Elder Dias

Do ponto de vista jornalístico, foi excelente a entrevista do presidente do Goiás, Marcelo Almeida, ao repórter André Rodrigues, da Rádio Sagres. Já do ponto de vista clubístico mesmo, foi um terremoto.

Mais de uma hora e meia de desabafos – para, no fim, ele dizer que tinha muito mais a desabafar.

No começo da tarde desta sexta-feira, um amigo me alertou sobre a entrevista que estava rolando e então comecei a ouvir, menos de 20 minutos após o início. A coisa estava de tal forma bombástica e o rumo do discurso se dava de tal maneira que pensei que o presidente já tinha renunciado.

Marcelo Almeida foi literalmente sem filtros: não poupou palavrões, acusações a dirigentes, falou valor de salário de assessores e diretores, disse que alguns jogadores são “tranqueiras”, assumiu que é presidente, mas não pode tirar “certas peças”, e admitiu que o modelo de administração do Goiás está ultrapassado.

O conteúdo da entrevista parecia o de alguém franco-atirador, que não teria mais nada a perder. Como o lendário personagem Brás Cubas, de Machado de Assis, que, por já ter morrido, conta sua própria história sem nenhuma censura, nenhum medo de perder mais alguma coisa.

Na prática, porém, foi um pronunciamento totalmente desequilibrado para um dirigente que comanda um clube do nível do Goiás Esporte Clube. Um desespero precoce (em vista do número de jogos até o fim do Brasileirão), repleto de palavras chulas e suposições extremas que não combinam com o cargo nem com a história do médico e cidadão Marcelo Almeida.

O ventilador ficou de tal modo sujo que só se pode chegar a uma conclusão: ou ele deixa o comando ou o Goiás não tem qualquer chance de escapar do rebaixamento.

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Ninguém foi poupado, mas já há alguém com o destino traçado: o técnico Thiago Larghi. Sem nenhum constrangimento, o presidente disse que havia sido contra a saída de Ney Franco e que, sobre seu sucesso, não poderia fazer muita coisa caso viesse mais uma derrota, porque treinador “vive de resultados”.

Entre declarações constrangedoras – como dizer que queria “jogador maloqueiro e drogado, mas que fizesse gol em campo” – e acusações a esmo – “têm opiniões compradas na imprensa goiana” –, ele fez o relato (que me parece correto) de sua polêmica esticada no litoral pernambucano na sequência da viagem da delegação do clube a Recife, na derrota para o Sport.

Talvez tenha sido esse episódio o estopim para explodir a bomba no microfone de uma rádio. Mas o que fez foi desastroso para o clube e pareceu muito mais uma declaração de guerra a parte da família Pinheiro (Edminho e Paulo Rogério) do que uma batida forte na mesa para tomar o comando que ele mesmo confessou não ter sobre várias facetas da administração.

Porém, o centro de toda a questão talvez esteja neste trecho do desabafo: “É muita coincidência ter acontecido isso com o Syd (de Oliveira Reis), João Bosco (Luz), (Sérgio) Rassi, estar acontecendo comigo e vai acontecer com todos os outros, se continuar do jeito que está.”

“Ninguém que está fora da cadeira (de presidente) sabe do que estou falando. se eu conversar com syd, com pedro goulart, com joão bosco (ex-presidentes), sabem do que estou falando”

O “isso” se refere à forma de administração do Goiás, algo que este Blog e este colunista aqui já criticaram tantas vezes, inclusive com a criação de um termo: o serrinhismo. Marcelo disse que o clube é “emperrado” e disse, por fim: Por que o Goiás não pode ser diferente? Alguém já parou para pensar que o Goiás é o que é por conta do sistema?

Revelar que contratações de jogadores são itens que constam em ata depois de passar por uma votação de um colegiado mostra o quanto o Goiás é um clube burocrático.

Conclusão: o Goiás não tem uma voz de comando para montar um time de futebol. Como todo mundo contrata, logo não há um culpado pelo fracasso em campo. E o começo de tudo dar errado em qualquer empresa é ter muita gente mandando e ninguém executando.

O Goiás Esporte Clube é assim faz tempo. Pelo menos desde a venda de Felipe Menezes por Syd Reis, negociação pela qual Hailé Pinheiro condenou o então presidente e deu origem ao famigerado “colegiado”. Talvez haja mais tempo, talvez esse desgoverno seja desde a saída de Raimundo Queiroz.

Quem vai pagar o pato? O clube e seu maior patrimônio, os torcedores.

Depois da metralhadora giratória de Marcelo Almeida, só há dois caminhos para evitar a Série B: ou sua renúncia (com novamente a volta de HP ao comando) ou a união de todos os manda-chuvas em torno da reconstrução da harmonia. Fora isso, nos vemos na Segundona.

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LINCOLNEANAS

 * * * * *  Cumprimentos a André Rodrigues, pela condução da entrevista com o presidente esmeraldino. Depois de um período conturbado com o fracasso previsível das “Feras do Kajuru”, a equipe de esportes da Sagres volta a fazer um trabalho altamente profissional, comandada por Charlie Pereira.

* * * * *  Para conferir a íntegra da entrevista de Marcelo Almeida, clique aqui.

 * * * * *  O jogo de quarta-feira foi o 3 a 3 mais mentiroso a que já assisti. Um festival de horrores dos dois times. O Goiás nitidamente sem vontade de jogar bola, nem ao menos de dar combate ao adversário. Mas o Coritiba fez questão de não vencer uma partida ganha.

 * * * * *  Hailé Pinheiro pegou covid-19, mas felizmente se recuperou. Quem está doente agora é o Goiás Esporte Clube. E na UTI. O destino do paciente está, no mínimo, bastante incerto.


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