Na sexta-feira, 28, quando esteve em Goiânia o candidato Fernando Haddad (PT), que substituiu Lula na vaga do partido à Presidência, proliferaram vídeos ironizando a aludida pouca adesão à atividade de rua agendada pela campanha petista para o Centro da capital.

Era o natural trabalho de desconstrução do exército de bolsominions, ou simplesmente minions, como ficaram conhecidos os apoiadores mais entusiasmados do candidato Jair Bolsonaro (PSL), que construiu sua recente ascensão meteórica na política – de deputado improdutivo do baixo clero a líder das intenções de voto para presidente – tendo como alvo diuturno o Partido dos Trabalhadores.

Ele não foto 1 300x199 - #EleNão: elas foram às ruas para pôr a democracia em seu devido lugar
Mulheres gritam “Ele não!” em Goiânia: maior reação da democracia às ameaças a ela foi marcada pela mais ampla diversidade ! Brenno Sarques

Talvez imaginassem que a discretíssima atividade do Andrad em solo goianiense fosse um prenúncio de que o #EleNão, o protesto convocado pelas mulheres nas redes sociais para o dia seguinte, seria também um fiasco. Coisa de Facebook e nada mais.

Só que não.

O que ocorreu em Goiânia – onde pude presenciar – e, de resto, se observou em todo o País e no exterior teve muito pouco a ver com o PT ou com qualquer outro partido. Obviamente, quem se manifestava era, em sua maioria, de viés progressista, de esquerda ou de centro-esquerda. Mas havia também liberais e gente de direita que não vê qualquer motivação para cerrar fileiras com as ideias do “coiso”, uma das muitas expressões usadas para evitar a referência ao candidato por seu próprio nome.

No meio da multidão que cortou as principais avenidas das principais cidades do País, tinham também candidatas e candidatos em um multipartidarismo muito bonito. Adesivos e panfletos com nomes de postulantes ao Legislativo que iam do PT ao PSDB e do PSOL ao PSC sem qualquer problema. Bandeiras verde-amarelas de Ciro Gomes (PDT) transitavam em meio a gente declarando voto em João Amoêdo (Novo). Para dar o tempero de cores e sons muito além do vermelho, representantes de todos os movimentos sociais. Todos em perfeita paz. Tudo na mais plena democracia.

Uma união de tantas ideologias diferentes para combater outra deve fazer algum sentido. Quando Estados Unidos e União Soviética se juntaram contra o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini já viviam visões diferentes (e que depois se confrontariam, infelizmente, em guerras e regimes sanguinários mundo afora), mas entenderam haver um motivo mais urgente a combater.

Portanto, o que estava posto ali era mais do que uma eleição ou seu resultado. Era um posicionamento forte daquelas que são maioria dos votantes e da população. Mulheres que se uniram em um grupo virtual que em poucos dias chegou a 3 milhões de participantes e, mesmo com invasões de hackers e ameaças de opositores, levaram adiante a consolidação de um megaprotesto contra a intolerância, o fascismo, o racismo, a misoginia e a homofobia.

O #EleNão é tudo isso. Seu alvo, no entanto representa ainda mais negatividades. E a entrevista do deputado-presidenciável ao jornalista José Luiz Datena, ainda no hospital, mostra bem quais são seus valores diante da República: “Não aceito outro resultado eleitoral que não minha vitória”. Justificou-se com a alegação de que as urnas eletrônicas são vulneráveis a fraudes. Um argumento que não usou nas inúmeras vezes que foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Isso faz das manifestações deste 29 de setembro um marco contra um personagem político que, dadas as condições precárias do nosso sistema político-partidário, chegou a um protagonismo esdrúxulo e inesperado até para ele próprio. O #EleNão é importantíssimo na luta das mulheres por um tratamento isonômico, mas também foi uma reação firme e forte contra as insinuações antidemocráticas que pairam em torno do líder das pesquisas e de seus principais assessores. O candidato a vice e o eventual ministro da Fazenda já deram declarações em que claramente se mostram dispostos a cassar direitos e tomar medidas bastante heterodoxas, para usar uma adjetivação bem suave.

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