Texto 1 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, com reflexões sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus

Marcelo Brice

Acompanho mais do que deveria o noticiário político e as análises que decorrem disso. Há, entre os analistas e opinadores de plantão, a dúvida frequente sobre quando “a grande ficha” vai cair.

De modo mais assertivo: quando Bolsonaro vai ser rejeitado, ou quando o bolsonarismo vai deixar de motivar os andaimes da vida nacional.

Ou, também, quando a elite se livrará do negacionismo, da irresponsabilidade social, da volúpia antipovo e escolherá por modos mais razoáveis, ainda assim não progressistas, porém mais afeitos aos valores civilizatórios e menos grotescos em relação aos que hoje nos colocam em falsos dilemas. Por exemplo, entre uma democracia formal e liberdade de mobilização ou uma intervenção brusca e agressiva que coloque a suposta casa em ordem.

Não estamos falando de uma oposição utópica, nas atuais condições nacionais, entre a emancipação humana e a grosseira e fantasmagórica imagem da morte, essa que nos é distante até que bata à porta de casa.

“Cotidianamente, cada atrocidade (é só ler as manchetes e ver) impulsiona um sem número de “arrependidos” do voto – algo tardio, porém, ainda assim, um dado relevante”

As intempéries em relação à não coordenação do governo federal quanto ao efetivo, bem planejado e difícil, porém transparente, combate à propagação da Covid-19 e a contaminação institucional e da cultura política que faz o governo nefasto do capitão forçadamente aposentado nos colocam, cada dia, em contato com o que de pior a política nacional produziu e movimenta.

Cotidianamente, cada atrocidade (é só ler as manchetes e ver) impulsiona um sem número de “arrependidos” do voto – algo tardio, porém, ainda assim, um dado relevante.

Muitos analistas dizem que, se os progressistas quiserem avançar, deverão deixar de lado o “eu avisei”, esse “jogar na cara” dos bolsonaristas de ocasião a cilada em que nos metemos todos. É e não é verdade.

É verdade, porque de fato há um mecanismo ideológico e psicológico envolvido na afirmação. Na medida em que se explora a contradição, para aqueles que não se dispuseram a pensá-la de maneira paradoxal e produtiva, será mais fácil e imediato um suporte que lhes assegurem as convicções, por mais que elas não sejam baseadas em reflexão.

E nesse sentido seria mais distante alcançar a vontade de arrependimento genuíno. Há um arrependimento genuíno? Essa é a pergunta mais complexa até então.

Haveria, se estivéssemos no céu, límpido, brilhante e desinteressado. Por isso, também, não é verdade que deixar de falar “eu avisei” resolverá o lastro de ressentimento agressivo e operador dessa equação.

Atitudes mais contemporizadoras não conseguirão limpar o terreno do ódio de classe de quem apregoava “eu quero meu país de volta!”. Ingenuidade. Freud elaborou a noção de “narcisismo das pequenas diferenças” para avaliar os motivos do apoio ao hitlerismo.

carolina ferraz rica - “Eu sou rycaa!”: o eleitor entre o ressentimento e o arrependimento
Carolina Ferraz interpretando a arrogante Norma, em “Beleza Pura”, na cena do famoso piti: “Eu sou rica!” | Reprodução

Em uma novela de décadas atrás, uma personagem de Carolina Ferraz afirmava, com a galhardia brazuca: “Sabe por que eu não vou presa? Porque eu sou rica, rica, rica!!!”

Somente com teoria social e ciência política não se encontrarão explicações para isso que estamos vivendo. Chamemos um arsenal de interpretações, mas, por hora, nos aquietemos nos pilares expostos.

A reação social à guerra e ao genocídio que estamos perto de vivenciar estará estruturada no manejo terapêutico que a sociedade poderá ou não experienciar, para um lado ou para os outros lados.

Mais claramente: a dose de conhecimento histórico, mecanismos discursivos e operações que o corpo vive em termos psicológicos encontram respaldo nos indivíduos e grupos sociais?

A necessidade de nos mantermos vivos urge, por isso a queda desse presidente – e mais, desse governo – é imperativa. Porém, sem um marco que ressoe e fixe a semente, nascerá disso outras tantas derrotas daninhas.


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Marcelo Brice
doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor efetivo da Universidade Federal do Tocantins (UFT)