a Guilherme Boulos todo mundo é “comunista”. Basta se posicionar contra o ocupante da cadeira central do Palácio do Planalto.

Em 2018, mesmo antes de ser preso, talvez Lula fosse minha última opção entre presidenciáveis em quem votaria.

Além de já ter sido e eu discordar desse retorno eterno ao poder e sem entrar no mérito de todos os processos legalmente indecentes que a ele impuseram, ele me parecia radicalizado demais para os tempos que se avizinhavam.

Entretanto, se ele pudesse ter sido candidato e chegasse ao segundo turno contra o que hoje é o atual presidente, eu não teria como não votar em Lula no segundo turno de 2018.

Obviamente, diante do cenário que o País então vivia, sinceramente eu não gostaria de vê-lo presidente de novo. Mas não teria dúvida alguma sobre meu voto, dadas as condições do parágrafo anterior.

De fato, até uma eventual vitória de Fernando Haddad, a quem considero um grande ser humano, politicamente moderado e preparado para a função – traria uma perspectiva complicada pela frente, pela conjuntura política desfavorável que se imporia por conta do viés radical anti-esquerda.

bolsonaro intervenção scaled - Falsa simetria entre Lula e Bolsonaro, mais do que rechaçada, deve ser repelida
Em plena pandemia, Bolsonaro discursa em manifestação contra a democracia | Pedro Ladeira / Folhapress

Nada, porém, que se pudesse comparar a uma ascensão da figura de Jair Bolsonaro ao poder.

Uma figura que sempre deixou bem claro seu apreço nulo à democracia e que, no Congresso Nacional, louvou um torturador para humilhar a presidente torturada.

Mas o político “antissistema” que ficou 30 anos como parlamentar do sistema sem produzir absolutamente nada chegou lá.

E, como temos visto desde o começo de 2019, mas principalmente a partir da chegada do novo coronavírus ao Brasil, não tem frustrado as perspectivas mais ruins sobre sua passagem pela Presidência.

Apenas durante a pandemia, já foram inúmeras as vezes que por atos, palavras e omissões (porque pensamento a gente não acessa) se revelou a que veio o “mito”. Vidas não importam; importa a economia não parar, importa não dar palanque aos raros que fazem bom trabalho no governo mas possam se transformar em candidatos, importa não prejudicar a reeleição. Mesmo que se pise em uma montanha de cadáveres.

Pois no mesmo dia em que o Brasil superou a marca das mil mortes por covid-19 em um só dia, o presidente fez uma piada usando a rima ina: “Para a direita, cloroquina; para a esquerda, tubaína”. E caiu na gargalhada.

Mas o chiste tosco, infeliz e desumano só se somou às dezenas de expressões e pronunciamentos toscos, infelizes e desumanos.

O que rendeu mesmo foi o que disse Lula. Ao condenar as privatizações e o liberalismo, ele também usou uma expressão tosca, infeliz e desumana:

“ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus”

Não tem frase infeliz que possa ser justificada por qualquer contexto, mas por questão de entender a motivação, é necessário explicar que o ex-presidente fazia uma crítica ao liberalismo e especificamente à agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes:

“Eu, quando eu vejo os discursos dessas pessoas falando… Quando eu vejo essas pessoas acharem que tem que vender tudo que é público e que tudo que é público não presta nada… Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus. Porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises.”

Lula se desculpou horas depois, mas o erro já estava feito.

E o conteúdo, importante a se analisar e avalizado até mesmo por parte dos próprios liberais no cenário da crise mundial atual, foi totalmente esquecido.

Ficou o linchamento à forma, a como o petista se referiu a uma catástrofe que está vitimando centenas de milhares mundo afora e terá ceifado a vida de mais de 20 mil brasileiros até o fim da semana.

Em oito anos ocupando aquela cadeira central do Planalto, Lula errou várias vezes – e nem estamos aqui falando das suspeitas de corrupção.

Mas jamais fez atentados à humanidade como os que têm sido cometidos dia após dia pelo presidente e muitos de seus assessores diretos – por palavras, atos e omissões, repito.

É verdade que Lula, desde que deixou a prisão, tem se mostrado anacrônico em várias declarações. Mas Bolsonaro é anacrônico de nascença.

Usar essa comparação é na verdade ser usado em um jogo que tenta igualar dois desiguais: nenhum líder político brasileiro atual e nenhum presidente eleito merece ser comparado a Jair Bolsonaro.

Fazer isso é usar uma falsa simetria, ou por ingenuidade ou falta de leitura política, no caso da maioria, ou por mera ausência de caráter, pelos engajados na disputa.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.